Kayllani Lima Silva
Repórter
O Rio Grande do Norte é o terceiro estado da região
Nordeste com o maior percentual da população adulta endividada. Em dezembro de
2025, 49,65% desse público possuía alguma dívida, o que representa cerca de
1,24 milhão de pessoas. No comparativo com o mesmo período do ano anterior,
quando o nível de endividamento foi de 45,65%, houve um aumento de quatro
pontos percentuais. Os dados são do Mapa da Inadimplência no Brasil, realizado
pela Serasa.
Na região Nordeste, o percentual de endividamento do
Rio Grande do Norte perdeu apenas para o registrado no Ceará (51,55%) e em
Pernambuco (50,25%). Na sequência, aparecem Alagoas (47,32%), Maranhão
(46,06%), Paraíba (44,33%), Bahia (44,07%), Sergipe (44,04%) e Piauí (40,08%).
No Brasil, o último balanço do Serasa aponta que
81,2 milhões de pessoas estavam endividadas no país em dezembro de 2025. No
recorte das dívidas, a inadimplência junto a bancos e cartão de crédito lidera
com 26,1%, seguida das contraídas com necessidades básicas (ex: conta de água e
luz) e as financeiras (19,6%).
O economista Ricardo Valério, superintendente do
Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon/RN), aponta que o
crescimento no endividamento no Estado seguiu uma tendência nacional, sendo
estimulado pela alta taxa Selic, em 15%, e a facilidade no acesso ao crédito
pelos potiguares.
Ele aponta, por outro lado, que alguns fatores
pontuais também podem ter favorecido o crescimento em dezembro. É o caso das
despesas com Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU),
Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), matrícula e
material escolar das crianças.
“No Rio Grande do Norte, temos ainda as temporadas
para quem pode veranear ou ainda curtir nosso verão pelas praias, o que gera
gastos extras”, completa o economista.
O especialista em educação financeira da Serasa,
Rodrigo Costa, também atribui o cenário à alta taxa de juros e afirma que a
elevação está dentro do observado em toda série histórica da entidade. De
acordo com ele, desde dezembro de 2024, a Selic apresentou aumentos que foram
acompanhados pelo crescimento na inadimplência.
“Isso chega no bolso do consumidor, uma vez que a
cesta básica, por exemplo, fica mais cara e a conta de energia flutua por conta
dos impostos. Então, mesmo com o desemprego tendo apresentado uma melhora em
2025, ou seja, mais pessoas estão com acesso à renda, o custo de vida ainda é
um desafio”, completa.
De acordo com Rodrigo Costa, diante da dificuldade
financeira, muitas pessoas acabam cometendo o erro de enxergar no cartão de
crédito uma “extensão da própria renda”. O problema é que quando a fatura não é
paga integralmente, por exemplo, os juros rotativos vão se acumulando e
elevando o valor da dívida. Outro risco está na realização de novos empréstimos
para arcar com as contas.
No recorte por faixa etária, o Mapa da Inadimplência
no Brasil aponta que a maior parte da população endividada se concentra na
faixa etária entre 41 e 60 anos (35,6%), seguida pelos grupos de 26 a 40 anos
(33,4%). Segundo Ricardo Valério, o perfil no Rio Grande do Norte acompanha a
média nacional. Ele acrescenta que, no caso do público mais jovem, esse
crescimento pode estar associado aos novos formatos de trabalho.
O superintendente do Corecon-RN aponta que a
prestação de serviços por meio de contratos via Pessoa Jurídica tem sido cada
vez mais comum nessa faixa etária, o que gera uma instabilidade na receita
orçamentária. Isso porque, enquanto em alguns meses os contratos podem ser mais
recorrentes, em outros a remuneração pode ficar abaixo do esperado.
Perspectivas e cuidados
Embora a taxa Selic esteja fixada em 15%, indicando
um sinal de estabilidade, Rodrigo Costa aponta que é essencial que os cidadãos
continuem tendo cautela para não exceder as despesas mensais ou utilizar o
cartão de crédito para produtos não essenciais.
O ideal, de acordo com o especialista, é priorizar o
pagamento à vista e evitar o parcelamento de longo prazo. “Mas, se for
parcelar, é importante fazer os cálculos para verificar se a parcela cabe
dentro do orçamento do mês e não comprometer as contas básicas do dia a dia”,
ressalta Rodrigo.
Já Ricardo Valério esclarece que, na hora de encarar
as dívidas, o ideal é priorizar o pagamento daquelas com juros maiores, como as
com cartão de crédito e cheque especial. Isso porque, apesar da expectativa de
redução gradual da taxa de juros ao longo do ano, essa baixa deve começar
somente após o carnaval. Ele destaca ainda a necessidade de realização do
planejamento financeiro ou de ajustes para quem já se programou para este ano.

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