O Rio Grande do Norte aparece no mapa brasileiro do
urânio, mas ainda não sabe quanto dessa riqueza existe sob seu território nem
se ela poderá se transformar em atividade econômica. O Estado está entre as
oito unidades da Federação com ocorrências e indícios do mineral, matéria-prima
utilizada na geração nuclear e em programas estratégicos. Décadas de baixa
intensidade das pesquisas geológicas, porém, deixaram uma distância considerável
entre identificar a presença do elemento e comprovar uma jazida capaz de
sustentar mineração comercial.
A diferença é fundamental. A presença de urânio em
determinada formação geológica não significa que exista uma reserva
economicamente aproveitável. Segundo as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), o
País reúne cerca de 295 mil toneladas de recursos conhecidos de urânio e figura
entre os dez maiores detentores mundiais. Atualmente, entretanto, a única mina
brasileira em atividade fica em Caetité, na Bahia, onde os recursos são
estimados em 87 mil toneladas e a capacidade instalada alcança aproximadamente
400 toneladas anuais.
No RN, a Agência Nacional de Mineração (ANM)
informou não identificar registros de exploração de urânio. O presidente do
Sindicato das Indústrias de Mineração do Rio Grande do Norte (Sindminerais-RN),
Mário Tavares, afirma, contudo, que existem áreas com incidência de minerais
radioativos, sobretudo associadas a pegmatitos e rochas ígneas. Uma das regiões
mencionadas é Pau Pedra, em Currais Novos, próxima a áreas historicamente
ligadas à mineração de scheelita, onde teriam sido realizados estudos sobre
minerais radioativos.
O obstáculo está justamente em transformar esses
indícios em conhecimento geológico detalhado. “A maioria dos nossos empresários
não quer investir na pesquisa, já quer investir na produção. Em alguns casos,
não é possível você fazer isso, você tem que estudar para ver a viabilidade”,
afirma Tavares. Sem sondagens, análises e estimativas de teor e volume, não é
possível determinar se uma ocorrência pode evoluir para recurso mineral e,
posteriormente, para uma reserva explorável.
O momento nacional, no entanto, pode mudar esse
cenário. Em julho, o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) instituiu um
grupo de trabalho coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para
avaliar o conhecimento brasileiro sobre recursos e reservas de urânio e
dimensionar o potencial de produção. Participam instituições como Casa Civil,
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Ministério do Meio
Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Serviço Geológico do Brasil (SGB), além de
convidados como ANM, Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), Empresa
de Pesquisa Energética (EPE) e INB.
A discussão ocorre em um momento no qual o governo
pretende elevar a produção nacional. A INB estima que, para acompanhar uma
eventual expansão da geração nuclear brasileira para 14 gigawatts (GW), seria
necessário alcançar produção de aproximadamente 3 mil toneladas de urânio por
ano. É uma escala muito superior à capacidade atual de Caetité.
A principal mudança para o futuro está na tentativa
de aproximar o capital privado de uma atividade historicamente concentrada na
União. A Lei nº 14.514, de 2022, abriu caminho para novas formas de associação
da INB com empresas privadas, mas a regulamentação necessária para dar escala
ao modelo ainda está em discussão no governo federal.
A proposta em análise prevê a criação de Sociedades
de Propósito Específico (SPEs) para pesquisa, mineração e beneficiamento, com
participação da INB. No desenho discutido, investidores privados assumiriam os
aportes necessários, enquanto a estatal poderia contribuir com direitos
minerários, dados geológicos, conhecimento técnico e outros ativos. O objetivo
é resolver uma das principais limitações do setor: o custo e o risco elevados
de procurar novas jazidas sem garantia de que a pesquisa resultará em uma mina
comercial.
Esse movimento já ganhou uma frente concreta. O
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Empresa
Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) e a INB
estruturam o Programa Pró-Urânio para desenvolver modelos de parceria com
empresas privadas. Em 28 de agosto, o BNDES definiu o consórcio responsável
pela modelagem. As propostas deverão ser apresentadas até o segundo trimestre
de 2027.
Inicialmente, cinco áreas estão no radar do
programa, localizadas em Goiás, Paraíba, Paraná, Tocantins e Bahia. O Rio
Grande do Norte não integra essa primeira carteira. Isso significa que não
existe, neste momento, projeto anunciado para abertura de mina de urânio no
Estado. A eventual entrada potiguar nessa nova fronteira dependerá de uma etapa
anterior: ampliar o conhecimento sobre as ocorrências existentes e comprovar
tecnicamente sua dimensão.
Há ainda a possibilidade de o urânio aparecer
associado a outros minerais. Essa característica é importante em uma província
mineral como a potiguar porque determinadas operações podem identificar
substâncias nucleares durante pesquisas direcionadas originalmente a outros
minérios. A regulamentação das parcerias procura estabelecer como essas
descobertas serão tratadas sem inviabilizar automaticamente investimentos
privados.

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