segunda-feira, 20 de abril de 2026

Opinião do Estadão: Sem credibilidade não se governa

 


O que acontece quando um governo deixa de ser crível? Refletindo sobre como a credibilidade impacta a economia, a relação entre os Poderes e os desafios do modelo político brasileiro, o ex-presidente Michel Temer deparou-se com essa questão numa conversa com o economista Felipe Salto, articulista do Estadão, e saiu-se com a síntese: “O governo tem de ser crível, não incrível”. A tese, simples de enunciar e complexa de executar, é mais do que um trocadilho. Trata-se de um princípio de gestão que desabona o vício nacional pelo populismo, constatado nos anos em que o Brasil mergulhou na areia movediça do lulopetismo e do bolsonarismo.

Do alto de sua experiência como ex-presidente que, em seu tempo de governo, parecia mais preocupado em governar do que com a eleição seguinte, Temer ensina o oposto do que pregam os protagonistas da polarização. O País não precisa de governos empenhados em reinventar a roda, destruir o passado ou fabricar marcas retumbantes de gestão. Precisa de algo mais simples e mais difícil do que propaganda: credibilidade. A História mostra que isso é para poucos.

A experiência brasileira recente demonstra que a perda de credibilidade tem consequências políticas concretas. Fernando Collor viu seu governo ruir não apenas pelas denúncias de corrupção, mas pela rápida erosão de confiança que inviabilizou sua sustentação. Sem credibilidade, perdeu apoio e abriu caminho para o impeachment. Décadas depois, Dilma Rousseff enfrentou destino semelhante. Tão relevantes quanto as “pedaladas fiscais” foram a condução errática da economia e a incapacidade política que isolaram o governo e pavimentaram seu impedimento.

A credibilidade é alicerce da governabilidade. Quando ela se esvai, o sistema reage. Foi o que se viu, em sentido inverso, no governo Fernando Henrique Cardoso. O PT adotou uma oposição que frequentemente testava os limites institucionais e apostava na deslegitimação do governo e na mobilização inclemente contra suas reformas. FHC preservou governabilidade, mas sob abalos constantes, em um ambiente político conflagrado. Em crise, não fez o sucessor.

Nos anos mais recentes, o bolsonarismo levou essa lógica ao paroxismo. Ao governar sob permanente confronto com outros Poderes, questionar sem provas o sistema eleitoral e estimular crises institucionais como método de governo, Jair Bolsonaro operou no limite do caos. Não por acaso, atravessou o mandato sob ameaças recorrentes de ruptura e terminou sem condições de articulação política. A ausência de credibilidade comprometeu a própria autoridade do cargo.

Se o bolsonarismo fez do conflito um método, o lulopetismo incorre em outro vício: a tentativa de ser “incrível” a qualquer custo. Segue a crença de que é possível governar com soluções grandiloquentes – seja flexibilizando regras e ampliando gastos sem a devida responsabilidade, seja tentando oferecer benesses de toda ordem, seja buscando marcas supostamente arrebatadoras, mas que, no fundo, apenas repetem experiências do passado, nem sempre bem-sucedidas. A estratégia pode até produzir ganhos políticos imediatos, mas cobra seu preço na forma de desconfiança crescente.

Em todos esses casos, o denominador comum é a inaptidão para sustentar confiança e oferecer soluções de longo prazo. Sem isso, o Executivo perde a capacidade de coordenar maiorias, o Congresso passa a agir de forma autônoma e fragmentada, e o Judiciário é empurrado para o centro das disputas. O sistema passa a operar sob tensão, incapaz de produzir estabilidade. O efeito mais profundo recai sobre a cultura democrática. Governos que trocam credibilidade por espetáculo alimentam a deslegitimação generalizada. O cidadão se afasta ou adere a soluções simplistas, abrindo espaço para novos ciclos de populismo e, por que não, autoritários.

 A advertência de Temer merece atenção. Democracias sólidas avançam de forma incremental, não por rupturas. O Brasil não precisa de governos “incríveis”, mas de governos confiáveis. Afinal, sem credibilidade, governos fracassam – e o País paga a conta.

Opinião do Estadão

 

 

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