A oito meses da eleição, o governo Lula volta a
colocar a questão do aumento de impostos no centro do debate, ao elevar a
tributação sobre componentes eletrônicos. Não se trata de um ajuste restrito a
importadores ou a um nicho industrial. Hoje, praticamente toda a população
depende de celulares, computadores e tablets para trabalhar, estudar,
empreender, fazer operações financeiras, se comunicar e ter momentos de lazer.
Quando a política fiscal incide sobre uma engrenagem tão intrincada no
cotidiano das pessoas comuns, o efeito não é apenas técnico, mas sim político,
porque toca diretamente a rotina de milhões.
O ponto central não é apenas a medida em si, mas o
contexto simbólico em que ela se insere. Ao longo do mandato, foi se
consolidando nas redes a percepção de que o governo Lula tem uma grande
disposição para elevar tributos e muita má vontade em reduzir gastos.
Independentemente de dados fiscais ou justificativas econômicas, essa foi a
leitura que ganhou força como marca política. Um espaço narrativo que a direita
ocupa de forma inversa, batendo na tecla de que é preciso reduzir a carga
tributária.
Os dados da AP Exata Inteligência em Dados ajudam a
dimensionar esse movimento. Em um recorte de cerca de 10 mil publicações feitas
nesta quarta-feira, é possível perceber o impacto que a viralização do tema
produziu de imediato. A rejeição ao presidente subiu 0,2 ponto e a aprovação
caiu 0,2, gerando variação de 0,4 ponto, em poucas horas.
No debate específico sobre o aumento do imposto, a
reprovação alcança 74,3%, a aprovação fica em 6,8% e 18,9% das menções são neutras,
concentradas na difusão da informação. Excluído o bloco meramente informativo,
o cenário se torna ainda mais contundente, com 91,6% de rejeição contra 8,38%
de apoio. Algo que, às vésperas das eleições, deixa qualquer marketeiro em
desespero.
A oposição percebeu rapidamente o potencial
estratégico do assunto e agiu em tom crítico uníssono ao longo do dia. Parte da
direita se apressou, estrategicamente, em direcionar a narrativa ao público
gamer, um segmento jovem altamente conectado e com grande capacidade de
produção e disseminação de conteúdo. Ao associar imposto e videogames e
computadores, a crítica ganhou linguagem própria e atravessou as bolhas
ideológicas, fazendo com que o debate se estabelecesse no terreno emocional de
um grupo muito expressivo no ambiente online.
O desafio do governo, portanto, se tornou menos contábil e mais narrativo. Não
basta defender a medida com argumentos de proteção à indústria nacional ou
ligados à saúde contábil do País, se a percepção dominante é a de encarecimento
generalizado.
Desta vez, o apelido “Taxxad”, usado pela oposição
para carimbar o ministro Fernando Haddad, deixou de soar apenas como ironia
militante e encontrou ressonância ampla no debate público. Já não se trata mais
de uma decisão politicamente equivocada do Ministério da Fazenda, mas sim de um
tiro no bolso dos cidadãos e no pé do próprio governo.
Estadão

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