O caminho da crise envolvendo o STF é sem volta, mas
o problema é que não se tem muita ideia neste momento até onde vai chegar. Em
termos políticos foi ultrapassado o ponto no qual uma “gestão de crise
reputacional” poderia conter os danos causados à imagem e legitimidade da
instituição.
Não custa lembrar os clássicos da sociologia:
instituições existem não por terem uma placa com o nome delas pendurada na
fachada de um prédio. Existem por se acreditar nelas. E por serem entendidas
como impessoais. Aqui está a essência do problemão imediato do STF: sofre com
falta de credibilidade por parecer defender os interesses (políticos e
financeiros) de alguns de seus integrantes.
A situação não se deve apenas ao escândalo do
Master. Simplificando brutalmente, o STF caiu na política e a política tomou
conta dele. Ironicamente, o Supremo virou mais um retrato do contexto político
atual: o da falta de lideranças, em todas as esferas, com capacidade efetiva de
controle. Não parece haver no momento quem seja capaz de estabelecer consensos
dentro do STF sobre como seguir adiante nessa turbulência severa.
Notas oficiais e desmentidos vindos do Supremo nos
últimos dias evidenciam desconexão com um aspecto relevante da realidade
política. Querem alguns dos ministros e o presidente da casa acreditar que são
vítimas de ataques vindos de prejudicados por suas decisões (e o que chamam de
“intervenções de ofício”). A saber: golpistas, bancos descontentes com decisões
de ordem tributária, reacionários que não toleram decisões em favor de
minorias, jornalistas pagos por algum interesse escuso.
De fato, seria mais “elegante” encarar um embate
sobre aborto, marco temporal, regulação de redes sociais, legislação
tributária, para citar alguns assuntos. São grandes temas, de alta complexidade
e fortes repercussões sociais e econômicas, cujo tratamento por parte do STF em
si levanta questões sobre equilíbrio entre os poderes e as normas
constitucionais, mas em boa medida estamos num campo de ideias.
Mas não é isto que se debate. No foco da presente
crise estão contratos de assessoria jurídicas de valores astronômicos firmados
por integrantes da corte com instituições acusadas de fraude pelo Banco Central
e pela Polícia Federal (os investigadores que uma parte do Supremo tentou
transformar em investigados). Estão os favores pessoais recebidos por teias de
relacionamento perigosas e promíscuas com diversos segmentos da economia.
E a arrogância trazida pelo exercício de um poder
sem controle. Em nome do que, afinal? De salvar a democracia, dizem.
William Waack - Estadão

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