Quando a pimenta das pesquisas entra no olho,
governos saem por um instante do estado de embevecimento consigo mesmo. É
aquele encantamento com a própria esperteza, a convicção de que seus planos são
infalíveis e populares e até de que a realidade se dobra a mágicas e milagres.
Lula 3 é até mais encantado consigo mesmo do que Lula 1 e 2.
Aconteceu de novo. O governo descobriu, entre outras
coisas, que juros altos causam problemas —ah, vá. Começou então o barata-voa.
Há reuniões frenéticas. Vazam para jornais ideias de providências inócuas,
tolas ou malucas até se considerado o próprio interesse do governo. No pico
recente da inflação de alimentos, faz um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva disse que caçaria quem encarecia o ovo (não achou) e baixou o imposto de
importação da lata de sardinha. Hum.
Pesquisas de voto e de opinião provocaram o choque
de realidade virtual no governo. Virtual, por assim dizer, pois se trata de
reação à opinião recolhida pelas pesquisas, não a fatos que possam ter motivado
maus humores do eleitorado.
Alguns desses motivos por vezes são propaganda
podre, como a campanha da direita sobre o pix de janeiro de 2025 ou a que tenta
jogar no colo do governo a bandalha inteira do Master. Outros são reais e
sabidos: inflação alta, de alimentos em especial, é impopular. Taxas de juros
altas causam problemas também no varejo, bidu, como encarecimento de bens,
achatamento relativo da renda, inadimplência.
O pessoal do governo ainda parece achar que é
possível conter inflações sem que taxas de juros subam. Quer que as pessoas
façam mais empréstimos, mesmo nessa situação. Não faz lé com cré.
No curto prazo, não há solução para juros altos a
não ser tranco fiscal —e olhe lá. Há agora no governo quem pense em tabelar
certas taxas de juros e, na prática, até preço de combustível. Vai dar besteira
e não vai ajudar nem o governo.
As taxas de juros subiram também por causa do
aumento de gasto público, que contribuiu para o aquecimento excessivo da
atividade econômica e para o descrédito do governo e da moeda (juros mais altos
no mercado e desvalorização do real). Subiu ainda por causa de momentos de alta
mundial do dólar e do preço dos alimentos. A coisa piorou com mudanças e
descrédito do arcabouço fiscal já em 2024.
Por isso tudo, o custo do crédito bancário
"livre" (não direcionado por governos) sobe desde outubro de 2024. O
crédito pessoal (excluído o rotativo) encarece desde agosto de 2024. A Selic
voltou a aumentar desde setembro de 2024.
O gasto com serviço da dívida (juros e amortização)
foi "recorde" em dezembro de 2025, dado mais recente. Mas estava
então quase no mesmo nível de setembro de 2025 —de resto, esse cálculo do Banco
Central não é lá preciso bastante, no curto prazo, para interpretar certos
problemas, como o mau humor popular. Sim, a inadimplência da pessoa física
estava alta em janeiro de 2026, a maior com exceção de 2012 (há dados desde
2011). Mas subia de modo notável desde o fim de 2024.
Claro que daria problema. Gasto além da conta dá
problema. Sem ação do BC e com mais inflação, Lula 3 seria triturado nas
pesquisas.
O problema, no fundo, é mais antigo. Lula não
aprendeu a conversar com o novo eleitorado e tratou mal aquela minoria de
"centro" que fez a balança pender para o lado dele na eleição de
2022. De resto, o lulismo-petismo continua a acreditar em maluquice
macroeconômica. Daria problema.
Vinícius Torres Freire - Folha de São Paulo

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