domingo, 28 de junho de 2026

Exportações do RN para os EUA despencam mais da metade em 2026

 


As exportações do Rio Grande do Norte para os Estados Unidos recuaram mais da metade entre janeiro e maio de 2026 no comparativo com o mesmo período do ano passado. A queda registrada foi de 60,80%, o que representa US$ 38,2 milhões a menos exportados para o país norte-americano (foram US$ 24,7 milhões exportados para os EUA no período, ou 5,1% de participação no volume total). Somente em maio de 2026, o recuo foi de 87,20% na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o que significa uma retração de US$ 26,1 milhões no valor vendido pelo RN ao país norte-americano.

A retração acontece 10 meses após a taxação de 50% imposta pelos Estados Unidos ao Brasil, que ficou conhecida como tarifaço. Embora a realidade atual seja outra, uma vez que a taxação inicial foi revogada pela Suprema Corte americana em fevereiro passado - o que foi seguido por uma nova tarifa global de 10% - a economia do Rio Grande do Norte sente os efeitos de uma crise diplomática que se instalou na relação entre os dois países. Enquanto alguns setores mantiveram o ritmo das exportações a partir da abertura de novos mercados, outros ainda demonstram dependência do país norte-americano, conforme apontam fontes do setor produtivo.

Dados da plataforma Comex Stat, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que de janeiro a julho de 2025, antes da taxação de 50%, o Estado somou US$ 580,23 milhões nas exportações gerais. Já de agosto a dezembro do mesmo ano, período em que a medida entrou em vigor, o valor passou para US$ 547,52 milhões, representando uma queda de 5,6%. Os EUA foram responsáveis por 8,1% das exportações potiguares em todo o ano passado, somando um volume de US$ 91,28 milhões.

Apesar da redução das exportações para os Estados Unidos em 2026, o titular da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte (Sedec/RN), Lahyre Rosado Neto, destacou os dados da balança comercial potiguar do ano passado, mesmo diante do tarifaço que passou a valer a partir de agosto.

“O que os dados de 2025 mostram com clareza é um resultado robusto: o Estado encerrou o ano com o maior saldo comercial de sua série histórica, alcançando US$ 691 milhões, crescimento de 26,3% sobre 2024, e ampliou sua presença para 81 mercados internacionais, incluindo 14 novos destinos abertos ao longo do ano”, aponta o Secretário.

Os dados citados por ele constam no e-book Panorama do Comércio Exterior e das Relações Internacionais do Rio Grande do Norte 2025, elaborado pela Sedec/RN. Embora reconheça que as tarifas americanas impactaram setores específicos, Lahyre Rosado Neto destaca que as estratégias de diversificação adotadas funcionaram.

“Em 2025, o RN abriu 14 novos mercados internacionais e encerrou o ano com saldo comercial recorde. Esse resultado não apaga os efeitos reais das tarifas sobre segmentos específicos, mas demonstra que a economia potiguar tem capacidade de adaptação. O monitoramento setorial continua de forma permanente, em diálogo direto com os setores exportadores”, destaca.

Setores mais afetados

O setor de pescado apresentou um crescimento abaixo do esperado nas exportações em 2025. Segundo dados da Comex Stat, o envio de pescado inteiro vivo, morto ou refrigerado respondeu por 1,2% das exportações, com U$ 13,8 milhões de volume exportado. O total representa uma variação positiva de 0,20% em relação a 2024.

 O presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca-RN), Arimar França, aponta que a expectativa do setor era crescer em torno de 50% no ano passado. No entanto, aponta, a chegada da taxação ‘congelou’ as exportações do pescado no segundo semestre.

De janeiro a maio deste ano, as exportações dos produtos voltaram a registrar queda, equivalente a 63,50% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na avaliação do presidente, o resultado é motivado tanto pelos reflexos da taxação, quanto pela suspensão de atividades de empresas do segmento.

A entidade não apresenta um estudo sobre as perdas da categoria, mas Arimar França afirma que duas empresas filiadas pararam as operações, enquanto outras tiveram que reduzir o quadro de funcionários para continuar atuando. “Do pescado congelado, [a participação dos Estados Unidos] representava pouco, pois estamos destinando a maior parte para Ásia, mas do pescado fresco era 100% da exportação”, completa.

De acordo com o economista Helder Cavalcanti, o pescado é um dos setores mais vulneráveis ao tarifaço, porque depende de mercado exigente, logística rápida, certificações e compradores específicos. “Mesmo tendo fechado o ano anterior com leve alta de 0,20%, a queda de 63,50% de janeiro a maio deste ano revela um choque forte. Esse desempenho sugere que a tarifa afetou não apenas o preço final, mas a confiança da cadeia”, explica.

O secretário Lahyre Rosado Neto avalia que a queda reflete um impacto mais direto das tarifas sobre o pescado. “Buscamos novos destinos, mas leva tempo: mercados alternativos exigem certificações, adequação logística e construção de relações comerciais”, destaca.

