Romeu Zema virou alvo de denúncia criminal junto ao
Superior Tribunal de Justiça (STJ) por vídeos satíricos com fantoches de
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A peça, assinada pelo
procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusa o ex-governador de Minas de
calúnia contra o ministro Gilmar Mendes. Convém parar um instante e absorver a
cena: o chefe do Ministério Público mobilizou o aparato penal da República por
causa de bonecos de internet.
Zema caricaturou uma decisão questionada pelo
próprio presidente do STF, Edson Fachin, e suspeitas amplamente debatidas sobre
o caso Banco Master e a atuação dos ministros. Pode-se considerar os vídeos
injustos, agressivos, toscos ou demagógicos. O que não se pode fazer, sem
violentar o Direito Penal, é fingir que um fantoche equivale a uma acusação
formal de crime.
Calúnia exige imputação falsa de fato determinado.
Humor político funciona justamente por exagero, compressão e distorção. Desde
os panfletos do século 18 até os programas televisivos contemporâneos, a
paródia sempre tratou governantes e juízes como personagens ridículos. Em democracias
maduras, autoridades toleram isso. Aqui, o procurador-geral resolveu denunciar.
Zema não tem foro privilegiado. Se Mendes se sentiu
ofendido, deveria acionar o Ministério Público na primeira instância. Mas o
ministro pediu providências ao colega Alexandre de Moraes, que encaminhou o
caso à Procuradoria-Geral da República (PGR). E o órgão que deveria funcionar
como filtro contra abusos chancelou sua formalização. A peça da PGR se aproxima
perigosamente de uma advocacia penal privada da honra de um ministro.
A seletividade fica mais visível quando se observa
aquilo que Gonet escolhe não fazer. Mais de uma vez, o próprio Mendes insinuou
que o senador Alessandro Vieira teria vínculos com milicianos e o crime
organizado. Onde está a denúncia? Onde está o zelo pela honra? A régua muda
conforme o sobrenome na capa do processo.
Diante de contratos multimilionários de empresas de
Daniel Vorcaro – o banqueiro investigado pela maior fraude no sistema
financeiro de que se tem notícia – e o escritório da mulher de Moraes ou a
empresa da família de Dias Toffoli, a PGR entrou em estado contemplativo.
Quando Toffoli assumiu a relatoria do caso Master, Gonet arquivou pedidos de
impedimento que os próprios ministros do STF se viram obrigados a reconhecer –
ainda que não formalmente – numa reunião secreta. Mensagens entre Moraes e
Vorcaro foram dispensadas como ninharias. Gonet procrastinou a avaliação de um
pedido de prisão de Vorcaro quando a Polícia Federal já evidenciava riscos
flagrantes de obstrução e intimidação.
A elasticidade muda conforme o alvo. Depois que um
ex-assessor de Moraes, Eduardo Tagliaferro, trouxe à tona mensagens e relatos
sobre a atuação informal do ministro para perseguir críticos, o foco
deslocou-se rapidamente. Em vez de concentrar energia no conteúdo revelado, o
aparato persecutório voltou-se contra quem revelou. A Procuradoria investiga o
mensageiro com vigor, mas a mensagem foi varrida para debaixo do tapete.
Esse padrão explica por que tantos brasileiros
enxergam hoje uma Justiça de castas. Críticas a ministros são equiparadas a
“ataques à democracia”. Um entrevero entre Moraes e um cidadão comum em Roma
ativou as engrenagens penais da PGR. Uma frase escrita com batom numa estátua
gerou pedido de pena superior à aplicada a criminosos violentos. Um Pix de R$
500 para ajudar a fretar um ônibus com manifestantes rumo a Brasília virou
acusação por tentativa de golpe. Já ministros do STF parecem habitar um
ecossistema processual muito mais acolhedor, paciente e compreensivo.
O Ministério Público existe para defender a ordem
jurídica e fiscalizar o poder, inclusive o poder togado. Uniformidade de
critérios, prudência sem covardia, coragem sem abusos, apego rigoroso ao devido
processo legal, proporcionalidade e, sobretudo, independência são o que se
espera de um bom procurador. Já Paulo Gonet oscila entre dois polos igualmente
degradantes para o parquet: o de perseguidor-geral da República e o de
prevaricador-geral da República.
Opinião do Estadão
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