Ao tirar Lula da prisão e abrir caminho para que ele
voltasse à Presidência da República, o STF deu sobrevida ao PT.
Depois que o seu chefão sair de cena, seja em 2026
ou em 2030, o partido deverá ter o mesmo destino de outros grandes partidos da
esquerda ocidental, guardadas as especificidades tropicais: o segundo plano,
talvez até o terceiro, o que seria certa guetização.
Diminuirá bastante de tamanho porque já não terá
Lula para puxar votos. Mesmo com ele na Presidência, o PT encolheu, apesar de
ter hoje a segunda bancada na Câmara e a quarta no Senado. Em 2002, o partido
elegeu 91 deputados e 14 senadores; 24 anos depois, o PT conta com 67 deputados
e 9 senadores. Aumentará expressivamente a bancada em outubro próximo? Difícil.
Quatro estados são governados pelo PT, mas todos são
do Nordeste, região onde o partido predomina por causa do assistencialismo, o que
aponta para a progressiva regionalização do petismo, as eventuais exceções
vindouras apenas confirmando a tendência inexorável. A maior frustração: São
Paulo, berço do PT, continua a ser uma fortaleza inexpugnável para Lula e os
seus acólitos, e quase certamente não será Fernando Haddad a conquistá-la.
O definhamento do PT está espelhado nas sondagens
sobre o desempenho do governo Lula: os jovens, grupo que era o principal
manancial de votos, quadros e eleitores petistas, são os que mais o desaprovam.
De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada na
semana passada, a maior porcentagem de desaprovação está na faixa dos eleitores
de 16 a 34 anos: 56%. De 35 a 59 anos, a desaprovação também é majoritária. A
aprovação só é majoritária entre os eleitores de 60 anos ou mais: 53%.
O PT é um partido de velhos para velhos, e esse é um
dado que, a meu ver, ultrapassa a mera circunstância. Com uma ideologia
carcomida, um discurso esclerosado e um presidente octagenário, o PT deixou de
ter conexão com uma juventude que pensa muito mais como Nikolas Ferreira do que
como José Dirceu — ou como os defensores de uma pauta de costumes que se choca
com o conservadorismo da maioria dos brasileiros.
Nikolas Ferreira é síntese: enquanto o PT e
assemelhados doutrinam nas escolas e universidades, a direita faz a cabeça dos
jovens nas redes sociais, ganhando em persuasão e escala.
Dois outros revezes históricos: o partido perdeu a
sua gigantesca base operária, porque os operários foram substituídos por robôs
e remanescentes com mentalidade aburguesada; perdeu a sua imensa base bancária,
porque os bancários foram substituídos por aplicativos.
As estruturas sindicais não são, atualmente, nem
sombra do que foram até a década de 1990. Reduziu-se a massa de manobra e,
consequentemente, o dinheiro, que minguou ainda mais após a reforma trabalhista
de 2017 ter extinto a contribuição sindical obrigatória (que o STF tentou
ressuscitar, sem conseguir atingir integralmente o objetivo).
Não menos importante, ao longo das décadas, por
vaidade ou negligência, Lula solapou o surgimento de lideranças capazes de
substituí-lo. Foi árvore frondosa demais; a sua sombra impediu que outras
crescessem. No meio do bosque, havia apenas um tronco oco: Dilma Rousseff.
O lulismo dificilmente terá continuador à altura, e
o epitáfio político do chefão petista poderá ser, assim, a frase de Luís XV
(também atribuída à sua amante, Madame de Pompadour): “Depois de mim, o
dilúvio”. Desconfio de que Lula concorda com o prognóstico.

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