Cláudio Oliveira
Repórter
ORio Grande do Norte apresenta uma das menores taxas
de internação por transtornos mentais e comportamentais entre jovens de 15 a 29
anos no país. De acordo com o Informe II – Saúde Mental: Informes sobre a
situação de saúde da juventude brasileira (2025), elaborado pela Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz), o estado registrou taxa de 441,1 internações por grupo
de 100 mil habitantes entre 2022 e 2024, abaixo da média nacional, que foi de
579,5 por 100 mil. À primeira vista, o dado poderia sugerir um cenário mais
favorável. No entanto, especialistas alertam que os números, isoladamente,
escondem um problema estrutural: a deficiência na assistência psiquiátrica, com
falta de leitos, serviços ambulatoriais insuficientes e subnotificação de casos
graves. Para discorrer sobre o assunto, a Secretaria Estadual de Saúde Pública
(Sesap/RN) foi procurada ao longo da semana, mas não houve retorno até o
fechamento desta edição.
Para o presidente da Associação Norte-Riograndense
de Psiquiatria (ANRP), Ernane Pinheiro, a explicação está diretamente ligada à
ausência de uma rede estruturada de cuidado. “Primeiro, não há um maior número
de internamentos porque não existe assistência psiquiátrica adequada para
atender essas pessoas. Se existisse um sistema de saúde pronto, com certeza
muito mais pessoas seriam internadas”, afirma.
A disparidade se torna mais evidente quando o Rio
Grande do Norte é comparado a estados do Sul do país, que concentram as maiores
taxas de internação entre jovens. O Rio Grande do Sul lidera o ranking
nacional, com 1.615,6 internações por 100 mil habitantes, seguido pelo Paraná
(1.170,5) e Santa Catarina (963,3). Mesmo dentro do Nordeste, estados
apresentam índices superiores ao potiguar, o que reforça a leitura de que a
taxa mais baixa no RN não reflete, necessariamente, menor adoecimento mental
entre os jovens.
Segundo o presidente da ANRP, em sistemas bem
estruturados, o maior número de internações não representa fracasso, mas sim
acesso ao cuidado necessário. “Um país que tenha uma boa assistência
psiquiátrica atenderia muito mais pessoas, internaria muito mais pessoas, e
isso não refletiria outra coisa a não ser uma boa assistência”, diz Pinheiro.
Outro fator que contribui para a subnotificação é o
grande contingente de jovens internados fora da rede hospitalar do SUS. “Em
Natal, existem praticamente duas mil pessoas internadas, ou seja, por uso de
drogas. E, no entanto, elas não estão registradas lá nos hospitais
psiquiátricos ou hospitais gerais, porque são em comunidades terapêuticas”,
explica Ernane. Esses atendimentos, por não integrarem o sistema de internações
hospitalares, ficam fora das estatísticas que embasam o relatório da Fiocruz.
Por isso, do ponto de vista médico, a leitura
isolada dos números exige cautela. O psiquiatra Emerson Arcoverde, do Hospital
Universitário Onofre Lopes (Huol/UFRN-Ebserh), avalia que uma taxa menor pode
ter diferentes significados. “Apenas o dado numérico pode dificultar a análise
da causa desse resultado, mas contextualizando com nossa realidade no RN,
podemos supor que existe uma provável menor gravidade ou menor prevalência de
transtornos mentais graves nessa faixa etária”, observa. No entanto, ele
pondera que a internação psiquiátrica é indicada apenas para quadros agudos ou
de alto risco, o que também pode indicar barreiras de acesso. “Taxas menores
podem refletir falta de leitos psiquiátricos, baixa cobertura de serviços
especializados, subdiagnóstico ou dificuldade de acesso.”
A fragilidade da rede é evidenciada por dados
concretos. “Temos apenas um CAPS infantil em Natal, e um número irrisório de
leitos infantis, seis leitos na cidade de Natal, acredito que nenhum no
interior”, afirma Arcoverde, reforçando que, em muitos estados brasileiros, a
redução das internações não significa melhora, mas insuficiência de serviços.
Progressão com a idade
O relatório da Fiocruz também chama atenção para a
escalada progressiva das internações conforme o avanço da idade dentro do grupo
jovem, tendência observada no RN e no restante do país. No Rio Grande do Norte,
a taxa entre adolescentes de 15 a 19 anos é de 283,7 internações por 100 mil
habitantes, sobe para 443,6 entre jovens de 20 a 24 anos e chega a 587,9 na
faixa de 25 a 29 anos. Aos 15 anos, a taxa é ainda menor, de 36,8 por 100 mil,
indicando que o risco de internação por transtornos mentais e comportamentais
aumenta significativamente à medida que os jovens se aproximam da vida adulta.
