domingo, 18 de janeiro de 2026

Saúde mental juvenil: RN interna menos, mas preocupa especialistas

 


Cláudio Oliveira
Repórter

ORio Grande do Norte apresenta uma das menores taxas de internação por transtornos mentais e comportamentais entre jovens de 15 a 29 anos no país. De acordo com o Informe II – Saúde Mental: Informes sobre a situação de saúde da juventude brasileira (2025), elaborado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o estado registrou taxa de 441,1 internações por grupo de 100 mil habitantes entre 2022 e 2024, abaixo da média nacional, que foi de 579,5 por 100 mil. À primeira vista, o dado poderia sugerir um cenário mais favorável. No entanto, especialistas alertam que os números, isoladamente, escondem um problema estrutural: a deficiência na assistência psiquiátrica, com falta de leitos, serviços ambulatoriais insuficientes e subnotificação de casos graves. Para discorrer sobre o assunto, a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap/RN) foi procurada ao longo da semana, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.

Para o presidente da Associação Norte-Riograndense de Psiquiatria (ANRP), Ernane Pinheiro, a explicação está diretamente ligada à ausência de uma rede estruturada de cuidado. “Primeiro, não há um maior número de internamentos porque não existe assistência psiquiátrica adequada para atender essas pessoas. Se existisse um sistema de saúde pronto, com certeza muito mais pessoas seriam internadas”, afirma.

A disparidade se torna mais evidente quando o Rio Grande do Norte é comparado a estados do Sul do país, que concentram as maiores taxas de internação entre jovens. O Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional, com 1.615,6 internações por 100 mil habitantes, seguido pelo Paraná (1.170,5) e Santa Catarina (963,3). Mesmo dentro do Nordeste, estados apresentam índices superiores ao potiguar, o que reforça a leitura de que a taxa mais baixa no RN não reflete, necessariamente, menor adoecimento mental entre os jovens.

Segundo o presidente da ANRP, em sistemas bem estruturados, o maior número de internações não representa fracasso, mas sim acesso ao cuidado necessário. “Um país que tenha uma boa assistência psiquiátrica atenderia muito mais pessoas, internaria muito mais pessoas, e isso não refletiria outra coisa a não ser uma boa assistência”, diz Pinheiro.

Outro fator que contribui para a subnotificação é o grande contingente de jovens internados fora da rede hospitalar do SUS. “Em Natal, existem praticamente duas mil pessoas internadas, ou seja, por uso de drogas. E, no entanto, elas não estão registradas lá nos hospitais psiquiátricos ou hospitais gerais, porque são em comunidades terapêuticas”, explica Ernane. Esses atendimentos, por não integrarem o sistema de internações hospitalares, ficam fora das estatísticas que embasam o relatório da Fiocruz.

Por isso, do ponto de vista médico, a leitura isolada dos números exige cautela. O psiquiatra Emerson Arcoverde, do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol/UFRN-Ebserh), avalia que uma taxa menor pode ter diferentes significados. “Apenas o dado numérico pode dificultar a análise da causa desse resultado, mas contextualizando com nossa realidade no RN, podemos supor que existe uma provável menor gravidade ou menor prevalência de transtornos mentais graves nessa faixa etária”, observa. No entanto, ele pondera que a internação psiquiátrica é indicada apenas para quadros agudos ou de alto risco, o que também pode indicar barreiras de acesso. “Taxas menores podem refletir falta de leitos psiquiátricos, baixa cobertura de serviços especializados, subdiagnóstico ou dificuldade de acesso.”

A fragilidade da rede é evidenciada por dados concretos. “Temos apenas um CAPS infantil em Natal, e um número irrisório de leitos infantis, seis leitos na cidade de Natal, acredito que nenhum no interior”, afirma Arcoverde, reforçando que, em muitos estados brasileiros, a redução das internações não significa melhora, mas insuficiência de serviços.

Progressão com a idade

O relatório da Fiocruz também chama atenção para a escalada progressiva das internações conforme o avanço da idade dentro do grupo jovem, tendência observada no RN e no restante do país. No Rio Grande do Norte, a taxa entre adolescentes de 15 a 19 anos é de 283,7 internações por 100 mil habitantes, sobe para 443,6 entre jovens de 20 a 24 anos e chega a 587,9 na faixa de 25 a 29 anos. Aos 15 anos, a taxa é ainda menor, de 36,8 por 100 mil, indicando que o risco de internação por transtornos mentais e comportamentais aumenta significativamente à medida que os jovens se aproximam da vida adulta.

