A anunciada delação do banqueiro Daniel Vorcaro é
capaz de demolir candidaturas e encerrar carreiras no governo, no Congresso e
no Supremo Tribunal Federal. Mas, mais ainda, num país onde o presidente será
escolhido por poucos milhões de votos, Vorcaro será um fator chave na definição
do resultado, ao lado do impacto do preço do petróleo na economia, da sensação
de insegurança nas ruas e da eventual interferência de Donald Trump. Só que
diferente dos outros fatores, a delação de Vorcaro tem potencial que vai além
de outubro e pode gerar uma crise institucional com consequências futuras.
Desde que Vorcaro foi preso, o Congresso parou. Não
há mais sessões presenciais e nada de relevante está sendo votado. Enquanto o
resto do Brasil se preocupa com os preços dos combustíveis, deputados,
senadores, ministros do governo e ministros do STF tentam adivinhar qual o rumo
das acusações, se é que haverá um. Sem ainda saber as provas que Vorcaro
acumulou ou o que a Polícia Federal já coletou, o establishment político se
articula para tentar traçar uma linha limite para a delação.
Por partes.
Dono do banco Master, Vorcaro é o primeiro delator
que terá de falar sobre seu relacionamento com três ministros do Supremo
Tribunal Federal — pela ordem de surgimento no caso, Dias Toffoli, Alexandre de
Moraes e Kássio Nunes Marques. Para lembrar:
Dias Toffoli tem uma empresa familiar que fez
negócios com um fundo ligado ao universo do Master e, como relator do caso no
STF, passou dois meses usando estratagemas para dificultar as investigações e
resguardar Vorcaro.
O GLOBO mostrou uma troca de mensagens entre Vorcaro
e o ministro Alexandre de Moraes no dia de sua primeira prisão, em novembro.
Como revelou a colunista Malu Gaspar, o escritório da mulher de Moraes, Viviane
Barci, recebeu R$ 80 milhões do Master por dois anos de serviços ainda mal
explicados.
Mais novo no grupo, Kássio Nunes Marques também tem
elos familiares com o escândalo. Os repórteres Vinícius Valfré, Aguirre Talento
e Levy Teles, do Estadão, descobriram que seu filho Kevin — 25 anos, dois anos
de advocacia — recebeu R$ 281 mil da empresa Consult, contratada por R$ 18
milhões do Master e da JBS. O repórter Breno Pires, da revista Piauí, mostrou
que Kevin é sócio do filho do dono da Consult.
Nunca um delator teve tamanho poder nas mãos.
Brasília está acostumada a denúncias contra
políticos — estejam eles no Congresso ou no governo —, mas nunca lidou com uma
situação em que ministros do Supremo, os julgadores de última instância, façam
parte do problema. Isso leva o jogo para um terreno desconhecido, onde as
velhas estratégias de sobrevivência não dão garantia.
Como qualquer colaborador, Vorcaro terá de oferecer
à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República e ao ministro do STF André
Mendonça elementos que avancem em relação ao que já se sabe e ao que ainda se
saberá na quebra dos sigilos bancários e de dados de celulares. Esta não poderá
ser uma delação do “ouvi dizer”, como ocorreu tantas vezes na Operação
Lava-Jato.
O depoimento terá de ser aceito pelo
procurador-geral Paulo Gonet, que deve o seu cargo à amizade com Gilmar Mendes
e Alexandre de Moraes. Até agora, Gonet atuou mais como um defensor do que um
procurador. Em dezembro, ele arquivou o pedido para investigar Alexandre de
Moraes pelo contrato da mulher. Em janeiro, arquivou os pedidos para afastar
Dias Toffoli da relatoria do caso. Em março, ele pediu mais tempo para analisar
o pedido de prisão de Vorcaro, embora os documentos da PF apontassem risco à
integridade física de desafetos do banqueiro.
Em seguida, a delação poderá ser examinada na
Segunda Turma do Supremo, onde estão Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Kássio Nunes
Marques, ou no plenário. Em 135 anos, o Supremo nunca lidou com denúncias de
corrupção de seus próprios integrantes. Corre o risco de ter de fazer isso
durante uma campanha eleitoral na qual a defesa do impeachment de um ministro
do Supremo será ativo eleitoral de dezenas de candidatos da direita ao Senado.
Se o STF adiar a análise da delação para 2027, corre o risco de fazer isso ao
mesmo tempo que terá de lidar com um Senado sedento por sangue.
O benchmark histórico sobre delações premiadas e
seus efeitos é a Operação Lava-Jato. Mas o caso Master guarda singularidades.
Em 2014, a delação era um instrumento novo, por isso políticos e demais alvos
dos delatores não sabiam o que esperar. Hoje, Brasília toda sabe como é difícil
se explicar diante de um delator.
