Fernando Azevêdo
Repórter
A forte queda no emprego formal no Rio Grande do
Norte em fevereiro tem uma explicação central: o impacto da entressafra em
cadeias produtivas-chave, especialmente a cana-de-açúcar e a fruticultura.
Economistas apontam que a redução no ritmo dessas atividades — com destaque
para o setor sucroalcooleiro e a produção de melão — foi o principal fator por
trás do saldo negativo registrado no período.
Com saldo de -2.152 empregos em fevereiro de 2026, a
agropecuária liderou as perdas de postos formais no estado. No total, o Rio
Grande do Norte foi o segundo estado com maior fechamento de vagas no mês,
acumulando -2.221 empregos, segundo dados do Novo Caged divulgados na última
terça-feira (31). O desempenho reforça um padrão já observado em anos
anteriores: em fevereiro de 2025, o setor também apresentou mais demissões que
admissões, com saldo de -1.048 vagas.
O resultado mais recente foi puxado, principalmente,
pela retração no setor sucroalcooleiro, que concentra atividades ligadas à
cana-de-açúcar, álcool e derivados, e respondeu por 1.673 desligamentos. Já a
produção de melão, um dos pilares da fruticultura potiguar, registrou 1.363
demissões no mês.
Esse cenário é sazonal, explica William Figueiredo,
economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande
do Norte (Fecomércio-RN). “O começo do ano é o período de entressafra, ou seja,
diminui mesmo a produção. Porém, este ano o impacto foi muito maior do que nos
anos anteriores”, diz.
Apenas três estados tiveram saldo negativo na
geração de empregos em fevereiro deste ano: RN, Alagoas (-3.023) e Paraíba
(-1.186). O saldo registrado no RN em fevereiro foi resultado de 19.084 admissões
e 21.305 desligamentos. William Figueiredo aponta que AL e PB também
registraram um movimento semelhante, com demissões no setor sucroalcooleiro,
que impactam tanto a agropecuária quanto a indústria.
A Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern)
avalia que a variação negativa registrada tanto em fevereiro de 2025 (-1.048
vagas) quanto no mesmo mês de 2026 se deve a fatores estruturais, sazonais e
conjunturais.
Alguns desses fatores são “a irregularidade
climática e a situação hídrica, que afetam diretamente a produção, além dos
custos elevados de insumos, como ração, energia e combustíveis, que pressionam
a margem do produtor e reduzem a capacidade de contratação”.
Segundo a Faern, o RN ainda enfrenta dificuldades na
contratação de mão de obra formal, e parte dos trabalhadores do setor são
informais. Na agropecuária, foram registrados 461 admissões e 2.613
desligamentos em fevereiro deste ano.
Serviços e comércio
Assim como em fevereiro de 2025, os setores de
serviços e comércio lideraram os saldos de emprego em fevereiro de 2026. “O
setor de comércio e serviços continuou contratando. No caso do setor de
comércio, houve a contratação principalmente nos supermercados, com 72 vagas. E
no comércio de veículos, foram 47 vagas abertas”, explica William Figueiredo.
O destaque do setor de serviços foi para a educação,
com 538 vagas abertas, em um movimento sazonal de volta às aulas. O segmento de
alimentação, bares e restaurantes teve 152 vagas abertas, o que era esperado
devido ao Carnaval e à alta temporada no estado.
O economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho
Regional de Economia (Corecon-RN), destaca que comércio e serviço são os
“motores” da economia potiguar. No entanto, os indicadores positivos nesses
setores não superam as perdas da indústria, por exemplo.
“A curto prazo, comércio e serviços fazem com que a
economia gire. Mas a longo prazo, investimentos de capitais em produção,
principalmente em indústria, tendem a elevar o patamar econômico do estado”,
avalia. O economista cita a dificuldade do estado em atrair investimentos, o
que também afeta o mercado de trabalho.
Indústria teve o 2º pior desempenho
entre setores
Assim como a agropecuária, a indústria teve
desempenho negativo no mesmo mês em ambos os anos. Roberto Serquiz, presidente
da Fiern (Federação das Indústrias do RN), afirma que em 2026 o recuo foi
puxado pelos segmentos de petróleo e gás (-1.055) e refino de açúcar (-292).
