Sem quebrar um copo, o ministro Alexandre de Moraes
infligiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) um dano mais grave do que o causado
pelos arruaceiros que tomaram a Corte de assalto no fatídico 8 de janeiro de
2023. Na quinta-feira passada, Moraes vandalizou a instituição em nome de sua
defesa pessoal.
O gatilho para a ira do ministro foi a revelação,
feita por este jornal, de novos e inquietantes pormenores da promíscua – e
potencialmente criminosa – relação entre ele e Daniel Vorcaro, que, como se
sabe, celebrou um contrato de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões
com o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. O teor das
dezenas de mensagens extraídas de celulares de Vorcaro pela Polícia Federal
(PF) sugere que Moraes atuava como uma espécie de consigliere do
banqueiro vigarista – nada menos.
Diante desse fato escabroso, o único caminho
republicano seria Moraes se afastar voluntariamente do cargo, poupando o
Supremo de ser atirado na fossa moral em que ele mesmo se meteu. Mas, em vez
disso, o ministro acionou o “modo sobrevivência” e usou o famigerado inquérito
das fake news, seu brinquedo de pequeno tirano, para declarar guerra ao colega
André Mendonça, o relator das investigações sobre o Banco Master no STF, que
ousou levantar o sigilo do relatório da PF e, assim, expôs o grau de
proximidade entre Moraes e Vorcaro.
Já um tal de “relatório de inteligência” – em tese,
também feito pela PF – do qual Moraes se valeu para acusar Mendonça de
improbidade administrativa, abuso de autoridade e violação da Lei Orgânica da
Magistratura Nacional, a bem da verdade, é uma peça tosca que mal vale o papel
em que foi escrita. Não tem cabeçalho oficial, não é assinado por um delegado
federal e consiste em uma série de ilações sobre objetivos políticos de
Mendonça. No corpo do próprio texto, pasme o leitor, consta a advertência de
que se trata de um documento “sem caráter decisório e sem valor probatório” e,
ademais, de “baixa a moderada confiabilidade”. Foi com base nisso que Moraes
pediu – e o presidente do STF, Edson Fachin, em boa hora recusou – que Mendonça
fosse incluído no rol de investigados do inquérito das fake news.
É preciso dizer sem rodeios: o sr. Alexandre de
Moraes e todos os que o protegem no STF – a começar pelo decano do tribunal,
Gilmar Mendes – se tornaram, não de agora, a maior fonte de instabilidade
democrática no País. Essa ala daninha da Corte traiu o espírito norteador da
criação do Supremo Tribunal Federal, em 1891, e a transformou nessa aberração
corporativista que ameaça afundar o Brasil em uma crise de tal magnitude que,
no limite, pode pôr em risco a própria democracia.
Para salvar a pele, Moraes ainda tenta impor uma
falsa equivalência entre legítimas dúvidas técnicas a respeito da atuação de
Mendonça como relator do caso Master e as suspeitas gravíssimas que pesam sobre
si mesmo. Ao que tudo indica, Moraes aposta na confusão generalizada para, ao
fim e ao cabo, evitar ter de responder sobre o mérito dessas suspeitas,
fixando-se na forma como foram expostas. Também não se pode condenar quem veja
em sua campanha iracunda a pavimentação do caminho até a nulidade de todas as
investigações sobre o caso Master no STF – sonho de todos em Brasília que
colocaram suas almas à venda para servir aos interesses comerciais de Vorcaro.
Para piorar, o subproduto dessa crise é a
instrumentalização escancarada da PF: ora acionada por Moraes para produzir
“relatórios” a seu feitio, ora orientada pelo decano do STF a praticar
desobediência civil, ignorando decisões de Mendonça que considere “ilegais”,
ora ameaçada pelo próprio Mendonça com o afastamento de seu diretor-geral, Andrei
Rodrigues. Uma corporação que deve primar pela atuação legal, técnica e
republicana virou joguete nas mãos de autoridades movidas por suas próprias
agendas.
O STF se reergueu fisicamente dos escombros do 8 de
Janeiro. É incerto, porém, se será capaz de se libertar do cativeiro em que foi
aprisionado por Moraes, que faz da Corte refém de suas ambições. Agora cabe a
Fachin liderar essa histórica missão de resgate. Se decidir fazê-lo, tomando as
decisões que lhe cabem nessa hora grave, o ministro presidente pode estar certo
de que terá do jornal O Estado de S. Paulo todo o apoio de que
precisar.
Opinião do Estadão

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