Segundo Ernane Pinheiro, essa evolução acompanha a
própria história natural de transtornos mentais graves. “No decorrer do tempo,
obviamente, algumas doenças vão se intensificando e necessitando de
internamento. Por exemplo, o maior número de primeiros surtos esquizofrênicos
ocorre entre os 18 e os 20 anos”, explica. Ele acrescenta que, por isso, “a
quantidade de internamentos necessária para quem tem 15 é menor do que para
quem tem 22, se nós considerarmos a esquizofrenia, que é uma doença que gera
muito internamento psiquiátrico”.
O psiquiatra Emerson Arcoverde reforça essa análise
clínica. “Os transtornos mentais graves, como esquizofrenia, transtorno afetivo
bipolar e transtorno por uso de substâncias, acometem pessoas jovens, no final
da adolescência e início da idade adulta”, afirma. Para ele, além do surgimento
dos quadros, o aumento das internações também reflete falhas no acompanhamento
precoce. “O aumento das internações deve ser explicado pela falha de
acolhimento dessas pessoas nos serviços ambulatoriais, dada a insuficiência de
serviços substitutivos como os CAPS.”
Álcool e drogas são prevalentes
O uso de álcool e outras drogas aparece no relatório
da Fiocruz como um dos principais fatores associados às internações
psiquiátricas entre jovens, sobretudo entre homens. No RN, esse padrão se
repete e ajuda a explicar tanto a progressão das internações com a idade quanto
a presença de atendimentos fora do sistema hospitalar tradicional.
Para Ernane Pinheiro, a dependência química tem uma
trajetória própria. “A pessoa começa a usar drogas com 13 ou 14 anos; ela vai
precisar de um internamento com 25. Com pouca idade, o problema não é alarmante
a ponto de precisar de internamento, mas com mais idade é necessário”, afirma.
Na avaliação de Éder Dantas, técnico da Coordenação
de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Natal, olhar apenas para as
internações é insuficiente para dimensionar o problema. “Quando o indivíduo
chega a ser internado, é que o problema chegou já a um limite quase
intransponível. Mas a dimensão do problema de saúde mental nesse extrato da
população é muito além disso”, afirma. Segundo ele, em Natal, a maioria das
pessoas com transtornos mentais não chega a ser internada, sendo acompanhada na
atenção básica e nos serviços especializados.
Na capital, o atendimento começa, em geral, pelas
Unidades Básicas de Saúde (UBS). “Dentro da atenção primária, esses serviços
atendem os transtornos mentais comuns e as situações de baixa complexidade”,
explica Éder. Para os casos mais graves, há os Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS). “Aqui em Natal nós temos cinco CAPS, inclusive dois especializados em
álcool e outras drogas, além de um ambulatório especializado”, detalha. Ele
acrescenta que o município também conta com leitos em hospitais da rede própria
e conveniada, além da Rede de Urgência e Emergência.
A lógica, segundo o técnico, é evitar que o jovem
chegue à internação. “Quanto mais pessoas sendo atendidas na rede básica e
especializada, menor vai ser o número de pessoas que chegam a internamento.
Quando eu interno, quer dizer que a pessoa chegou a uma crise”, afirma. O
perfil dos atendidos também segue o padrão nacional. “Nos homens, há uma
prevalência maior de atendimentos relacionados ao uso de álcool e outras
substâncias. Entre as mulheres, predominam os transtornos de humor, como a
depressão.”
Dantas ressalta que o uso problemático se
caracteriza quando há prejuízo social. “O uso prejudicial é identificado quando
a vida social da pessoa é afetada: perda de emprego, conflitos familiares,
violência ou transgressões às leis.”
Ao reunir dados e análises, o relatório da Fiocruz
aponta que a saúde mental juvenil no Brasil e no Rio Grande do Norte em particular
exige políticas públicas que vão além da leitura fria das estatísticas. Para
Emerson Arcoverde, o enfrentamento do problema passa necessariamente pela
prevenção. “Precisamos reforçar o papel da prevenção como ponto crucial, com
vigilância, acompanhamento dos jovens, retardar o início do uso de substâncias,
cuidado com excesso de telas, favorecimento da permanência das crianças na
escola”, destaca.

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