O que acontece quando um governo deixa de ser
crível? Refletindo sobre como a credibilidade impacta a economia, a relação
entre os Poderes e os desafios do modelo político brasileiro, o ex-presidente
Michel Temer deparou-se com essa questão numa conversa com o economista Felipe
Salto, articulista do Estadão, e saiu-se com a síntese: “O governo tem de
ser crível, não incrível”. A tese, simples de enunciar e complexa de executar,
é mais do que um trocadilho. Trata-se de um princípio de gestão que desabona o
vício nacional pelo populismo, constatado nos anos em que o Brasil mergulhou na
areia movediça do lulopetismo e do bolsonarismo.
Do alto de sua experiência como ex-presidente que,
em seu tempo de governo, parecia mais preocupado em governar do que com a
eleição seguinte, Temer ensina o oposto do que pregam os protagonistas da
polarização. O País não precisa de governos empenhados em reinventar a roda,
destruir o passado ou fabricar marcas retumbantes de gestão. Precisa de algo
mais simples e mais difícil do que propaganda: credibilidade. A História mostra
que isso é para poucos.
A experiência brasileira recente demonstra que a
perda de credibilidade tem consequências políticas concretas. Fernando Collor
viu seu governo ruir não apenas pelas denúncias de corrupção, mas pela rápida
erosão de confiança que inviabilizou sua sustentação. Sem credibilidade, perdeu
apoio e abriu caminho para o impeachment. Décadas depois, Dilma Rousseff
enfrentou destino semelhante. Tão relevantes quanto as “pedaladas fiscais”
foram a condução errática da economia e a incapacidade política que isolaram o governo
e pavimentaram seu impedimento.
A credibilidade é alicerce da governabilidade.
Quando ela se esvai, o sistema reage. Foi o que se viu, em sentido inverso, no
governo Fernando Henrique Cardoso. O PT adotou uma oposição que frequentemente
testava os limites institucionais e apostava na deslegitimação do governo e na
mobilização inclemente contra suas reformas. FHC preservou governabilidade, mas
sob abalos constantes, em um ambiente político conflagrado. Em crise, não fez o
sucessor.
Nos anos mais recentes, o bolsonarismo levou essa
lógica ao paroxismo. Ao governar sob permanente confronto com outros Poderes,
questionar sem provas o sistema eleitoral e estimular crises institucionais
como método de governo, Jair Bolsonaro operou no limite do caos. Não por acaso,
atravessou o mandato sob ameaças recorrentes de ruptura e terminou sem
condições de articulação política. A ausência de credibilidade comprometeu a
própria autoridade do cargo.
Se o bolsonarismo fez do conflito um método, o
lulopetismo incorre em outro vício: a tentativa de ser “incrível” a qualquer
custo. Segue a crença de que é possível governar com soluções grandiloquentes –
seja flexibilizando regras e ampliando gastos sem a devida responsabilidade,
seja tentando oferecer benesses de toda ordem, seja buscando marcas
supostamente arrebatadoras, mas que, no fundo, apenas repetem experiências do
passado, nem sempre bem-sucedidas. A estratégia pode até produzir ganhos
políticos imediatos, mas cobra seu preço na forma de desconfiança crescente.
Em todos esses casos, o denominador comum é a
inaptidão para sustentar confiança e oferecer soluções de longo prazo. Sem
isso, o Executivo perde a capacidade de coordenar maiorias, o Congresso passa a
agir de forma autônoma e fragmentada, e o Judiciário é empurrado para o centro
das disputas. O sistema passa a operar sob tensão, incapaz de produzir
estabilidade. O efeito mais profundo recai sobre a cultura democrática.
Governos que trocam credibilidade por espetáculo alimentam a deslegitimação
generalizada. O cidadão se afasta ou adere a soluções simplistas, abrindo
espaço para novos ciclos de populismo e, por que não, autoritários.
Opinião do Estadão

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