Algumas autoridades importantes de Brasília querem
fazer os brasileiros se convencerem de que nem sempre um bicho que tem pé de
porco, orelha de porco e rabo de porco é mesmo um porco.
Por exemplo: ao contrário das aparências, dizem
esses próceres da República, não há nada de errado quando o escritório de
advocacia de um ministro da Justiça presta serviços para um banco investigado
pela Polícia Federal, que está sob o comando desse mesmo ministro; também não
há nenhum problema quando um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) decide
comandar o inquérito sobre esse tal banco mesmo tendo parentes possivelmente
envolvidos no caso; por fim, não há nada de mais quando o escritório de
advocacia da mulher de outro ministro do Supremo é contratado por esse mesmo
banco, com remuneração milionária, para representá-lo junto ao Banco Central e
ao Congresso Nacional – atividade típica de lobistas, não de advogados.
Ora, francamente. O possível envolvimento de
autoridades de altíssimo escalão com o Banco Master, protagonista de um dos
maiores escândalos da história recente, já seria suficientemente grave, mas
mais grave ainda é essa tentativa vergonhosa de negar o que está escancarado à
vista de todos: que essas autoridades no mínimo se comportaram de maneira
imprudente, ignorando limites éticos óbvios. Seria sinal de respeito pelos
cidadãos se os indigitados ao menos reconhecessem o deslize. Mas não: preferem
fazer o País de bobo.
É espantosa a naturalidade com que Ricardo
Lewandowski, por exemplo, tratou da vigência do contrato de “consultoria
jurídica” firmado entre seu escritório de advocacia e o Banco Master no período
em que ele já era ministro da Justiça e Segurança Pública. Ao justificar que se
afastou da advocacia para ingressar no governo federal, deixando a banca aos
cuidados da mulher e do filho, Lewandowski insultou a inteligência alheia. Não
deveria ser difícil identificar um problema ético quando o núcleo familiar do
ministro responsável por órgãos centrais do sistema de persecução penal e de
controle financeiro do País recebe dinheiro do principal investigado no caso
Master, Daniel Vorcaro.
Já o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias
Toffoli, por exemplo, ainda não se dignou a esclarecer os negócios de seus
irmãos com um cunhado de Vorcaro, o que deveria ser suficiente para determinar
sua suspeição no processo. Seu colega Alexandre de Moraes, por sua vez, até
hoje não disse uma palavra convincente sobre o contrato firmado entre o Banco
Master e o escritório de advocacia de sua mulher, que previa honorários de
espantosos R$ 129,6 milhões.
Em vez de constranger seus pares a recobrar o prumo
em nome da honorabilidade da instituição que preside, o presidente do STF,
ministro Edson Fachin, jamais tratou do contrato da mulher de Moraes e
classificou como “regular” a atuação de Toffoli à frente do caso Master – que
nem deveria estar no Supremo. Já o decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes,
defendeu Toffoli amparando-se no entendimento da Procuradoria-Geral da
República, de resto omisso, segundo o qual nada justificaria o impedimento de
Toffoli. Para o procurador-geral, Paulo Gonet, o aparente envolvimento direto
de irmãos do ministro no caso não tem relevância alguma. No entender de Gilmar
Mendes, essa conclusão de Gonet “reafirma a maturidade do sistema constitucional
brasileiro”.
O denominador comum desses episódios é a
naturalização de gritantes conflitos de interesses e a recusa sistemática
dessas autoridades a prestar contas à sociedade, como se pairassem como
entidades acima dos controles republicanos. O Supremo precisa pôr a mão na
consciência e voltar a ser respeitado como instituição vital para o regime
democrático.
Quando algumas das mais altas autoridades da
República oferecem o silêncio ou explicações que ferem o bom senso sobre suas
relações com um banqueiro que hoje só não está preso por causa da rede de
proteção que teceu em Brasília, é sinal de que a bússola moral está avariada.
Opinião do Estadão

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