domingo, 15 de março de 2026

Via Costeira atrai público e levanta alerta sobre comércio informal

 


A Via Costeira tem se consolidado como um dos principais espaços de lazer ao ar livre em Natal. A avenida, que liga as zonas Leste e Sul da capital potiguar à beira-mar, tem atraído diariamente moradores e turistas para caminhadas, corridas, ensaios fotográficos, passeios com pets e momentos em família, impulsionada pelo calçadão, pela obra de engorda, iluminação e pela vista panorâmica entre as praias de Ponta Negra e Praia de Areia Preta. Contudo, com o aumento do fluxo, cresce também a busca por serviços para atender ao público, o que tem causado o surgimento de iniciativas de comércio informal e ocupação desordenada na área.

O vigilante Gabriel Silva, de 26 anos, afirma que costuma freqüentar o local e percebe o aumento do movimento. “Houve bastante movimento nos últimos anos. O que atrai a gente é a vista, a paisagem”, disse. Segundo ele, melhorias na estrutura podem ampliar ainda mais a presença de visitantes. “Quanto mais estrutura, melhor. O movimento aumentou bastante”, avaliou.

O casal Thiago Carvalho, porteiro de 36 anos, e Anne Caroline, cuidadora de 28, visitou a área com o filho que havia nascido duas semanas antes. “A gente veio para fazer um passeio ao ar livre, aproveitar a brisa do mar e o espaço amplo para não ter tumulto para o bebê. Ele tem 17 dias de vida”, contou Thiago.

Anne destacou que o calçadão já oferece boas condições para caminhada, mas aponta a falta de serviços básicos. “Tem um calçadão bem estruturado, mas precisava de banheiros e de uma estrutura melhor nas barracas. Poderia ser mais bonito e padronizado para atender quem vem aqui”, sugeriu.

Enquanto a via não recebe uma estrutura que atenda aos visitantes como eles sugerem, o comércio informal já começa a se instalar. Em um trecho próximo ao início da obra de engorda da praia, que segue até a base do Morro do Careca, foram instaladas barracas improvisadas na margem do calçadão, onde são vendidos principalmente água mineral e água de coco.

No local, há mesas e cadeiras dispostas como em um pequeno espaço com tendas e guarda-sóis. Também foi construída uma pequena estrutura que funciona como uma espécie de balcão. No local foram colocados pneus, areia e grades de ferro para contenção da erosão. Tambores de lixo foram posicionados pelos próprios comerciantes.

A área ganhou ainda um cenário decorativo em formato de coração utilizado por visitantes para fotografias. Foi instalada nas proximidades uma rampa improvisada utilizada para voos de parapente. Para acessar o ponto, carros e motocicletas utilizam uma descida aberta na areia.

Uma das vendedoras que atua no local afirmou que decidiu montar o ponto após perceber o aumento de pessoas praticando atividades físicas na região. “A paisagem é muito bonita. O pessoal corre aqui na praia, caminha na orla. Eu vi o movimento e pensei que eles iam sentir sede”, relatou a empreendedora. “Aqui eu vendo água de coco e água mineral. Se eles estão correndo, vão sentir sede”, acrescentou.

Segundo ela, o movimento é maior nos fins de semana. “Compensa mais no sábado e no domingo, sempre à tarde.” A comerciante também montou um pequeno cenário para fotografias. “A gente colocou aquele coração para o pessoal tirar foto. Os turistas chegam e fazem uma fotozinha.” Ela afirma que limita a estrutura para evitar problemas. “Coloquei mesa, cadeira e os sombreiros. É só o que pode. Não posso colocar mais porque é proibido.”

Apesar disso, ela defende que o local poderia receber melhorias estruturais. “Era para fazerem uma estrutura melhor aqui, colocar um banheiro. Isso atrairia mais gente”, disse. Ela informou que recebeu autorização do proprietário. Os lotes da Via Costeira são majoritariamente públicos (da União/Estado), mas foram cedidos à iniciativa privada na década de 1990 para fins turísticos. A reportagem não conseguiu localizar o suposto dono do terreno onde a vendedora se instalou.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb) confirmou que o ponto em questão está numa área privada e informou que equipes da fiscalização ambiental irão realizar vistoria na área. Segundo a pasta, os responsáveis pelas barracas deverão ser notificados para comparecer ao órgão e tratar da permanência ou não da ocupação do espaço, bem como da possibilidade de autorização da atividade.

