A política tem o curioso hábito de criar personagens
dos quais depois não consegue se livrar. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha,
tornou-se um desses casos. Há quase duas décadas, o filho do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva reaparece no noticiário com incômoda frequência, quase
sempre nos momentos menos convenientes para o pai e o partido que governam o País.
Agora, às vésperas de mais uma disputa presidencial, Lulinha – dono de uma
magnífica história que o fez saltar de monitor do Zoológico de São Paulo para
empresário envolvido em negócios milionários – volta ao centro de histórias mal
explicadas. Lembra, assim, que certos problemas políticos podem desaparecer por
algum tempo, mas, quando são problemas de fato, raramente desaparecem de vez.
Viram assombração.
Desde o primeiro mandato de Lula, o nome de Lulinha
simboliza uma dificuldade recorrente do lulopetismo: convencer a opinião
pública de que relações entre poder político e negócios privados em torno da
família presidencial são apenas coincidências. Foi então que o discreto biólogo
deu um salto empresarial tão rápido quanto surpreendente, ao tornar-se sócio de
uma empresa financiada por uma gigante das telecomunicações. Em circunstâncias
normais, uma biografia empresarial assim despertaria curiosidade, quando não
espanto. No singular universo lulopetista, porém, tentou-se apresentá-la como
exemplo de meritório espírito empreendedor.
Foi assim que nasceu a Gamecorp, agraciada com
investimento milionário da Telemar, na época controladora da operadora Oi. O
caso reuniu cabeludos indícios de trambiques e jamais foi plenamente explicado,
mas parece claro que o sobrenome Lula revelou-se especialmente valioso, capaz
de gerar oportunidades que dificilmente surgiriam para qualquer empreendedor
comum. Na cosmologia de Brasília, todo acesso tem seu preço.
Ao longo dos anos seguintes, o roteiro repetiu-se. O
nome de Lulinha surgia em negócios variados e relações com personagens que
orbitavam o poder político e econômico. Nada disso resultou em condenações
judiciais. Tampouco veio acompanhado de explicações claras. Na política, essa
combinação costuma bastar para manter suspeitas persistentes.
E eis que surge o episódio das fraudes bilionárias
no INSS. A investigação menciona mensagens em que investigados discutem
pagamentos destinados ao “filho do rapaz”, expressão que a polícia tenta
confirmar se seria referência ao filho do presidente. Há também suspeitas de
relações empresariais entre Lulinha e personagens ligados ao esquema. A defesa
do empresário nega irregularidades, mas o fato político permanece: mais uma vez
o nome do filho do presidente aparece nas franjas de um escândalo.
O detalhe mais revelador envolve o convite para uma
viagem de negócios a Portugal, feito pelo lobista Antônio Carlos Camilo
Antunes, o “Careca do INSS”. Segundo reportagem do Estadão, os dois teriam
visitado instalações ligadas à produção de cannabis medicinal, ramo em que
Antunes pretendia investir. Pode parecer trivial, mas em política raramente é.
Passagens internacionais em primeira classe e agendas empresariais além-mar
dificilmente são oferecidas por simples gentileza. Em geral representam
investimento em acesso – no caso de Lulinha, acesso direto ao sobrenome mais
poderoso da República. Ou um mimo para retribuir façanhas.
Caberá à Justiça esclarecer as suspeitas.
Politicamente, porém, o problema já está posto. Lula construiu sua trajetória
afirmando representar o oposto das elites que confundem interesses privados e
funções públicas. A história mostrou que o discurso não passou de engodo. É por
isso que o chamado “fator Lulinha” seguirá como um problema político permanente
para o presidente. O enredo volta ao palco, e o personagem muda de papel – ora
empresário promissor, ora investigado circunstancial –, mas o roteiro segue o
mesmo.
Talvez seja injusto com o pai. Talvez seja apenas o
destino de políticos poderosos. Mas há algo que parece incontornável. Lula
sempre foi um assombro da política, para o bem e para o mal. E o fantasma que
insiste em persegui-lo atende pelo apelido de sempre: Lulinha.
Opinião do Estadão

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