Como todo mundo sabe, mais do que o cano do
revólver, o poder mais eficiente é o do carimbo. Eis o poder ao qual o
companheiro Paulo Gonet recorreu nesta semana, ao pedir que o ministro André
Mendonça remeta à primeira instância os inquéritos que envolvem Fábio Luís Lula
da Silva, o Lulinha, investigado por suposto tráfico de influência na venda de
canabidiol ao Ministério da Saúde e em negócios ligados à Dataprev. O argumento
usado pelo serviçal do luloalexandrismo, obviamente, procura disfarçar-se sob
uma razão técnica: sem foro privilegiado, não há lugar no STF. Mas quem
acompanha o roteiro sabe que a técnica jurídica, neste país, é inteiramente
seletiva.
Não é a primeira vez, aliás, que, por meio de seus
sabujos, o regime busca desesperadamente tirar o caso das mãos de André
Mendonça. Em agosto, a Polícia Federal já havia tentado, com o beneplácito da
própria PGR, afastá-lo do caso, sob a alegação de que a investigação sobre o
lobista conhecido como Careca do INSS nada teria a ver com a Operação Sem
Desconto. Perdeu a queda de braço apenas porque o sorteio, essa rara ironia do
acaso, teimou em devolver o processo justamente a quem o havia aberto. Desta
vez, muda-se a tática, mas não o objetivo: ao contrário do que foi feito com os
inocentes do 8 de janeiro, trata-se agora de tirar o inquérito do centro do
poder e empurrá-lo discretamente para as sombras da Justiça comum, onde os
operadores do Direito podem ser mais vulneráveis às pressões de Brasília.
Paulo Gonet, como de hábito, cumpre seu papel com
aquela que é sua marca característica, por mim já apontada aqui na coluna: o
rosto anódino do burocrata que não hesita nem se emociona, mas formaliza em
despacho a diretriz partidária. O mesmo semblante impassível que o país viu
durante a sabatina no Senado é o que agora, decerto, assina pareceres que
blindam quem precisa ser blindado e perseguem quem precisa ser perseguido.
Gonet, como Eichmann, cumpre ordens.
O resultado é uma engenharia de proteção que nem
sequer requer conspiração explícita — embora esta também tenha seu lugar,
sobretudo quando regada a uísque subsidiado numa taverna londrina. Basta que
cada peça da máquina — PGR, PF e gabinetes amigos — cumpra, a seu tempo, a
parte que lhe cabe. Quando o filho do presidente é o investigado, o Estado
descobre, milagrosamente, que o rigor pode esperar.
REVISTA OESTE

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