A nova preocupação envolve a possibilidade de os
Estados Unidos aplicarem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com
eventual adicional de 12,5% ligado a acusações de omissão no combate ao
trabalho escravo.
O setor pesqueiro do Rio Grande do Norte voltou a
acender o alerta diante da possibilidade de uma nova tarifa dos Estados Unidos
sobre produtos brasileiros. Ainda em recuperação dos efeitos do tarifaço
anterior, empresários temem que uma nova cobrança retire competitividade do
pescado fresco potiguar, especialmente atum, meca e pescados costeiros, hoje
entre os principais itens exportados pelo Estado para o mercado americano.
O diretor do Sindipesca no Rio Grande do Norte,
Arimar França, afirmou que o setor ainda sente os efeitos da primeira taxação.
Segundo ele, foram sete meses de dificuldades, com empresas que não resistiram,
perda de empregos e tentativas de adaptação ao mercado interno. A alternativa,
porém, não foi suficiente para absorver a produção antes destinada à
exportação.
“O setor ainda está curtindo a ressaca do primeiro
tarifaço. Foram sete meses de muita dificuldade. Algumas empresas não
conseguiram. Ficaram pelo caminho. Muitos empregos foram perdidos e outros
tentaram se adaptar”, disse.
Arimar afirmou que o programa Brasil Soberano,
anunciado pelo governo federal para apoiar empresas afetadas, teve alcance
limitado no setor. Segundo ele, diferentemente das linhas abertas durante a
pandemia, o programa não contava com fundo garantidor, o que restringiu o
acesso ao crédito. “Poucas empresas tiveram acesso. Só tiveram acesso
utilizando seus próprios limites de crédito”, afirmou.
A nova preocupação envolve a possibilidade de os
Estados Unidos aplicarem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com
eventual adicional de 12,5% ligado a acusações de omissão no combate ao
trabalho escravo. Na conta do setor, a taxação poderia chegar a 37,5%. Para
Arimar, esse patamar tornaria o pescado potiguar praticamente inviável no
mercado americano.
“Vai complicar muito, porque fica quase que
semelhante ao 50% que a gente teve o ano passado. Dá 37,5%. É impossível. É
quase impossível”, afirmou. Ele disse que o Brasil consegue competir hoje
porque a tarifa está em 10%, patamar semelhante ao de outros países. Se a
cobrança subir, o produto brasileiro perderá espaço. “Quando a gente partir
para 37,5% contra 10% dos outros, a gente vai ficar de fora de novo”, disse.
O peso dos Estados Unidos é maior porque a Europa,
antigo destino relevante do pescado brasileiro, está fechada para o setor desde
2018. Arimar explicou que o pescado fresco produzido no Rio Grande do Norte
tinha como principais mercados Estados Unidos e Europa, enquanto a Ásia compra
sobretudo produtos congelados, como a lagosta. Com o mercado europeu suspenso,
o RN ficou mais dependente dos americanos.
Uma possível reabertura da Europa, no entanto,
passou a ser vista como alternativa. Arimar informou que auditores da
autoridade sanitária europeia farão avaliação no Brasil e que a Produmar,
empresa potiguar do setor, estará entre as unidades auditadas. Segundo ele, a
vistoria não mira apenas empresas, mas o sistema de controle do governo
brasileiro.
A cadeia atingida vai além das indústrias
exportadoras. Arimar citou barcos de pesca industrial, fornecedores locais e
comunidades pesqueiras distribuídas de Baía Formosa e Sagi até Areia Branca.
Segundo ele, são centenas de embarcações e milhares de pescadores envolvidos na
atividade. No caso da pesca, afirmou, cada emprego no mar gera sete ou oito
empregos em terra.
O diretor do Sindipesca também chamou atenção para a
perda de força da indústria pesqueira potiguar nos últimos anos. Segundo ele, o
Estado já teve 11 frigoríficos processando lagosta e hoje basicamente conta com
uma indústria nessa área. O RN também já liderou a produção de camarão e atum
no Brasil, posições hoje ocupadas pelo Ceará.
Mesmo assim, Arimar afirmou que o Rio Grande do
Norte mantém referência no atum voltado à culinária japonesa. Segundo ele, o
pescador potiguar tem baixa escolaridade, mas alta qualificação, o que permite
ao Estado competir com grandes produtores mundiais em qualidade.
O setor pretende procurar a Fiern e a CNI para
acompanhar a evolução da discussão e buscar articulação antes da decisão
americana. Arimar disse que, no momento, o clima é de incerteza, porque
empresários, governo e consultores ainda não sabem se a tarifa permanecerá em 10%,
subirá para 25% ou chegará a 37,5%. “Está muito perdido. O clima é de
incerteza”, afirmou.

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