Na terça-feira (26), o senador e pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi recebido pelo presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca. Independentemente de
simpatias ou antipatias partidárias, o fato é objetivamente inédito: nunca
antes um pré-candidato brasileiro à Presidência havia sido recebido no
escritório principal do líder americano em pleno ciclo eleitoral.
A reunião durou cerca de uma hora e meia, abordou
temas como a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações
terroristas, tarifas comerciais e a parceria estratégica envolvendo terras
raras. Houve pauta, houve interlocução e houve registro oficial. O que não
houve, em boa parte da cobertura jornalística, foi uma análise à altura do
acontecimento.
O comentarista Octavio Guedes, da GloboNews,
escreveu que a foto do encontro "parece mais a de um fã com seu ídolo do
que a de um presidenciável conversando com o presidente de outro país
soberano". A frase é engenhosa, mas revela mais sobre o analista do que
sobre o analisado. Um jornalista que reduz uma reunião diplomática com pautas
concretas a uma sessão de autógrafos está fazendo exatamente o que acusa o
outro lado de fazer: substituindo análise por narrativa. Se o critério é a
foto, o próprio Lula disse, após seu encontro com Trump no início de maio, que
"a fotografia vale muito" e pediu ao americano que sorrisse mais.
Ninguém na grande imprensa descreveu aquele momento como o de "um fã com
seu ídolo".
A Crusoé publicou uma análise afirmando que tanto
Lula quanto Flávio protagonizaram "uma competição ridícula pela melhor
imagem com o presidente americano" e que ambos "rebaixam a si
próprios e o Brasil". A crítica, ao menos, teve a virtude da simetria. Mas
foi exceção. A tônica dominante nos veículos tradicionais e entre colunistas de
política foi tratar o encontro de Flávio como uma manobra desesperada para
fugir do escândalo do Banco Master e do caso Dark Horse, enquanto a visita de
Lula, semanas antes, articulada pelo empresário Joesley Batista e sem
participação do Itamaraty, recebeu tratamento protocolar e respeitoso.
O ponto não é defender Flávio Bolsonaro nem ignorar
as crises que cercam sua pré-campanha. É legítimo e necessário que a imprensa
questione o contexto da viagem, a relação com Vorcaro, a queda nas pesquisas e
a tentativa evidente de mudar o noticiário. Isso é jornalismo. O que não é
jornalismo é o tom de escárnio que transforma a cobertura em editorial
disfarçado de reportagem. Quando um veículo descreve o encontro como "fuga
do Brasil", mas trata uma viagem sem pauta definida e intermediada por um
delator como "visita de trabalho", o problema não é mais ideológico,
é metodológico. O leitor percebe a inconsistência, e cada vez que percebe, a
credibilidade do veículo diminui um pouco mais.
Há ainda uma dimensão que poucos jornalistas abordam
com honestidade: o peso geopolítico real do gesto. A BBC Brasil, em rara
análise equilibrada, reconheceu que o encontro "é interpretado por
especialistas em relações internacionais como um gesto político relevante"
e que "a foto de Flávio ao lado de Trump no Salão Oval tem forte peso
ideológico e o fortalece dentro do campo conservador". Essa é a leitura
profissional. O fato de que Trump recebeu um pré-candidato de oposição de um
país com o qual os EUA negociam tarifas e minerais estratégicos não é trivial.
Pode-se discutir se é positivo ou negativo para o Brasil, se configura
interferência externa ou pragmatismo diplomático, mas não se pode fingir que é
irrelevante. Tratar com desdém é abrir mão da função analítica que justifica a
existência do jornalismo político.
O jornalismo brasileiro vive um paradoxo. Nunca se
falou tanto em defesa da democracia e da liberdade de imprensa, e ao mesmo
tempo nunca ficou tão evidente que parte significativa da cobertura política
opera com dois pesos e duas medidas. Quando a régua muda conforme o nome do
protagonista, o que se entrega ao público não é informação, é posicionamento. E
posicionamento é legítimo em colunas de opinião, não em reportagens e análises
que se apresentam como isentas. O público merece saber o que aconteceu na Casa
Branca, por que aconteceu, quais são as implicações e quais são os interesses
envolvidos de todos os lados. Merece menos ironia e mais rigor.
O encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump
pode ter sido movido por cálculo eleitoral, por conveniência diplomática ou por
ambos. O mesmo vale para a visita de Lula. A diferença está em como a imprensa
escolhe contar cada história. Quando o tratamento é sistematicamente desigual,
o jornalismo perde a única coisa que o diferencia da propaganda: a confiança do
leitor. E essa, uma vez perdida, não se recupera com manchete inteligente nem
com metáfora de efeito.
Esse texto foi copiado do Blog do Gustavo Negreiros

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