O Rio Grande do Norte registra o menor índice de
esclarecimento de homicídios do Brasil. Apenas 9% dos homicídios dolosos
resultaram em denúncia apresentada pelo Ministério Público entre 2020 e 2023,
segundo o estudo “Diagnóstico sobre a Investigação de Homicídios no Brasil”,
divulgado nesta quarta-feira 8 pelo Instituto Sou da Paz. O levantamento
analisou os fatores associados às taxas de esclarecimento de homicídios nos
estados brasileiros e, pela primeira vez, buscou identificar por que algumas
unidades da federação conseguem resultados superiores aos de outras.
O caso do Rio Grande do Norte chama atenção porque,
mesmo apresentando uma taxa de homicídios inferior à de diversos estados das
regiões Norte e Nordeste, registra o menor percentual de esclarecimento do
País, cenário que pode indicar fragilidades na estrutura investigativa local.
O estudo considera esclarecido o homicídio doloso
que resulta em denúncia criminal oferecida pelo Ministério Público até o final
do ano seguinte ao crime. O indicador mede a responsabilização inicial no
sistema de Justiça e não inclui etapas posteriores, como julgamento ou
condenação. Os percentuais divulgados correspondem à média registrada entre
2020 e 2023.
Na outra ponta do levantamento aparece Goiás, com
média de 86% de esclarecimento dos homicídios. No entanto, o Instituto Sou da
Paz ressalta que o Estado disponibilizou dados para apenas um dos quatro anos
analisados. Por isso, a pesquisa aponta o Distrito Federal como a principal
referência nacional, por reunir elevado percentual de esclarecimento, de 81%, e
maior regularidade no envio das informações ao longo da série histórica.
Na sequência aparecem Minas Gerais (75%), Paraná
(72%), Mato Grosso do Sul (71%), Rondônia (67%) e Santa Catarina (65%). Entre
os estados com os menores índices estão Rio Grande do Norte (9%), Bahia (14%),
Piauí (23%), Rio de Janeiro (23%) e Ceará (27%). Alagoas, Rio Grande do Sul e
Tocantins não disponibilizaram dados suficientes para integrar a série
histórica analisada.
O estudo também destaca o caso de São Paulo. Embora
o Estado tenha registrado a menor taxa de homicídios do País em 2023, com 7,8
mortes por 100 mil habitantes, apresentou média de esclarecimento de 40% entre
2020 e 2023 e vem registrando queda no indicador. Depois de atingir 47% em
2021, o índice caiu para 40% em 2022 e chegou a 31% em 2023, o menor percentual
da série histórica analisada pelo Instituto Sou da Paz.
Segundo a pesquisa, São Paulo apresenta desempenho
inferior ao esperado para seu contexto criminal, demonstrando que a redução da
taxa de homicídios não se traduz, necessariamente, em maior capacidade de
investigação.
O levantamento também concluiu que não existe
relação direta entre o número de policiais ou de peritos por habitante e as
taxas de esclarecimento. Em contrapartida, identificou que estados que
transformaram a investigação de homicídios em prioridade permanente,
estabeleceram metas, monitoraram indicadores, fortaleceram a perícia e adotaram
gestão por resultados apresentaram avanços consistentes.
Entre os exemplos citados está Mato Grosso, que
elevou sua taxa anual de esclarecimento de homicídios de 33% para 71% entre
2020 e 2023. Rondônia passou de 50% para 92% no mesmo período. A Paraíba
ampliou o índice de 32% para 46%, enquanto Sergipe avançou de 46% em 2022 para
64% em 2023.
Delegada-geral diz que índice chega a
50%
A delegada-geral da Polícia Civil do Rio Grande do
Norte, Ana Cláudia Saraiva, contestou os dados do estudo do Instituto Sou da
Paz que coloca o RN na última posição do País em esclarecimento de homicídios.
Segundo ela, o levantamento utilizou informações referentes a 2020 e 2021 e não
reflete os indicadores oficiais atualmente adotados pela Secretaria de Estado
da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed).
“É preciso esclarecer que esse estudo toma como base
dados de 2020 e 2021. O próprio Instituto, com relação a 2022 e 2023, não
utilizou esses dados, eles foram rejeitados. O índice de elucidação de
homicídios no nosso Estado, hoje, chega a quase 50%”, afirmou.