“O resultado evidencia fragilidades estruturais na
economia do estado e perda recente de dinamismo, especialmente na indústria,
demandando políticas de estímulo à atividade produtiva”, afirma Serquiz.
Arthur Néo diz que o resultado da indústria reflete
desafios estruturais, com desaceleração na produção potiguar. “Todos os insumos
da cadeia de produção estão sofrendo reajustes, que na maioria das vezes estão
acima do IPCA. E no Rio Grande do Norte, que é um estado que já tem
dificuldades no setor produtivo, isso foi mais impactante.”
Construção civil
O desempenho negativo da construção civil (-92)
contrasta significativamente com o resultado de fevereiro de 2025 (criação de
733 vagas). O economista Arthur Néo pontua que o setor é muito dependente de
crédito, e os juros altos pressionam o mercado.
“Um juro muito alto faz com que a decisão do cliente
de adquirir uma casa nova seja postergada. Mas não foi uma queda tão acentuada
[no setor], porque o nosso déficit habitacional ainda é gigante”, avalia. Para
ele, diferente da queda na agropecuária, o resultado não era esperado.
Sérgio Azevedo, presidente do Sindicato da Indústria
da Construção Civil do RN (Sinduscon-RN), tem uma visão semelhante. “A
construção é muito sensível à confiança, ao crédito, ao ritmo de liberação de
projetos e à segurança jurídica. Quando esse ambiente piora, o emprego sente
rapidamente”, explica.
Ele diz que o resultado de 2026 acende um alerta,
uma vez que em fevereiro de 2025 o setor gerou empregos. “O RN precisa
destravar investimentos, acelerar regulações e criar condições reais para que o
setor privado invista, produza e contrate”, afirma.
Mercado de trabalho no RN
Para o economista Ricardo Valério, superintendente
do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), os resultados de fevereiro já
eram esperados devido a fatores sazonais. “É um mês em que temos os reflexos
das demissões dos [profissionais] temporários”, diz.
Ele reflete, no entanto, que a trajetória recente de
empregabilidade no RN é positiva. “Em 2025, o desemprego do RN caiu para 8,1%,
o menor número da série histórica desde 2012, com mais de 31 mil pessoas a
menos sem emprego em um ano”, lembra o economista.
Na visão de Sérgio Azevedo, “o resultado geral do RN
é preocupante. O estado tem potencial, mas está enfrentando dificuldades para
transformar oportunidades em investimentos e empregos. Isso revela um ambiente
ainda pouco competitivo, com entraves que afastam novos negócios e reduzem o
dinamismo da economia.”
Para Zeca Melo, superintendente do Sebrae-RN
(Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do RN), o resultado geral de
fevereiro acende um sinal de alerta. “Estar entre os piores saldos de emprego
do país no período exige uma análise cuidadosa e equilíbrio. Este é o pior mês
de fevereiro dos últimos cinco anos”.
“É importante considerar fatores sazonais, como o
fim de contratos temporários do início do ano e ajustes naturais de alguns
setores da economia. Mas se observa que os números já vinham caindo há alguns
meses. Ainda assim, o dado reforça a necessidade de fortalecer o ambiente de negócios
e estimular a atividade econômica no estado.”
O Boletim de Emprego, elaborado pelo Sebrae-RN,
aponta que, em relação ao porte de empresas, as microempresas foram as que
tiveram maior saldo de vagas (885). Pequenas empresas registraram leve queda
(-30 postos); médias empresas tiveram desempenho mais retraído, com -1.314
vagas; e em grandes empresas houve o fechamento de -1.762 postos de trabalho.
“Fica evidente o papel fundamental dos pequenos
negócios na sustentação do emprego. As microempresas demonstram resiliência e
capacidade de adaptação mesmo em cenários desafiadores”, diz Melo. “Por outro
lado, as pequenas empresas praticamente ficaram estáveis, enquanto médias e
grandes registraram retração significativa, com fechamento de mais de 3 mil
postos somados.”

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