Um negócio de pai para filho feito durante a gestão
do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa com um empresário próximo do
presidente do União Brasil, Antonio Rueda, é tido dentro da instituição e no
Banco Central como um esqueleto deixado pelo executivo e um potencial capítulo
da delação premiada que ele quer negociar com a Polícia Federal (PF) e a
Procuradoria-Geral da República (PGR).
Na transação, que acabou desfeita após a primeira
prisão de Vorcaro, o banco de Brasília vendeu 49% da BRB Financeira para um
grupo de investidores liderado por José Ricardo Lemos Rezek, dono de empresas
em diversos setores, do imobiliário ao agropecuário.
Em troca, o consórcio se comprometeu a pagar R$ 320
milhões em 10 parcelas anuais. Só que os lucros da financeira variavam em torno
dos R$ 90 milhões por ano, segundo fontes do BRB – ou seja, sairia de graça
para os compradores, porque os lucros já seriam maiores do que as parcelas a
serem pagas.
O acordo foi anunciado por meio de um fato relevante
em 31 de março de 2025, três dias depois de o BRB ter anunciado a compra do
Master, mas as tratativas começaram em julho de 2024.
Amigo de Rueda, Rezek foi um dos convidados da festa
de 50 anos do dirigente em Mykonos, na Grécia, no ano passado. Em 2023, seu
pai, o também empresário José Ricardo Rezek, doou R$ 1,5 milhão ao Diretório
Nacional do União Brasil, segundo informações que constam do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). Rezek pai também vendeu uma aeronave a uma empresa investigada
pela Polícia Federal em uma operação nebulosa, sob suspeita de ter sido feita
para mascarar o verdadeiro sócio, Rueda – o que ele nega.
De acordo com cinco fontes a par das discussões,o
negócio enfrentou resistências dentro e fora do BRB. O Banco Central inclusive
chegou a barrar a transferência de capital por ter encontrado problemas na
comprovação da origem dos recursos usados na compra. O grupo de Rezek recorreu,
mas o BC não chegou a dar seu parecer final.
Àquela altura, o regulador já estava sobrecarregado
com apurações internas sobre as fraudes na compra de carteiras do Master pelo
BRB que levariam à liquidação do banco.
O negócio entre a BRB Financeira e o grupo de Rezek
teve seu fim selado em uma reunião no dia seguinte à liquidação e à prisão de
Vorcaro, em 19 de novembro, quando dirigentes do BC chamaram dois conselheiros
e um diretor do BRB para discutir as providências a serem tomadas dali em
diante.
Segundo quatro fontes a par do que se discutiu ali,
além de alertar para a necessidade de uma capitalização do banco estatal de
Brasília e de discutir os perfis de possíveis substitutos do CEO Paulo Henrique
Costa, afastado após à Operação Compliance Zero, o diretor de Organização do
Sistema Financeiro e de Resolução, Renato Gomes, também avisou os
representantes do BRB: se eles não cancelassem o negócio da financeira, o BC
acabaria fazendo isso.
A equipe da coluna apurou também que o próprio Paulo
Henrique Costa foi alertado diversas vezes por diretores do BC sobre a
atipicidade do negócio “de pai para filho” e o prejuízo que representaria para
o BRB, mas ignorou os avisos.
No final de dezembro, pouco mais de um mês após a
primeira prisão do CEO do Master e do desmantelamento da instituição, o BRB
anunciou o cancelamento do negócio.
Procurado, Antonio Rueda não respondeu às mensagens
da equipe da coluna. Um mês antes do anúncio da transação da BRB Financeira, em
27 de fevereiro de 2025, Paulo Henrique Costa enviou mensagem a Daniel Vorcaro
dizendo que tinha tomado um café com Rueda e precisava falar com o banqueiro. A
defesa de Costa, que foi preso em 16 de abril, também foi procurada. O espaço
está aberto para a manifestação.
O empresário José Ricardo Lemos Rezek não quis dar
entrevista, mas enviou uma nota em que afirma que “desde o início, tratou-se de
uma negociação de natureza exclusivamente comercial, que jamais sofreu qualquer
tipo de interferência política”. Disse, ainda, que foi o próprio grupo de
investidores que desistiu da compra da BRB Financeira. “A desistência decorreu
de uma avaliação estritamente mercadológica, técnica, e foi formalmente
comunicada ao BRB, em conformidade com os instrumentos contratuais firmados
entre as partes.”
Já os sócios de Rezek, Carla Pontes e André Azin,
afirmaram que coube a ele o aporte da maior parte do dinheiro para a compra da
fatia da BRB Financeira. Por isso, cada um teria 5% do negócio, enquanto Rezek
teria 39%.
Azin e Carla afirmam desconhecer a projeção de lucro
anual de R$ 90 milhões e dizem ter desistido do contrato logo após o BRB
anunciar a compra do Banco Master diante das incertezas em torno do processo,
mas a rescisão só foi oficializada no final de 2025, após a liquidação do banco
de Vorcaro.
Ambos disseram ainda que nunca estiveram com Rueda e
só o conhecem de nome.
Sobre os questionamentos do BC, o empresário baiano,
assim como Carla Pontes, afirma desconhecer lacunas na comprovação da origem
dos recursos.
Sobre a hesitação do Banco Central em liberar o
negócio, Carla relatou ter havido uma resistência do regulador em relação ao
número de votos que o grupo teria na administração do BRB. A respeito das
lacunas sobre a origem dos recursos e a capacidade econômico-financeira, a
empresária disse não ter conhecimento.
“A parte financeira estava toda com o Rezek. É
normal esse tipo de questionamento pelo Banco Central. Não estou dizendo nem
que houve, nem que não houve. Se tiver acontecido, como os recursos estavam
vindo do Rezek, a negociação se concentrou nele”.
Segundo ela, a escolha do grupo ocorreu através de
um processo competitivo do qual participaram duas outras empresas.
Malu Gaspar - O Globo

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