A quebra de sigilos bancário e fiscal do Lulinha
remete aos piores momentos da longa carreira política do pai, o presidente Lula
− mensalão, Lava Jato e prisão – e desaba sobre a campanha da reeleição
justamente quando o senador Flávio Bolsonaro se firma e ganha fôlego como o
principal candidato da oposição. Quanta poeira, ou lama, pode sair daí?
Afinal, Lula está virtualmente reeleito? É o mais
forte candidato, mas a resposta, nua e crua, é que não. Se as pesquisas até
aqui capturavam o favoritismo do presidente, começam a registrar que não é bem
assim e a campanha vai ser uma pedreira, ainda mais difícil do que a de 2022,
que ele venceu já por margem bem apertada.
Sem antecedentes criminais, Lulinha tem uma relação
com a Polícia Federal que não é das melhores e vai de mal a pior, depois das
revelações sobre seus possíveis laços com o escândalo do INSS e das quebras dos
sigilos, tanto pelo ministro do STF André Mendonça quanto pela CPMI do INSS.
Ambos decidiram com base na PF.
Lulinha já foi comparado por papai Lula a Ronaldo
Fenômeno, um dos maiores craques da história do futebol brasileiro, na época em
que o País tentava entender como um ex-funcionário de zoológico criou uma
empresa de jogos, a franzina Gamecorp, e, um ano depois, já fechava um negócio
milionário com a Telemar.
“Que culpa tenho eu se meu filho é o Ronaldinho dos
negócios?”, dava de ombros o presidente, então no seu primeiro mandato, com uma
cara de pau que é marca tanto de Lula quanto de qualquer um que esteja em maus
lençóis e sem resposta. Mas a explicação que grassou o país foi menos irônica e
mais realista: o sucesso de Lulinha e da Gamecorp só aconteceu porque o pai
ocupava o Planalto.
O resultado é que a eleição de 2026 terá um
candidato com o pai na cadeia e outro com o filho sendo investigado, o que não
elimina o fato de que os próprios candidatos têm lá seus probleminhas com a
polícia e a justiça. Um, enrolado com rachadinhas, chocolates e compras
esquisitas de casas chiques. O outro, ex-condenado e ex-preso, que teve seus
processos anulados. Vai pegar fogo.
A diferença, neste momento, é que Flávio Bolsonaro é
“a novidade” da eleição, já monta palanques nos principais colégios eleitorais,
como o Rio de Janeiro e, aparentemente, deixou para trás Tarcísio, Ratinho,
Caiado, Eduardo Leite e Zema na corrida para presidente.
E Lula? Com a caneta na mão, grande exibição
pública, acordos internacionais e dados consistentes na economia (apesar da
bomba fiscal de efeito retardado), vem liderando quase todas as pesquisas
eleitorais, mas não consegue superar um obstáculo: sua aprovação como
presidente é insistentemente menor que a desaprovação.
Nesse ambiente confuso, Lula finalmente arregaça as
mangas para dar sustentação à sua campanha em São Paulo, repetindo a indicação
do ministro Fernando Haddad para o governo e, portanto, o confronto
Haddad-Tarcísio de 2022, vencido pelo atual governador.
No Rio, o PT está nas mãos do prefeito de Maricá,
Washington Quaquá, e, em Minas, ninguém sabe ao certo, depois que o PT
naufragou com Fernando Pimentel, como o PSDB, com Aécio Neves. E as
prefeituras? Em 2024, os quatro primeiros partidos no ranking foram do Centrão,
o PL de Flávio ficou em quinto e o PT amargou o nono lugar.
Assim como a eleição de outubro era incerta com Lula
firmemente favorito nas pesquisas, continua sendo com Flávio Bolsonaro ganhando
gás e Lula enfrentando sérios problemas, inclusive com o filho mais uma vez
encrencado. Gilberto Kassab tenta se recolocar e reajustar a estratégia do
Centrão, entre um e outro.
Eliane Cantanhêde - Estadão

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