Não é do meu feitio — e
muito menos considero adequado — fazer pronunciamentos públicos sobre
resultados de pesquisas realizadas por outros institutos. Entendo que esse tipo
de julgamento deve caber à imprensa, à opinião pública, aos partidos, aos
agentes políticos e, quando necessário, aos órgãos que integram a Justiça
Eleitoral.
Mas, em respeito aos
pesquisadores e institutos que trabalham com seriedade no Rio Grande do Norte,
alguns números merecem, no mínimo, ser colocados lado a lado.
Curiosamente, alguns dos
resultados mais destoantes já divulgados no Estado vieram justamente de
institutos nacionais. Em um desses episódios, um levantamento conseguiu a
façanha de colocar na liderança para o Governo um candidato que aparecia em
terceiro lugar na maioria das pesquisas daquele período. Na disputa para o
Senado, outra candidatura que figurava normalmente na quarta ou quinta posição
também apareceu, surpreendentemente, em primeiro lugar.
Coincidências estatísticas
acontecem. Algumas, convenhamos, são mais criativas que outras.
Agora temos outro dado que
chama atenção.
Uma pesquisa recente de um
instituto nacional apontou, na pergunta estimulada para governador do Rio
Grande do Norte, 30% na soma de eleitores indecisos/não sabem e aqueles que
declararam branco, nulo ou nenhum.
O número, isoladamente,
poderia ser apenas uma característica daquele levantamento. O problema começa
quando fazemos algumas comparações.
Na última pesquisa
nacional para presidente divulgada pelo mesmo instituto, a soma desses grupos
ficou em aproximadamente 18%. São 12 pontos percentuais de diferença.
E há algo ainda mais
curioso dentro da própria pesquisa realizada no RN: quando os entrevistados são
questionados sobre a eleição presidencial, a soma de indecisos e
branco/nulo/nenhum cai para aproximadamente 20%.
Ou seja: o mesmo eleitor,
entrevistado na mesma pesquisa, parece ficar consideravelmente mais decidido
quando sai da disputa estadual e entra na presidencial.
Por quê?
Seria o eleitor potiguar
excepcionalmente mais indeciso quando o assunto é escolher o governador?
Estaria o eleitor do RN mais “em cima do muro” na eleição estadual do que na
presidencial?
Talvez seja útil olhar
para um parâmetro bastante simples: as demais pesquisas realizadas no Estado.
Nos últimos 30 dias, foram
divulgados levantamentos de 10 institutos diferentes com cenário estimulado
para governador: Quaest, Perfil, ITEM, DataVero, Consult, Seta, Agorasei,
Metadata, DataCapital e TS2/TCM.
Considerando esses levantamentos,
a média da soma de branco/nulo/nenhum + indecisos/não sabe/não respondeu ficou
em aproximadamente 19,6%.
Portanto, temos: Média das
pesquisas no RN: 19,6%; Pesquisa em questão: 30%.
Uma diferença superior a
10 pontos percentuais.
É evidente que pesquisas
diferentes podem produzir resultados diferentes. Amostragem, metodologia,
período de campo, abordagem, questionário e até a ordem das perguntas podem
influenciar os números. Pesquisa eleitoral não é fotografia tirada com régua
milimétrica.
Mas diferenças dessa
dimensão merecem explicação.
E é justamente aí que fica
a pergunta mais simples — e talvez a mais importante: de onde surgiram esses
30%?
Não afirmo que exista
erro. Muito menos fraude. Isso exigiria elementos técnicos que uma simples
comparação de pesquisas não fornece. Mas discrepâncias são perfeitamente
passíveis de questionamento — principalmente quando se afastam de forma tão
expressiva do conjunto dos demais levantamentos.
No fim, fica uma impressão
incômoda: alguns grandes institutos parecem extremamente cuidadosos com a
reputação quando estão sob os holofotes nacionais. Quando desembarcam em
estados menores, distantes do centro político do país, às vezes parece que o
mesmo zelo metodológico tira alguns dias de férias.
O Rio Grande do Norte pode
até estar longe do eixo Rio–São Paulo. A estatística, porém, deveria continuar
sendo a mesma.

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