Há diferenças também de método. Ao prender uma
funcionária da Odebrecht, os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato tiveram
acesso aos sistemas de controle de propina da empreiteira. Políticos recebiam
pagamentos via caixa dois ou em contas secretas no exterior para atuar em favor
da empreiteira em governos e no Congresso. O caso do Master é diferente. Todos
tinham contrato com nota fiscal. De novo, por partes:
O escritório do governador do Distrito Federal,
Ibaneis Rocha (MDB), tinha um contrato de R$ 38 milhões com o banco. Como
governador, Ibaneis autorizou que o banco estatal do Distrito Federal, o BRB,
comprasse R$ 12,1 bilhões de títulos podres do Master. Para ajudar Vorcaro,
Ibaneis quebrou um banco que operava há 60 anos.
A cunhada do presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos), tomou um empréstimo de R$ 22 milhões no Master para compra de
um terreno em João Pessoa.
O Banco Master pagou R$ 11 milhões à empresa da nora
do senador Jaques Wagner (PT) por serviços de prospecção de operações de
crédito consignado.
O vice-presidente do União Brasil e candidato ao
governo da Bahia, ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da gestora Reag,
parceira do banco, por meio de um contrato de consultoria.
Depois de negar relação financeira com Vorcaro, o
presidente do União Brasil, Antonio Rueda, reconheceu que seu escritório de
advocacia mantinha um contrato com o banco. Os valores não foram revelados.
Ainda.
O ex-ministro Guido Mantega recebia R$ 1 milhão
mensais como consultor. Foi Mantega que levou Vorcaro para um encontro com o
presidente Lula.
O escritório de advocacia dos filhos do ex-ministro
Ricardo Lewandowski recebeu R$ 6 milhões ao longo de dois anos de contrato.
O ex-presidente Michel Temer foi contratado pelo
Master para, segundo ele mesmo, “mediar” a negociação entre o banco e o governo
do Distrito Federal.
Diretor de fiscalização do Banco Central entre 2017
e 2023 (nas gestões de Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto), Paulo Sérgio Neves
de Souza atuava como quinta coluna de Vorcaro. Souza assentiu a compra de
Vorcaro do Banco Máxima e depois autorizou o Master a operar como banco. De
acordo com a PF, enquanto trabalhava no BC, Souza recebia valores mensais para
repassar informações internas. A vida dupla de Souza só foi descoberta por
investigação instaurada por Gabriel Galípolo.
Há duas opções: ou Vorcaro diz que tinha uma
predileção especial por políticos e parentes de juízes como prestadores de
serviços ou confessa que os contratou por motivos não-republicanos. Caberá aos
contratados desmenti-lo.
Há outros políticos que devem explicações:
Chamado por Vorcaro de “grande amigo de vida”, o
senador Ciro Nogueira (PP) apresentou a “emenda Master”, projeto que
quadruplicaria o valor mínimo de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de
Créditos), o eixo das fraudes.
Em novembro de 2025, dias antes da primeira prisão
de Vorcaro, o deputado Filipe Barros (PL) apresentou um projeto de lei igual ao
de Ciro Nogueira para ressuscitar a “emenda Master”.
Quando o Banco Central resistia ao assédio do Master
para autorizar sua compra pelo BRB, os deputados Dr. Luizinho e Claudio Cajado
(ambos do PP) apresentaram proposta para dar à Câmara autorização para afastar
diretores do BC.
O governador Cláudio Castro (PL) autorizou o fundo de
pensão dos servidores do Estado, o Rioprevidência, a desperdiçar R$ 900 milhões
em letras podres do Master.
Sob a gestão do governador do Amapá, Clécio Luís
(União Brasil), o fundo Amapá Previdência comprou R$ 400 milhões de papéis do
Master. O fundo é controlado por aliados do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil).
O fundo de previdência da prefeitura de Maceió,
comandada por João Henrique Caldas (PL), torrou R$ 97 milhões em letras
financeiras do Master.
Pretexto inicial para que o caso Master fosse
investigado pelo STF, o deputado João Carlos Bacelar (PL) negociava com Vorcaro
a venda de um terreno em Trancoso, na Bahia.
Outra novidade do escândalo é o envolvimento de uma
igreja, a unidade do Belvedere da Igreja Batista da Lagoinha. Cunhado e braço
direito de Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel transferiu R$ 40,9 milhões para a
unidade. A igreja fechou suas portas no dia 15, duas semanas depois da prisão
de Zettel.
Tornou-se comum dizer que a Operação Lava-Jato
reavivou o sentimento antissistema que levou à ascensão de Jair Bolsonaro. Duas
eleições depois, as relações de Daniel Vorcaro, um arrivista de ascensão
meteórica, com os Três Poderes podem causar mais danos à República do que toda
a Lava-Jato.
Thomas Traumann - O Globo
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