A secretaria disse ainda que foi observada vegetação típica de restinga na área ocupada. Mesmo quando instaladas em terrenos privados, intervenções desse tipo precisam de autorização do poder público.

Ocupação da Via Costeira é alvo de debates legais

A ocupação da Via Costeira é historicamente cercada por discussões jurídicas devido à sensibilidade ambiental da região, que abriga dunas e áreas de restinga. A região integra uma Área Especial de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITP) definida pelo Plano Diretor de Natal, que estabelece critérios específicos para licenciamento de empreendimentos e limita parâmetros como altura máxima das construções e preservação paisagística.

No ano passado, a Semurb publicou uma instrução normativa para esclarecer regras de licenciamento e orientar investidores sobre o que pode ser construído na área. Segundo a publicação, os parâmetros para licenciamento são de empreendimentos de uso misto (residencial multifamiliar + não residencial) que podem ser feitos na área da Via Costeira, conforme regras definidas no Plano Diretor.

Entre as principais regras para o licenciamento estão: o cumprimento do gabarito máximo de 15 metros, preservação paisagística e acesso público à praia e apresentação de projeto de contenção costeira e observância do lote mínimo de 2.000m², quando aplicável. Os projetos poderão ter acesso a incentivos. O principal é o acréscimo de 50% no coeficiente de aproveitamento para térreos ativos, baseando-se no Plano Diretor de Natal e na lei municipal que estabelece prescrições urbanísticas das Áreas Especiais de Interesse Turístico e Paisagístico – AEITPs.

As mudanças na legislação, porém, também motivaram questionamentos do Ministério Público Federal, que ingressou com ação na Justiça para barrar alterações que poderiam ampliar construções em áreas ambientalmente sensíveis. O órgão argumenta que a região possui ecossistemas de dunas e restingas que funcionam como barreiras naturais contra a erosão e são importantes para a biodiversidade.

Na ação, o MPF pede a suspensão de normas e licenças que possam permitir ocupações consideradas incompatíveis com a legislação ambiental, além da elaboração de um plano de proteção e gestão ambiental para toda a Via Costeira.

Em fevereiro passado, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou à Justiça Federal urgência na análise da liminar que pede a suspensão imediata tanto de normas que permitam intervenções irregulares na orla da Via Costeira de Natal (RN), quanto das licenças para construções concedidas após a entrada em vigor do novo Plano Diretor da capital potiguar. A norma passou a vigorar em 7 de março de 2022.

O procurador da República Camões Boaventura reiterou a urgência do pedido liminar com base no fato de que o contexto jurídico que deu origem à ação civil pública do MPF – ajuizada em dezembro do ano passado – se agravou, tornando ainda mais urgente a concessão dos pedidos, bem como nos resultados alarmantes de um estudo técnico apresentado recentemente.

Ação tramita na Justiça estadual

Já tramita, na Justiça Estadual, uma ação de autoria do Ministério Público do Estado (MPRN) que questiona a validade da Lei Municipal 7.801/2024, que permite intervenções nas Áreas Especiais de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITPs) de Natal, dentre as quais se encontra a Via Costeira.

Nessa ação, uma liminar foi concedida em primeira instância determinando a suspensão de novas licenças urbanísticas e alvarás de construção, em razão dos potenciais riscos ambientais envolvidos. No entanto, o Tribunal de Justiça permitiu que a legislação voltasse a vigorar, autorizando o reinício da emissão dessas licenças.

Para o MPF, enquanto a legalidade do Plano Diretor (que serviu de fundamento para aprovação da lei municipal) não for analisada pela Justiça Federal, a autorização para a prefeitura emitir novas licenças traz impacto direto sobre as áreas da União existentes na Via Costeira e pode gerar grave insegurança jurídica. Licenças concedidas podem ser anuladas futuramente, bem como novas obras podem tornar o cenário ainda mais difícil de ser revertido, caso a Justiça Federal entenda posteriormente que são ilegais.

O MPF acrescenta que essa insegurança “tende a gerar progressivamente um cenário de fato consumado, cuja reversão futura será extremamente onerosa, quando não impossível, tanto para os investidores quanto para o meio ambiente e para a sociedade em geral”.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CAMPESTRENSE - VÍDEO: Na XIV Edição da Cavalgada de São José o abraço, o sorriso e o encontro reforçou o que realmente move essa caminhada, é o Carinho e a força de um povo

  Na Cavalgada de São José, em São José do Campestre, vivemos um momento especial ao lado do nosso povo. 🤠🐎 Entre abraços, sorrisos e mu...