Segundo Ernane Pinheiro, essa evolução acompanha a própria história natural de transtornos mentais graves. “No decorrer do tempo, obviamente, algumas doenças vão se intensificando e necessitando de internamento. Por exemplo, o maior número de primeiros surtos esquizofrênicos ocorre entre os 18 e os 20 anos”, explica. Ele acrescenta que, por isso, “a quantidade de internamentos necessária para quem tem 15 é menor do que para quem tem 22, se nós considerarmos a esquizofrenia, que é uma doença que gera muito internamento psiquiátrico”.

O psiquiatra Emerson Arcoverde reforça essa análise clínica. “Os transtornos mentais graves, como esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e transtorno por uso de substâncias, acometem pessoas jovens, no final da adolescência e início da idade adulta”, afirma. Para ele, além do surgimento dos quadros, o aumento das internações também reflete falhas no acompanhamento precoce. “O aumento das internações deve ser explicado pela falha de acolhimento dessas pessoas nos serviços ambulatoriais, dada a insuficiência de serviços substitutivos como os CAPS.”

Álcool e drogas são prevalentes

O uso de álcool e outras drogas aparece no relatório da Fiocruz como um dos principais fatores associados às internações psiquiátricas entre jovens, sobretudo entre homens. No RN, esse padrão se repete e ajuda a explicar tanto a progressão das internações com a idade quanto a presença de atendimentos fora do sistema hospitalar tradicional.

Para Ernane Pinheiro, a dependência química tem uma trajetória própria. “A pessoa começa a usar drogas com 13 ou 14 anos; ela vai precisar de um internamento com 25. Com pouca idade, o problema não é alarmante a ponto de precisar de internamento, mas com mais idade é necessário”, afirma.

Na avaliação de Éder Dantas, técnico da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Natal, olhar apenas para as internações é insuficiente para dimensionar o problema. “Quando o indivíduo chega a ser internado, é que o problema chegou já a um limite quase intransponível. Mas a dimensão do problema de saúde mental nesse extrato da população é muito além disso”, afirma. Segundo ele, em Natal, a maioria das pessoas com transtornos mentais não chega a ser internada, sendo acompanhada na atenção básica e nos serviços especializados.

Na capital, o atendimento começa, em geral, pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS). “Dentro da atenção primária, esses serviços atendem os transtornos mentais comuns e as situações de baixa complexidade”, explica Éder. Para os casos mais graves, há os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). “Aqui em Natal nós temos cinco CAPS, inclusive dois especializados em álcool e outras drogas, além de um ambulatório especializado”, detalha. Ele acrescenta que o município também conta com leitos em hospitais da rede própria e conveniada, além da Rede de Urgência e Emergência.

A lógica, segundo o técnico, é evitar que o jovem chegue à internação. “Quanto mais pessoas sendo atendidas na rede básica e especializada, menor vai ser o número de pessoas que chegam a internamento. Quando eu interno, quer dizer que a pessoa chegou a uma crise”, afirma. O perfil dos atendidos também segue o padrão nacional. “Nos homens, há uma prevalência maior de atendimentos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias. Entre as mulheres, predominam os transtornos de humor, como a depressão.”

Dantas ressalta que o uso problemático se caracteriza quando há prejuízo social. “O uso prejudicial é identificado quando a vida social da pessoa é afetada: perda de emprego, conflitos familiares, violência ou transgressões às leis.”

Ao reunir dados e análises, o relatório da Fiocruz aponta que a saúde mental juvenil no Brasil e no Rio Grande do Norte em particular exige políticas públicas que vão além da leitura fria das estatísticas. Para Emerson Arcoverde, o enfrentamento do problema passa necessariamente pela prevenção. “Precisamos reforçar o papel da prevenção como ponto crucial, com vigilância, acompanhamento dos jovens, retardar o início do uso de substâncias, cuidado com excesso de telas, favorecimento da permanência das crianças na escola”, destaca.

 

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