sexta-feira, 6 de março de 2026

Opinião do Estadão: Lulinha, o problemão de Lula

 

A política tem o curioso hábito de criar personagens dos quais depois não consegue se livrar. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tornou-se um desses casos. Há quase duas décadas, o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reaparece no noticiário com incômoda frequência, quase sempre nos momentos menos convenientes para o pai e o partido que governam o País. Agora, às vésperas de mais uma disputa presidencial, Lulinha – dono de uma magnífica história que o fez saltar de monitor do Zoológico de São Paulo para empresário envolvido em negócios milionários – volta ao centro de histórias mal explicadas. Lembra, assim, que certos problemas políticos podem desaparecer por algum tempo, mas, quando são problemas de fato, raramente desaparecem de vez. Viram assombração.

Desde o primeiro mandato de Lula, o nome de Lulinha simboliza uma dificuldade recorrente do lulopetismo: convencer a opinião pública de que relações entre poder político e negócios privados em torno da família presidencial são apenas coincidências. Foi então que o discreto biólogo deu um salto empresarial tão rápido quanto surpreendente, ao tornar-se sócio de uma empresa financiada por uma gigante das telecomunicações. Em circunstâncias normais, uma biografia empresarial assim despertaria curiosidade, quando não espanto. No singular universo lulopetista, porém, tentou-se apresentá-la como exemplo de meritório espírito empreendedor.

Foi assim que nasceu a Gamecorp, agraciada com investimento milionário da Telemar, na época controladora da operadora Oi. O caso reuniu cabeludos indícios de trambiques e jamais foi plenamente explicado, mas parece claro que o sobrenome Lula revelou-se especialmente valioso, capaz de gerar oportunidades que dificilmente surgiriam para qualquer empreendedor comum. Na cosmologia de Brasília, todo acesso tem seu preço.

Ao longo dos anos seguintes, o roteiro repetiu-se. O nome de Lulinha surgia em negócios variados e relações com personagens que orbitavam o poder político e econômico. Nada disso resultou em condenações judiciais. Tampouco veio acompanhado de explicações claras. Na política, essa combinação costuma bastar para manter suspeitas persistentes.

E eis que surge o episódio das fraudes bilionárias no INSS. A investigação menciona mensagens em que investigados discutem pagamentos destinados ao “filho do rapaz”, expressão que a polícia tenta confirmar se seria referência ao filho do presidente. Há também suspeitas de relações empresariais entre Lulinha e personagens ligados ao esquema. A defesa do empresário nega irregularidades, mas o fato político permanece: mais uma vez o nome do filho do presidente aparece nas franjas de um escândalo.

O detalhe mais revelador envolve o convite para uma viagem de negócios a Portugal, feito pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Segundo reportagem do Estadão, os dois teriam visitado instalações ligadas à produção de cannabis medicinal, ramo em que Antunes pretendia investir. Pode parecer trivial, mas em política raramente é. Passagens internacionais em primeira classe e agendas empresariais além-mar dificilmente são oferecidas por simples gentileza. Em geral representam investimento em acesso – no caso de Lulinha, acesso direto ao sobrenome mais poderoso da República. Ou um mimo para retribuir façanhas.

Caberá à Justiça esclarecer as suspeitas. Politicamente, porém, o problema já está posto. Lula construiu sua trajetória afirmando representar o oposto das elites que confundem interesses privados e funções públicas. A história mostrou que o discurso não passou de engodo. É por isso que o chamado “fator Lulinha” seguirá como um problema político permanente para o presidente. O enredo volta ao palco, e o personagem muda de papel – ora empresário promissor, ora investigado circunstancial –, mas o roteiro segue o mesmo.

Talvez seja injusto com o pai. Talvez seja apenas o destino de políticos poderosos. Mas há algo que parece incontornável. Lula sempre foi um assombro da política, para o bem e para o mal. E o fantasma que insiste em persegui-lo atende pelo apelido de sempre: Lulinha.

Opinião do Estadão

 

 


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