A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte
(Sesap) investiga uma possível falha nos processos de limpeza e higienização do
Hospital Central Coronel Pedro Germano, em Natal, após a confirmação do segundo
caso de infecção pelo fungo Candida auris, conhecido como “superfungo”, na
unidade. A suspeita foi mencionada, na quinta-feira (5), pelo titular da pasta,
Alexandre Motta, que trata o caso como “contaminação cruzada”. O primeiro caso
foi confirmado em 22 de janeiro.
De acordo com o secretário, o novo paciente contaminado está
internado no hospital desde dezembro e havia feito três testes para detecção do
fungo. Os dois primeiros exames tiveram resultado negativo, enquanto o terceiro
confirmou a presença do microrganismo, indicando que a contaminação ocorreu já
dentro da unidade hospitalar, de acordo com a Sesap. O secretário informou
ainda que o número de profissionais aumentou de 13 para 18 para reforçar a
limpeza nos ambientes do hospital.
“Quando você tem os mecanismos de controle plenos, é esperado que
não aconteça. Se aconteceu, é porque de fato, em algum momento, a cadeia de
limpeza não se deu da maneira adequada. Então, a gente precisa averiguar o
porquê, verificar e aumentar com isso também a capacidade de limpeza do hospital”,
afirmou Motta.
Segundo o secretário, a vigilância epidemiológica analisou o caso
para entender a origem da contaminação. Inicialmente, havia a hipótese de
transmissão a partir de um paciente que tivesse vindo de outra unidade
hospitalar. No entanto, a análise indicou que o segundo paciente foi
contaminado no próprio ambiente hospitalar. “Aconteceu através do pessoal de
apoio que atua no hospital. Ou seja, o fungo não voou. O fungo passou de pessoa
a pessoa”, disse.
Apesar da confirmação do novo caso, o Governo descartou a
possibilidade de interdição total do hospital. A estratégia adotada será o
isolamento de áreas e a intensificação dos processos de desinfecção. “A gente
não está trabalhando com isso, porque se for interditar, a princípio eu teria que
parar todas as atividades, teria que limpar absolutamente tudo. O correto é
interdição de áreas, isolamento daquele paciente, isolamento dos ambientes e
fazer as desinfecções terminais necessárias”, declarou Motta.
Alexandre Motta orientou ainda que a população não entre em pânico,
já que a transmissão do fungo ocorre principalmente em ambientes hospitalares e
exige contato próximo com pessoas contaminadas. “Isso é uma circunstância muito
dentro dos hospitais, não há motivo de pânico”, disse.
O “superfungo”
O fungo Candida auris — apelidado de “superfungo” por sua
resistência a antifúngicos — foi identificado pela primeira vez no Japão, em
2009, e, no Brasil, teve seu primeiro registro em 2020. Desde então, tornou-se
um desafio crescente para os sistemas de saúde, principalmente por sua
capacidade de resistir a medicamentos usados no tratamento de infecções
fúngicas.
De acordo com Eveline Pipolo, uma das principais características do
fungo é a formação de biofilmes, estruturas que funcionam como uma espécie de
“escudo” e dificultam a ação dos medicamentos. “Esses aglomerados de células
tornam o tratamento mais difícil e também complicam a eliminação do fungo do
ambiente, exigindo protocolos rigorosos de limpeza e desinfecção”, afirma.
Além disso, o C. auris pode sobreviver por longos períodos em
equipamentos médicos e objetos de uso hospitalar, facilitando a transmissão
indireta. Por isso, a maior preocupação das autoridades de saúde é evitar que o
fungo se espalhe dentro da unidade hospitalar ou alcance outros hospitais do
Estado.
O professor Rafael Bastos, da UFRN, explica que o termo
“superfungo” está relacionado à resistência de Candida auris aos antifúngicos
disponíveis. “Hoje, existem apenas três grandes grupos de medicamentos
utilizados no tratamento: os azóis, os polienos e as equinocandinas. Candida
auris costuma ser resistente a pelo menos um desses grupos e, em alguns casos,
pode apresentar resistência a mais de um deles”, explica.

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