A empresa de consultoria de Roberta Luchsinger,
amiga do filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que
entrou na mira das investigações sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), recebeu pagamentos de R$ 4,1 milhões de empresas que pertencem a
um empresário do Maranhão acusado anteriormente de fraudes em licitações e
outros delitos contra a administração pública.
Os dados foram registrados em um relatório do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado aos órgãos de
investigação.
A defesa de Roberta afirmou que os pagamentos são
por uma “regular prestação de serviços” de suas atividades privadas e disse que
não têm relação com os fatos do INSS. Os advogados optaram por não dizer quais foram
os serviços.
“As transferências ora apontadas, oriundas de sua
regular prestação de serviço, são recebimentos que não guardam qualquer
relação, ainda que remota, com o caso. Pelo contrário, são movimentações
relativas à sua atividade privada e não devem ser alvo de devassa pública no
âmbito social e mesmo no âmbito judicial, o que representaria clara prática do
que é comumente chamado de fishing expedition”, afirmou (leia a íntegra da nota
ao final).
Procurada, a defesa de Lulinha disse que a investigação
da Polícia Federal está realizando uma “pesca probatória” sobre os alvos e que
isso é um “fato estranho aos autos”. Afirmou ainda que Roberta é uma empresária
e que Fábio não tem relação com esses recebimentos.
O empresário que fez pagamentos a Roberta Luchsinger
é Eduardo José Barros Costa, conhecido como Eduardo DP ou Eduardo Imperador,
empresário que já foi alvo de diversas operações da Polícia Federal. Ele é réu
em ações penais, mas nunca foi condenado. Procurado, ele não respondeu sobre os
motivos da contratação de Roberta.
Eduardo DP foi preso na investigação sobre desvio de
emendas enviadas à Codevasf que resultou no oferecimento de denúncia contra o
então ministro das Comunicações, Juscelino Filho. Ele é acusado de pagar
propinas para conseguir obras no município de Vitorino Freire (MA), reduto de
Juscelino, para a Construservice, outra empreiteira da qual Eduardo aparece
como sócio oculto.
A Construservice foi contratada pela prefeitura,
administrada pela irmã de Juscelino, para asfaltar uma estrada de terra que
passa em frente à fazenda do ministro.
De acordo com o relatório do Coaf, obtido pelo
Estadão, a EDP Infraestrutura e Pavimentação pagou R$ 2,2 milhões à RL
Consultoria e Intermediações, em um período entre setembro de 2024 e março de
2025.
Além disso, uma segunda empreiteira do Maranhão, que
é apontada em relatórios da Polícia Federal como também controlada por Eduardo
DP, a Pentágono Comércio e Engenharia, também transferiu R$ 1,9 milhão para
Roberta nesse período.
Ao todo, portanto, empresas ligadas a Eduardo Imperador
repassaram R$ 4,1 milhões à consultoria de Roberta Luchsinger.
Esses fatos não estão ligados às fraudes no INSS. As
duas empreiteiras possuem contratos com prefeituras do Maranhão e de outros
estados. Mas, conforme as investigações da PF, Roberta Luchsinger se
apresentava como lobista com acesso a órgãos públicos do governo federal.
Ela é amiga próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha, e foi responsável por apresentá-lo ao empresário Antônio Camilo
Antunes, o Careca do INSS, acusado de chefiar um esquema de desvios de
aposentadorias. Após esse contato, Lulinha teve uma viagem a Lisboa paga pelo
Careca do INSS para conhecer um projeto de implantação de uma fábrica de
canabidiol medicinal. Sua defesa nega irregularidades e diz que Lulinha não
recebeu pagamentos nem fechou negócios com o empresário.
Movimentação milionária
No período de setembro de 2024 a maio de 2025, as
contas da consultoria de Roberta receberam R$ 19,4 milhões e transferiram R$
18,8 milhões, de acordo com os dados do Coaf.
Os repasses das duas empreiteiras do Maranhão
ligadas a Eduardo DP estão entre os maiores feitos à conta dela. O Coaf ainda
identificou um depósito de R$ 650 mil em dinheiro vivo feito em uma agência em
São Luís (MA).
Também nesse período, ela recebeu R$ 1,1 milhão do
Careca do INSS. Segundo a PF, os pagamentos seriam referentes à intermediação
de contatos com o governo federal para uma tentativa do Careca do INSS de
vender um projeto de canabidiol medicinal para o governo.
Agência de viagens sob investigação
Como revelou o Estadão, a Polícia Federal investiga
se recursos provenientes do desvio de aposentadorias do INSS tiveram como
beneficiária uma agência de viagens usada por Fábio Luís.
O caminho do dinheiro foi detectado na análise das
transferências bancárias do Careca do INSS para a empresária Roberta.
A defesa de Lulinha afirmou que essa agência é
responsável por emitir todas as viagens da empresária Roberta Luchsinger e da
família dela e que as afirmações da PF seriam mais uma tentativa “indevida” de
incriminar o filho do presidente. Disse ainda que Lulinha se colocou à
disposição do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça para
prestar esclarecimentos e reiterou não ter relação direta nem indireta com os
fatos investigados sobre o INSS.
Com a palavra, o advogado Bruno Salles, da defesa de
Roberta Luchsinger
As informações publicadas na matéria sobre as
informações financeiras de Roberta Luchsinger (e, portanto, sigilosas),
relativas a transferências para uma agência de viagem, bem como as informações
cujos esclarecimentos foram solicitados para a presente matéria, são oriundas
de uma Relatório de Análise Judiciária, elaborado por dois Agentes de Polícia
Federal, que examinou os RIFs (Relatórios de Análise Financeira) de Roberta e
de sua empresa, a RL Consultoria.Trata-se de documento altamente sigiloso e que
foi vazado criminosamente, provavelmente, pesa dizer, por agentes públicos.
Embora Roberta e seus representantes tenham esclarecidos uma série de pontos
relativos à supostas ligações com o “Caso INSS”, as transferências ora
apontadas, oriundas de sua regular prestação de serviço, são recebimentos que
não guardam qualquer relação, ainda que remota, com o caso. Pelo contrário, são
movimentações relativas à sua atividade privada e não devem ser alvo de devassa
pública no âmbito social e mesmo no âmbito judicial, o que representaria clara
prática do que é comumente chamado de fishing expedion. Assim sendo, a defesa
de Roberta se reserva ao direito de não comentar assuntos atinentes a esfera
eminentemente privada da sua empresa e que não são alvo de qualquer tipo de
investigação, salientando que o vazamento dos documentos retromencionados será
alvo de nova representação ao Supremo Tribunal Federal, para apuração de seus
responsáveis.
Estadão

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