quinta-feira, 2 de abril de 2026

Entressafra de cana e melão puxa queda de empregos no RN em fevereiro

 


Fernando Azevêdo
Repórter

A forte queda no emprego formal no Rio Grande do Norte em fevereiro tem uma explicação central: o impacto da entressafra em cadeias produtivas-chave, especialmente a cana-de-açúcar e a fruticultura. Economistas apontam que a redução no ritmo dessas atividades — com destaque para o setor sucroalcooleiro e a produção de melão — foi o principal fator por trás do saldo negativo registrado no período.

Com saldo de -2.152 empregos em fevereiro de 2026, a agropecuária liderou as perdas de postos formais no estado. No total, o Rio Grande do Norte foi o segundo estado com maior fechamento de vagas no mês, acumulando -2.221 empregos, segundo dados do Novo Caged divulgados na última terça-feira (31). O desempenho reforça um padrão já observado em anos anteriores: em fevereiro de 2025, o setor também apresentou mais demissões que admissões, com saldo de -1.048 vagas.

O resultado mais recente foi puxado, principalmente, pela retração no setor sucroalcooleiro, que concentra atividades ligadas à cana-de-açúcar, álcool e derivados, e respondeu por 1.673 desligamentos. Já a produção de melão, um dos pilares da fruticultura potiguar, registrou 1.363 demissões no mês.

Esse cenário é sazonal, explica William Figueiredo, economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio-RN). “O começo do ano é o período de entressafra, ou seja, diminui mesmo a produção. Porém, este ano o impacto foi muito maior do que nos anos anteriores”, diz.

Apenas três estados tiveram saldo negativo na geração de empregos em fevereiro deste ano: RN, Alagoas (-3.023) e Paraíba (-1.186). O saldo registrado no RN em fevereiro foi resultado de 19.084 admissões e 21.305 desligamentos. William Figueiredo aponta que AL e PB também registraram um movimento semelhante, com demissões no setor sucroalcooleiro, que impactam tanto a agropecuária quanto a indústria.

A Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern) avalia que a variação negativa registrada tanto em fevereiro de 2025 (-1.048 vagas) quanto no mesmo mês de 2026 se deve a fatores estruturais, sazonais e conjunturais.

Alguns desses fatores são “a irregularidade climática e a situação hídrica, que afetam diretamente a produção, além dos custos elevados de insumos, como ração, energia e combustíveis, que pressionam a margem do produtor e reduzem a capacidade de contratação”.

Segundo a Faern, o RN ainda enfrenta dificuldades na contratação de mão de obra formal, e parte dos trabalhadores do setor são informais. Na agropecuária, foram registrados 461 admissões e 2.613 desligamentos em fevereiro deste ano.

Serviços e comércio

Assim como em fevereiro de 2025, os setores de serviços e comércio lideraram os saldos de emprego em fevereiro de 2026. “O setor de comércio e serviços continuou contratando. No caso do setor de comércio, houve a contratação principalmente nos supermercados, com 72 vagas. E no comércio de veículos, foram 47 vagas abertas”, explica William Figueiredo.

O destaque do setor de serviços foi para a educação, com 538 vagas abertas, em um movimento sazonal de volta às aulas. O segmento de alimentação, bares e restaurantes teve 152 vagas abertas, o que era esperado devido ao Carnaval e à alta temporada no estado.

O economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), destaca que comércio e serviço são os “motores” da economia potiguar. No entanto, os indicadores positivos nesses setores não superam as perdas da indústria, por exemplo.

“A curto prazo, comércio e serviços fazem com que a economia gire. Mas a longo prazo, investimentos de capitais em produção, principalmente em indústria, tendem a elevar o patamar econômico do estado”, avalia. O economista cita a dificuldade do estado em atrair investimentos, o que também afeta o mercado de trabalho.

