Um relatório da Transparência Brasil e do Movimento
Pessoas à Frente divulgado nesta 2ª feira indicou falhas de governança,
controle e transparência na gestão dos honorários de sucumbência pagos a
integrantes das carreiras jurídicas da AGU (Advocacia-Geral da União).
Segundo o estudo, informa o Poder 360, foram pagos
R$ 4,5 bilhões acima do teto constitucional a funcionários ativos e inativos
das carreiras jurídicas de janeiro de 2020 a agosto de 2025. No mesmo período,
7.649 beneficiários receberam pagamentos acumulados superiores a R$ 1 milhão em
honorários de sucumbência –valores pagos pela parte perdedora de um processo
judicial ao advogado da parte vencedora.
O relatório foi divulgado 27 dias depois do anúncio
de ampliação dos benefícios da AGU para advogados da União, procuradores
federais, procuradores da Fazenda e procuradores do Banco Central. À época, o
CCHA (Conselho Curador dos Honorários Advocatícios) informou ao Poder360 que a
ampliação havia sido suspensa e que “nem entrou em vigor”.
De acordo com o órgão, “nenhum pagamento foi
realizado com base nessas novas coberturas e, por isso, não houve impacto
financeiro”.
O levantamento afirma que a distribuição dos
recursos ocorre com baixa transparência, problemas de governança no controle
interno do governo federal e falta de integração entre sistemas públicos. Para
os autores, esse cenário ajuda a explicar como o teto constitucional se tornou “meramente
decorativo” para advogados da União.
O relatório indica que nem todos os pagamentos
feitos pelo CCHA entram no Siape (Sistema Integrado de Administração de
Recursos Humanos), ferramenta que centraliza as informações de folha de
pagamento dos funcionários.
Segundo o estudo, só o rateio ordinário da
cota-parte —parcela mensal regular dos honorários— é registrado no sistema.
Outros benefícios criados administrativamente pelo CCHA, como auxílio-saúde
complementar, auxílio-alimentação complementar, complementação de férias,
rateios extraordinários e pagamentos retroativos, são pagos fora do Siape, diz
o relatório.
O levantamento afirma que esses pagamentos são
distribuídos sem informação efetiva aos órgãos de controle do governo federal.
O relatório também cita resposta do MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em
Serviços Públicos), segundo a qual lançamentos retroativos no Siape não geram
desconto automático de abate-teto, exigindo cálculo manual pela unidade
responsável.
O estudo também afirma que a CGU
(Controladoria-Geral da União) não exerce fiscalização efetiva sobre esses
pagamentos. Segundo o relatório, a Controladoria recebe dados agregados, sem
detalhamento suficiente para identificar quanto foi pago a cada beneficiário em
cada tipo de verba.
Em resposta ao pedido de informação citado no
estudo, a CGU afirmou receber do CCHA/AGU arquivos de remuneração com valores
já agregados. Por isso, no Portal da Transparência, aparece um lançamento com
observações reunidas, mas sem possibilidade de detalhar quanto corresponde a
cada benefício separadamente.
O relatório dá como exemplo uma rubrica de julho de
2025 atrelada ao pagamento de R$ 2 bilhões, que reunia rateio ordinário,
correção monetária, juros de mora, auxílio-saúde complementar, auxílio-alimentação
complementar e complementação de férias. Segundo o estudo, só o rateio
ordinário é registrado no Siape.
Em setembro de 2025, a AGU lançou um painel
eletrônico para consulta dos honorários de sucumbência. Segundo o relatório, a
ferramenta apresenta dados mais detalhados que os do Portal da Transparência,
mas tem limitações que dificultam o controle público dos pagamentos.
Para os autores, essas limitações podem violar
regras da LAI (Lei de Acesso à Informação), da Lei do Governo Digital e da
Política Nacional de Dados Abertos. O relatório afirma que a AGU recusou
inicialmente fornecer a íntegra dos dados em formato aberto, mas reviu a
posição depois de recurso à CGU. Em maio de 2026, o ministro-chefe substituto
da AGU, Flavio Roman, informou que o órgão concederia acesso integral à base do
painel em formato CSV no prazo de 30 dias.
O levantamento também diz que os benefícios pagos
com recursos do CCHA são criados por resoluções internas do próprio conselho,
mas que essas normas não estão disponíveis ao público nos sites da AGU, do CCHA
ou no painel dos honorários.
A resolução mencionada pela AGU é a Resolução
CCHA/AGU 16 de 2024, que criou o auxílio-saúde complementar custeado com
recursos dos honorários advocatícios. O relatório afirma que a norma
estabeleceu pagamentos fixos de R$ 3.000 para beneficiários ativos e R$ 3.500
para inativos. Em 2025, o CCHA substituiu a parcela fixa por ressarcimento de
gastos com limite de até 10% do teto constitucional, hoje em torno de R$ 4.600.

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