Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou
em sua primeira página: às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira
do Ascurra, nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto
de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos
negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a
assombração.
A história do fantasma que apavorou a capital
federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais, está no
livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do
professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp (editora Ayran, 288 pág, R$ 82,00).
Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de
quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça
Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em
suas motocicletas e com seus baús e mochilas.
Um deles explicou à coluna. Estava lá para “assar
uma carne”, “conversar”, “confraternizar”. Entregadores, sem outro vinculo do
que o de seu trabalho – de forma que alguns desavisados chamariam de “espontânea”
–, inundaram a praça com seu destino comum, suas vidas, esperanças e
inseguranças. Todos invisíveis ao governo e às centrais sindicais. Ali passeava
um fantasma. Não o da mulher sem cabeça, mas o de uma esquerda que não soube
conversar com esse mundo, como mostrou a repórter Cristiane Barbieri em sua
série sobre a nova realidade do trabalho. De fato, na noite de quinta-feira,
não havia um único dirigente da CUT ou do PT na Praça Charles Miller.
O fantasma da falta de conexão com o novo mundo do
trabalho não é o único a apavorar Lula e o PT neste 2026. A ele se junta o
fantasma das relações civis e militares. Se a oficialidade se descolou, em sua
maioria, do bolsonarismo em 2023, tampouco passou a nutrir simpatias pelo
petismo, mesmo após ao ataques da extrema direita ao Exército, que se manteve
na legalidade e não embarcou no Plano Punhal Verde e Amarelo.
Uma terceira assombração resolveu reaparecer em
Brasília. E à luz do dia. Ela não se mostrava assim desde o governo de Floriano
Peixoto, o marechal que antecedera Prudente de Morais. Trata-se da crise do
mundo político com aquele habitado, hoje, por dez magistrados. Há muita gente
se preparando para assistir a um novo espetáculo, que até bem pouco só existia
no mundo sobrenatural. O desfile de decapitados de 2027 não descerá a Ladeira
do Ascurra – dizem esses áugures –, mas ocorrerá no STF. Por fim, o último dos
fantasma que ronda Brasília é o que aparece à Lula nas noites insones do
Alvorada. Ele tem as vestes do Bolsonaro Acorrentado e sobe a rampa do Planalto.
Marcelo Godoy - Estadão

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