Conforme aponta Arimar França, uma das principais esperanças dos produtores potiguares está na reabertura do mercado da União Europeia para o pescado brasileiro. A empresa Produmar, liderada por Arimar, passou por uma auditoria realizada pela Direção-Geral de Saúde e da Segurança Alimentar do bloco, acompanhada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), e atualmente aguarda os resultados do processo.

O segmento de pesca, contudo, não é o único com dificuldades. Na indústria de transformação. O setor de açúcares e melaços também registrou queda em 2025, correspondente a 14,7%. Já no período de janeiro a maio deste ano, as exportações desses produtos caíram 45%.

Segundo Helder Cavalcanti, o cenário indica dificuldade de recuperação do setor, com produtos mais sensíveis a preço, tarifa e logística. “Quando a tarifa reduz a competitividade, o comprador internacional tende a substituir rapidamente o fornecedor. Nesse caso, o problema não é apenas vender menos no curto prazo. O risco é perder espaço comercial, relacionamento com compradores e previsibilidade de contratos”, destaca.

O secretário Lahyre Rosado aponta que a retração de 45% pode refletir uma combinação de fatores, incluindo variação de preços de commodities diante da competitividade do mercado global, sazonalidade produtiva e os efeitos acumulados das barreiras tarifárias americanas. “A Sedec/RN acompanha a evolução do segmento em diálogo direto com os exportadores”, diz.

Entre as medidas adotadas pela pasta para viabilizar a recuperação dos segmentos econômicos afetados pelo tarifaço, o secretário destaca a ampliação da desoneração do ICMS para empresas beneficiadas pelo Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do Estado (PROEDI), além da capacitação de 200 empresas potiguares para o comércio exterior.

Oportunidades e desafios

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Norte (Faern), José Vieira, defende a necessidade de analisar os efeitos da taxação por setor. Apesar da entidade não dispor de estudos consolidados sobre as perdas no agronegócio, ele destaca que os impactos mais significativos foram observados em cadeias ligadas aos pescados, à carcinicultura e a produtos agrícolas mais dependentes de nichos específicos de mercado.

 “Já a fruticultura irrigada potiguar, embora também tenha sido afetada pelo ambiente de maior incerteza comercial, possui uma base de mercados mais diversificada e uma inserção internacional mais consolidada, o que contribuiu para reduzir sua exposição relativa aos efeitos das medidas tarifárias”, disse o presidente.

Os dados do Comex State apontam que em 2025 a exportação de frutas e nozes não oleaginosas apresentou a segunda maior participação nas exportações, correspondente a 23,9%. De janeiro a maio deste ano, o segmento continua demonstrando crescimento, com uma variação de 11,40% nas exportações.

José Vieira afirma que o crescimento pode ser explicado por fatores estruturais, incluindo a qualidade dos produtos, a regularidade da oferta e forte presença da fruticultura potiguar em mercados europeus e no Reino Unido, o que reduz sua dependência direta do mercado norte-americano.

Embora os produtos hortícolas, frescos ou refrigerados tenham registrado uma queda de 62,50% nas exportações no ano passado, seguido de um crescimento de 34,8% nos primeiros cinco meses deste ano, o presidente da Faern adverte que o período de queda não pode ser atribuído exclusivamente à taxação. “O desempenho das exportações de hortícolas é influenciado por diversos fatores, incluindo condições climáticas, custos logísticos e disponibilidade de oferta”.

Proposta de nova taxação

Enquanto alguns segmentos ainda vivem um cenário de recuperação, o governo dos EUA anunciou, no início deste mês a possibilidade de taxar importações brasileiras com uma tarifa de 25%. Seriam excluídos da taxação alguns produtos como carne bovina, café, terras raras e outros metais. A justificativa é de que algumas práticas brasileiras estariam onerando ou restringindo o comércio norte-americano.

Para Lahyre Rosado Neto, essa sobretaxa elevaria o custo de acesso ao mercado americano e pressionaria a margem das empresas que ainda mantêm essa rota. Ele destaca, porém, que o Estado vem atuando de forma permanente na abertura de novos mercados e programas de internacionalização.

Uma perspectiva semelhante é repercutida por José Vieira. Segundo ele, a tarifa poderia representar uma perda de competitividade para os produtos da agropecuária potiguar que disputam espaço no mercado norte-americano.

O economista Helder Cavalcanti, por sua vez, também destaca que a tarifa ainda traria reflexos consideráveis para a economia potiguar, que precisa continuar investindo na busca por novos mercados. “O efeito econômico não fica limitado às empresas exportadoras: chega ao emprego, à renda, à arrecadação, aos fornecedores locais e à confiança empresarial”, afirma.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gastos da Secom do governo Lula com propaganda até junho de 2026 chegam a quase R$ 180 milhões

  O Palácio do Planalto gastou R$ 178 milhões com publicidade entre 1º de janeiro e 15 de junho de 2026, segundo dados da Secretaria de Comu...