De acordo com a delegada, esse percentual
corresponde às cidades e regiões atendidas por Delegacias Especializadas em
Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPPs). Nas localidades onde ainda não há
unidades especializadas, ela informou que o índice de elucidação é de 35%.
“Esses índices que nós estamos divulgando aqui de
elucidação de homicídios nas cidades e nas regiões onde nós, através de uma
política de Estado, implantamos delegacias de homicídios, então o índice de
elucidação é de quase 50%. E, nas demais cidades, onde não há DHPP, o índice é
de 35%”, disse.
Ana Cláudia afirmou que os dados utilizados pelo
Instituto Sou da Paz diferem dos indicadores oficiais da Segurança Pública.
Segundo ela, o sistema de monitoramento atualmente utilizado passou a ser
adotado em 2024 e é auditado por órgãos de controle.
“Esse índice de quase 50% de elucidação da DHPP é um
índice seguro, auditável e fiscalizado pela Secretaria de Segurança Pública,
pela Secretaria Nacional de Segurança Pública e pelo próprio Ministério
Público. Esse dado que nós, Polícia Civil, estamos repassando da elucidação da
Polícia Civil do RN de quase 50% é um índice que pode ser comprovado,
inclusive, através do CPF de todas as vítimas cujo crime foi elucidado.”
A delegada acrescentou que o levantamento do
Instituto Sou da Paz utiliza uma metodologia diferente da adotada pela Polícia
Civil. “O estudo leva em consideração dados que não são das Secretarias de
Segurança Pública. Esses dados dizem respeito às denúncias e a informações
coletadas de 2020 e 2021 junto ao Poder Judiciário. Não são dados oficiais, que
só são possíveis hoje na Segurança Pública através desse indicador que nós
publicamos em 2024.”
Segundo a delegada-geral, a estratégia da Polícia
Civil é ampliar o número de DHPPs no RN para aumentar a capacidade de
investigação dos homicídios. Ela afirmou que, quando a atual gestão assumiu a
instituição, em 2019, o índice de elucidação era de 15%.
“Em 2019, o índice de elucidação era de 15%. Hoje,
após a implantação das DHPPs, que são as Delegacias de Homicídios, no cinturão
da Região Metropolitana de Natal, ampliação das delegacias de homicídio em
Mossoró e implantação de núcleos que nós estamos fazendo nas regionais do
Estado, esse índice subiu. Ele era 15% em 2019, hoje chega a quase 50% de
elucidação.”
Ela afirmou que a meta da Polícia Civil é expandir a
estrutura especializada para outras regiões do Rio Grande do Norte. “A meta é
ampliarmos as delegacias de homicídios no maior número de cidades possíveis,
interiorizando cada vez mais, porque assim nós teremos uma política de Estado
cada vez mais eficiente no combate, na redução de homicídios e no nível de
elucidação.”
Questionada sobre uma possível contestação oficial
ao estudo divulgado pelo Instituto Sou da Paz, Ana Cláudia disse acreditar que
futuras pesquisas, utilizando os indicadores oficiais da Segurança Pública,
deverão refletir os resultados apresentados pela Polícia Civil.
“Acredito que novas pesquisas com dados atualizados
e com base nos indicadores do Sistema de Segurança Pública, fiscalizado e
auditado pelo Ministério Público, mostrarão exatamente que os números da
Segurança Pública são mais favoráveis. Oficialmente, de forma comprovada e
auditável, nós podemos comprovar o que afirmamos: o índice de elucidação onde
tem DHPP é de quase 50%.”,
Confira o ranking
- Goiás
86%;
- Distrito
Federal 81%;
- Minas
Gerais 75%;
- Paraná
72%;
- Mato
Grosso do Sul 71%;
- Rondônia
67%;
- Santa
Catarina 65%;
- Mato
Grosso 57%;
- Sergipe
55%;
- Espírito
Santo 48%;
- Acre
47%;
- Maranhão
41%;
- Amazonas
41%;
- São
Paulo 40%;
- Paraíba
39%;
- Roraima
39%;
- Pernambuco
33%;
- Amapá
30%;
- Pará
29%;
- Ceará
27%;
- Rio
de Janeiro 23%;
- Piauí
23%;
- Bahia
14%;
- Rio
Grande do Norte 9%.
Agora RN
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