O texto é de Mario Sabino, do Metrópoles:
"O julgamento no STF sobre autorizar ou não a
investigação contra Alexandre de Moraes, ainda em andamento, me faz lembrar uma
passagem de Os Donos do Poder — Formação do Patronato Político Brasileiro, de
Raymundo Faoro.
No capítulo em que aborda as aspirações difusas da
República Velha, Faoro fala de como havíamos macaqueado mal e porcamente o
sistema republicano americano — e cita, sem endossá-lo, o jurista, sociólogo e
historiador Oliveira Vianna, que propunha um estado centralizador e interventor
para resolver os nossos impasses:
“Em 1921, uma voz renovadora, extraviada em breve no
racismo mítico, lembrando Kipling, conta que os macacos haviam ocupado uma
cidade abandonada, libertando-se da inferioridade da floresta. ‘Entretanto, não
sabiam para que haviam sido destinados aqueles edifícios, nem como se servirem
deles. Sentavam-se, às vezes, todos, em círculo, no vestíbulo que dava para a
Câmara do Conselho Real; coçavam-se e catavam as pulgas do pelo – e tinham a
pretensão de ser homens. (…) ‘Como os macacos de Kipling’ — prosseguia —,
‘imitamos: eles — os homens; nós — os super-homens. Isto é, os que julgamos
superiores a nós, os criadores, os requintados, os progressistas, os que estão,
lá do outro lado do mundo. fazendo civilização. Cada vez que um desses
fazedores de civilização se mexe para fazer uma revolução ou para fazer a
barba, nós, cá do outro lado, ficamos mais assanhados do que a macacaria dos
junglais. De uns copiamos a forma de governo e os modos de vestir, os
princípios da política e os padrões das casimiras — os figurinos, os altaiates
e as instituições. De outros copiamos outras cousas: as filosofias, mais em
voga, as modas literárias, as escolas de arte, os requintes e mesmo as suas
taras de civilizados. De nós é que não copiamos nada. E temos, assim, com a
bicharia do apólogo kiplinguiano estes pontos comuns: a inconsciência, a
volubilidade e… o ridículo.”
Diante do que estamos assistindo no STF, não creio
que se imitássemos nós mesmos as coisas seriam melhores e menos ridículas.
Somos um país desgraçado de qualquer jeito."
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