Mais um governador do Rio de Janeiro desembarca de
pires na mão em Brasília nesta semana, mas este, o desembargador Ricardo Couto,
parece bem diferente de sete anteriores que tiveram problemas na justiça, cinco
deles sendo presos. O Brasil busca desesperadamente sangue novo na política e
na gestão, vamos ser otimistas?
Não só por Couto ser desembargador, porque o
precedente de Wilson Witzel, que caiu no meio do mandato, é uma vergonha para a
magistratura e um dos traumas do Estado. Mas Witzel é Witzel, Couto é Couto.
Passou em primeiro lugar nos concursos para defensor público e para juiz,
buscou os apoios certos ao chegar interinamente ao governo do Rio e parece
determinado a fazer a diferença.
Interromper a farra de 31 secretarias e milhares de
apadrinhados políticos ineptos, fantasmas ou mesmo corruptos é um bom começo.
Já foram afastados 3.072 e, como Couto disse a mim e à repórter Letícia
Fernandes, esse número deve chegar a 6.000. Não é pouca economia.
Além de medidas administrativas, Couto, que preside
o Tribunal de Justiça do Rio e completa 62 anos neste domingo, também investe
pesadamente na recuperação de bilhões perdidos pela corrupção, pela sonegação e
por litígios, por exemplo, com a Petrobrás.
Entre as muitas angústias desse juiz empurrado para
o Palácio Guanabara pela lei e as circunstâncias, está a de ter entregue um
orçamento deficitário em R$ 19 bilhões para 2027. O tempo corre contra ele, que
nunca pensou em ser governador e estima que vá ficar só 60 dias.
Na pauta em Brasília, está rediscutir os cálculos
dos repasses da Petrobrás ao Estado, tirar Manguinhos das mãos sonegadoras de
Ricardo Magro para transformar num polo de desenvolvimento, e, claro, recuperar
boa parte da dinheirama surrupiada do Rioprevidência (fundo de pensão dos servidores)
e da Cedae (a companhia de Águas e Esgotos) para o Banco Master.
Se Couto conseguir boa parte disso, o lindo e
sofrido Rio já pode soltar fogos, o que tende a pesar na eleição de outubro.
Sem se assumir de esquerda, centro ou direita, Ricardo Couto fala de seu
aprendizado social na Defensoria Pública, depois de formado em Direito pela
UERJ, diz que Fernando Henrique foi “um grande presidente” e que Lula tem “bons
índices nas questões sociais”.
Lula apoia o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD),
derrotado de última hora pelo fake Wilson Witzel em 2018. Flávio Bolsonaro, sem
candidato desde que Cláudio Castro foi pego com a boca na botija e nos uísques
de Daniel Vorcaro, deve se contentar com o presidente da Alerj, Douglas Ruas
(PL).
Flávio já disse “sentir inveja” dos navios de Donald
Trump nas costas da Venezuela, sob o pretexto de combater “o terrorismo”, mas o
governador interino critica a classificação de PCC e CV como “terroristas”,
pelos EUA, por abrir “uma perspectiva, não de cooperação, mas de imposição”.
Em outras palavras, ingerência. Ou, ainda, ataque à
soberania nacional. Com a cultura de magistrado, Couto foge do linguajar
político e eleitoral e diz as coisas ao jeito dele. Mas diz. Agora é fazer.
Eliane Cantanhêde - Estadão

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