quarta-feira, 6 de maio de 2026

Editorial O Globo: Novo Desenrola é programa eleitoreiro com efeito nocivo

 


Nem passaram três anos do primeiro Desenrola, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou na segunda-feira uma nova edição do programa de renegociação de dívidas. Não é necessário poder sobrenatural para prever que será um dos temas usados à exaustão na campanha eleitoral. Do começo ao fim, o Desenrola 2.0 é uma iniciativa eleitoreira. Foi organizado em quatro frentes para ampliar o impacto dos votos que pode gerar: famílias, estudantes com débitos no Fies, agricultores, micro e pequenas empresas. Para os beneficiados, o efeito pode ser positivo, mas qualquer alívio será temporário, como foi o último Desenrola. Os problemas estruturais que aumentam o endividamento do brasileiro continuam intocados — e, desses, nem Lula nem ninguém no governo não quer nem ouvir falar. Não houve medida alguma para conter o gasto público ou aliviar a pressão que o desequilíbrio fiscal exerce sobre a taxa de juros, principal causa da inadimplência e da escalada nas dívidas.

Para um governo ávido pela reeleição, o que interessa é atingir o maior público possível — a meta declarada é chegar a 100 milhões. Sobre os efeitos negativos, nenhuma palavra. Para famílias e empreendedores de negócios até médio porte, fica claro que tomar crédito sempre resultará em perdão de governos em busca de votos. O Desenrola estimula o endividamento irresponsável e pune quem paga as prestações em dia. Em termos de educação financeira, é um retrocesso flagrante.

Para seduzir a classe média, o governo ampliou o público-alvo, para devedores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), ante dois salários no programa anterior. Dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos poderão ser renegociadas. As modalidades permitidas incluem crédito pessoal não consignado, cartão de crédito e cheque especial. Os descontos variam entre 30% e 90%, com até 48 meses de prazo para pagar e carência de 35 dias. O devedor poderá usar até 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil (o que for maior). A lista de bondades inclui ainda juros de no máximo 1,99% ao mês.

Como ocorreu no Desenrola de 2023, quem estiver com nome sujo por dívida de até R$ 100 será excluído das bases de devedores. No consignado, haverá redução do limite para crédito e eliminação de linhas com juros mais altos. O Desenrola Rural oferecerá prazo ampliado para facilitar a renegociação. Microempresas e empresas de pequeno porte poderão ampliar limites de financiamentos e obter mais tempo para pagar. No Fies, o desconto poderá chegar a 99% — praticamente um perdão.

Em seu discurso, Lula falou em libertar o povo das dívidas. “Se isso acontecer, todo mundo vai poder comprar mais, o comércio vai vender, as empresas vão produzir, o povo vai ficar mais feliz, e sem nenhuma dívida para pagar”, afirmou. Só no mundo da fantasia o mercado de crédito deixará de ser distorcido, em prejuízo de todos. A consequência mais óbvia é o encarecimento do próprio crédito com o incentivo maior à inadimplência.

O principal motivo para o endividamento do brasileiro é o desequilíbrio fiscal no Estado. Ao gastar mais do que arrecada, o governo aumenta a dívida pública, pressiona a inflação e força o Banco Central a manter os juros nas alturas. É justamente o custo exorbitante do dinheiro que faz as dívidas crescerem exponencialmente. Sem contas públicas equilibradas, nenhum Desenrola será capaz de mudar tal realidade.

Editorial O Globo

 

 

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