Durante a assinatura de um contrato de construção de
navios pela Petrobras no Rio Grande do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva disse que o empreendimento era questão de “soberania nacional”. Não é a
primeira vez – e é presumível que não será a última – que Lula emprega
erroneamente o princípio de soberania nacional aos projetos que defende. Com
incômoda frequência recorre a uma interpretação muito peculiar, e sempre em
causa própria, de um dos pilares da República, diversas vezes mencionado na
Constituição brasileira.
O conceito de soberania destacado na Carta de 1988
está ligado à defesa do território nacional, à regulação dos recursos
econômicos estratégicos e às diretrizes das relações internacionais, garantindo
o controle e a autonomia do País. Em resumo, é basicamente a forma como o
Brasil rege suas relações externas, com o dever de defender a solução pacífica
de conflitos, os direitos humanos e a igualdade entre Estados, sempre pautado
pela independência nacional.
É preciso um esforço hermenêutico colossal
para enquadrar a construção de navios pela Petrobras em qualquer dessas
situações. O contrato de R$ 2,8 bilhões para a construção de embarcações integra
o programa de incentivo à indústria naval que Lula retomou ao retornar ao
Planalto, em 2023, com estimativas de que a renovação da frota da Transpetro,
subsidiária da Petrobras, ultrapasse R$ 23 bilhões.
É uma soma considerável, mas sem comparação com o
valor estimado de até US$ 28 bilhões (cerca de R$ 145 bilhões, ao câmbio atual)
programados no início da década de 2010, também sob gestão de Lula, para o
fracassado programa de aquisição de 28 sondas de perfuração pela Petrobras –
sem contar a construção de 49 navios, obras que seriam espalhadas pelos
estaleiros do País (muitos deles, recorde-se, erguidos exclusivamente para
isso).
Na época, Lula também alegava que aquilo tudo servia
para reafirmar a “soberania nacional” e exaltava o rigor na construção dos
equipamentos com conteúdo nacional, o que resultou em grandes atrasos e elevado
sobrepreço nas poucas obras que saíram do papel. Num cenário marcado por
denúncias de corrupção, a Petrobras aumentou de forma inédita seu endividamento
para atender aos planos de Lula. Se não fosse o freio imposto pela Operação
Lava Jato, que flagrou o portentoso esquema de corrupção na Petrobras, a
empresa, que está entre as maiores do País, corria sério risco de quebrar.
Novamente sob o comando de Lula, a petroleira – controlada
pela União, mas com mais de 60% de seu capital privado – abraça planos de
investimentos ditados por decisões políticas, e não por estratégia comercial. É
o caso, por exemplo, do retorno à produção de fertilizantes, abandonado por ter
causado prejuízos bilionários à empresa, que ela agora retoma com fábricas na
Bahia, em Sergipe, no Paraná e no Mato Grosso do Sul. E mais uma vez o governo
Lula apela à soberania nacional, ligando a fabricação de fertilizantes à
produção de alimentos.
Nada disso é de graça. Desde que o presidente dos
EUA, Donald Trump, tentou imiscuir-se em assuntos internos do Brasil por meio
da imposição destrambelhada de tarifas e sanções, Lula vem explorando
eleitoralmente o tema da soberania. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência,
Guilherme Boulos, declarou, em entrevista ao jornal Valor, que essa
questão será central na campanha deste ano, mais do que segurança pública.
Obviamente, isso está mais no terreno do desejo do
que da realidade, mas a insistência de Lula em tratar quase todas as suas
decisões de governo como parte da defesa da soberania brasileira mostra o
empenho do petista em fazer com que esse tema seja em 2026 o que a “defesa da
democracia” foi em 2022, isto é, que sirva para atrair o apoio dos eleitores moderados.
Como o caso da Petrobras mostra, no entanto, toda
vez que Lula invoca a “soberania”, o País fica mais pobre.
Opinião do Estadão

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