Indústria teve o 2º pior desempenho entre setores

Assim como a agropecuária, a indústria teve desempenho negativo no mesmo mês em ambos os anos. Roberto Serquiz, presidente da Fiern (Federação das Indústrias do RN), afirma que em 2026 o recuo foi puxado pelos segmentos de petróleo e gás (-1.055) e refino de açúcar (-292).

“O resultado evidencia fragilidades estruturais na economia do estado e perda recente de dinamismo, especialmente na indústria, demandando políticas de estímulo à atividade produtiva”, afirma Serquiz.

Arthur Néo diz que o resultado da indústria reflete desafios estruturais, com desaceleração na produção potiguar. “Todos os insumos da cadeia de produção estão sofrendo reajustes, que na maioria das vezes estão acima do IPCA. E no Rio Grande do Norte, que é um estado que já tem dificuldades no setor produtivo, isso foi mais impactante.”

Construção civil

O desempenho negativo da construção civil (-92) contrasta significativamente com o resultado de fevereiro de 2025 (criação de 733 vagas). O economista Arthur Néo pontua que o setor é muito dependente de crédito, e os juros altos pressionam o mercado.

“Um juro muito alto faz com que a decisão do cliente de adquirir uma casa nova seja postergada. Mas não foi uma queda tão acentuada [no setor], porque o nosso déficit habitacional ainda é gigante”, avalia. Para ele, diferente da queda na agropecuária, o resultado não era esperado.

Sérgio Azevedo, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do RN (Sinduscon-RN), tem uma visão semelhante. “A construção é muito sensível à confiança, ao crédito, ao ritmo de liberação de projetos e à segurança jurídica. Quando esse ambiente piora, o emprego sente rapidamente”, explica.

Ele diz que o resultado de 2026 acende um alerta, uma vez que em fevereiro de 2025 o setor gerou empregos. “O RN precisa destravar investimentos, acelerar regulações e criar condições reais para que o setor privado invista, produza e contrate”, afirma.

Mercado de trabalho no RN

Para o economista Ricardo Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), os resultados de fevereiro já eram esperados devido a fatores sazonais. “É um mês em que temos os reflexos das demissões dos [profissionais] temporários”, diz.

Ele reflete, no entanto, que a trajetória recente de empregabilidade no RN é positiva. “Em 2025, o desemprego do RN caiu para 8,1%, o menor número da série histórica desde 2012, com mais de 31 mil pessoas a menos sem emprego em um ano”, lembra o economista.

Na visão de Sérgio Azevedo, “o resultado geral do RN é preocupante. O estado tem potencial, mas está enfrentando dificuldades para transformar oportunidades em investimentos e empregos. Isso revela um ambiente ainda pouco competitivo, com entraves que afastam novos negócios e reduzem o dinamismo da economia.”

Para Zeca Melo, superintendente do Sebrae-RN (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do RN), o resultado geral de fevereiro acende um sinal de alerta. “Estar entre os piores saldos de emprego do país no período exige uma análise cuidadosa e equilíbrio. Este é o pior mês de fevereiro dos últimos cinco anos”.

“É importante considerar fatores sazonais, como o fim de contratos temporários do início do ano e ajustes naturais de alguns setores da economia. Mas se observa que os números já vinham caindo há alguns meses. Ainda assim, o dado reforça a necessidade de fortalecer o ambiente de negócios e estimular a atividade econômica no estado.”

O Boletim de Emprego, elaborado pelo Sebrae-RN, aponta que, em relação ao porte de empresas, as microempresas foram as que tiveram maior saldo de vagas (885). Pequenas empresas registraram leve queda (-30 postos); médias empresas tiveram desempenho mais retraído, com -1.314 vagas; e em grandes empresas houve o fechamento de -1.762 postos de trabalho.

“Fica evidente o papel fundamental dos pequenos negócios na sustentação do emprego. As microempresas demonstram resiliência e capacidade de adaptação mesmo em cenários desafiadores”, diz Melo. “Por outro lado, as pequenas empresas praticamente ficaram estáveis, enquanto médias e grandes registraram retração significativa, com fechamento de mais de 3 mil postos somados.”

 

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