terça-feira, 25 de agosto de 2026

O mistério dos 30%: no RN, até os indecisos parecem mais indecisos

 


Não é do meu feitio — e muito menos considero adequado — fazer pronunciamentos públicos sobre resultados de pesquisas realizadas por outros institutos. Entendo que esse tipo de julgamento deve caber à imprensa, à opinião pública, aos partidos, aos agentes políticos e, quando necessário, aos órgãos que integram a Justiça Eleitoral.

Mas, em respeito aos pesquisadores e institutos que trabalham com seriedade no Rio Grande do Norte, alguns números merecem, no mínimo, ser colocados lado a lado.

Curiosamente, alguns dos resultados mais destoantes já divulgados no Estado vieram justamente de institutos nacionais. Em um desses episódios, um levantamento conseguiu a façanha de colocar na liderança para o Governo um candidato que aparecia em terceiro lugar na maioria das pesquisas daquele período. Na disputa para o Senado, outra candidatura que figurava normalmente na quarta ou quinta posição também apareceu, surpreendentemente, em primeiro lugar.

Coincidências estatísticas acontecem. Algumas, convenhamos, são mais criativas que outras.

Agora temos outro dado que chama atenção.

Uma pesquisa recente de um instituto nacional apontou, na pergunta estimulada para governador do Rio Grande do Norte, 30% na soma de eleitores indecisos/não sabem e aqueles que declararam branco, nulo ou nenhum.

O número, isoladamente, poderia ser apenas uma característica daquele levantamento. O problema começa quando fazemos algumas comparações.

Na última pesquisa nacional para presidente divulgada pelo mesmo instituto, a soma desses grupos ficou em aproximadamente 18%. São 12 pontos percentuais de diferença.

E há algo ainda mais curioso dentro da própria pesquisa realizada no RN: quando os entrevistados são questionados sobre a eleição presidencial, a soma de indecisos e branco/nulo/nenhum cai para aproximadamente 20%.

Ou seja: o mesmo eleitor, entrevistado na mesma pesquisa, parece ficar consideravelmente mais decidido quando sai da disputa estadual e entra na presidencial.

Por quê?

Seria o eleitor potiguar excepcionalmente mais indeciso quando o assunto é escolher o governador? Estaria o eleitor do RN mais “em cima do muro” na eleição estadual do que na presidencial?

Talvez seja útil olhar para um parâmetro bastante simples: as demais pesquisas realizadas no Estado.

Nos últimos 30 dias, foram divulgados levantamentos de 10 institutos diferentes com cenário estimulado para governador: Quaest, Perfil, ITEM, DataVero, Consult, Seta, Agorasei, Metadata, DataCapital e TS2/TCM.

Considerando esses levantamentos, a média da soma de branco/nulo/nenhum + indecisos/não sabe/não respondeu ficou em aproximadamente 19,6%.

Portanto, temos: Média das pesquisas no RN: 19,6%; Pesquisa em questão: 30%.

Uma diferença superior a 10 pontos percentuais.

É evidente que pesquisas diferentes podem produzir resultados diferentes. Amostragem, metodologia, período de campo, abordagem, questionário e até a ordem das perguntas podem influenciar os números. Pesquisa eleitoral não é fotografia tirada com régua milimétrica.

Mas diferenças dessa dimensão merecem explicação.

E é justamente aí que fica a pergunta mais simples — e talvez a mais importante: de onde surgiram esses 30%?

Não afirmo que exista erro. Muito menos fraude. Isso exigiria elementos técnicos que uma simples comparação de pesquisas não fornece. Mas discrepâncias são perfeitamente passíveis de questionamento — principalmente quando se afastam de forma tão expressiva do conjunto dos demais levantamentos.

No fim, fica uma impressão incômoda: alguns grandes institutos parecem extremamente cuidadosos com a reputação quando estão sob os holofotes nacionais. Quando desembarcam em estados menores, distantes do centro político do país, às vezes parece que o mesmo zelo metodológico tira alguns dias de férias.

O Rio Grande do Norte pode até estar longe do eixo Rio–São Paulo. A estatística, porém, deveria continuar sendo a mesma.

 

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