Fez bem o Banco Central (BC) ao abrir uma
investigação interna para escrutinar o caso Banco Master desde sua origem até a
derradeira liquidação extrajudicial, decretada em novembro do ano passado. Tão
importante quanto ressarcir os investidores prejudicados pela atuação temerária
da instituição financeira é aprimorar a fiscalização para, se não garantir, ao
menos reduzir a chance de que um escândalo dessa monta se repita no futuro.
O processo foi aberto pela corregedoria do BC a
pedido de seu presidente, Gabriel Galípolo, no fim do ano passado, corre sob
sigilo e não tem prazo para ser concluído. O que se sabe é que dois servidores
públicos que atuavam na área de fiscalização e supervisão bancária no Banco
Central deixaram recentemente os cargos de confiança que ocupavam, embora não
haja acusação formal contra eles.
A investigação interna, em tese, pode abrir flancos
a serem explorados pela defesa do empresário Daniel Vorcaro, que se fia na tese
de que o Banco Central se precipitou ao anunciar o fechamento do Master –
estratégia que visa não a reverter a decisão, mas a evitar uma potencial
condenação criminal e preservar o patrimônio de seu dono. Galípolo, no entanto,
parece estar confiante de que a liquidação do banco era mesmo inevitável.
Na semana em que a decisão foi anunciada pelo Banco
Central, o Master tinha R$ 127 milhões em débitos a vencer e apenas R$ 4
milhões em caixa, uma fração da liquidez que uma instituição daquele porte
deveria manter, além de R$ 2 bilhões em depósitos compulsórios que não haviam
sido recolhidos. Em outras palavras, estava quebrado.
Essas e outras informações são parte do depoimento
que o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, prestou à Polícia
Federal (PF) no fim do ano passado. O sigilo da oitiva foi levantado pelo
ministro Dias Toffoli, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal
(STF), a pedido do próprio Banco Central.
A atenção que a imprensa tem dado a esse caso tem
gerado constrangimentos e produzido resultados. Um relutante e silencioso
Toffoli admitiu, pela primeira vez, enviar os processos para instâncias
inferiores da Justiça quando as investigações se encerrarem. Isolado no STF, o
presidente da Corte, Edson Fachin, angaria apoio na sociedade pela aprovação de
um código de conduta para os ministros.
O voluntarioso relator do caso no Tribunal de Contas
da União (TCU), Jhonatan de Jesus, desistiu de uma inspeção no BC e a
substituiu por uma diligência a ser realizada por servidores, e não seu
gabinete. O resignado presidente do órgão, Vital do Rêgo, reconheceu que não é
prerrogativa da Corte de Contas reverter a liquidação do Master.
Mesmo com parte do Congresso envolvido até o pescoço
em iniciativas para ajudar o Master e coagir o Banco Central, o presidente da
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, senador Carlos Viana
(Podemos-MG), anunciou que Vorcaro foi convocado para depor no dia 5 de
fevereiro para prestar esclarecimentos sobre as operações de crédito consignado
que oferecia a aposentados e pensionistas.
Por certo ainda há muito a ser elucidado,
especialmente sobre a rede de contatos que Vorcaro construiu em Brasília, mas
essa teia provavelmente é fruto do crescimento vertiginoso que o Master registrou
entre 2019 e 2024, período durante o qual seus ativos aumentaram de R$ 3,7
bilhões para R$ 82 bilhões. Entre 2021 e 2024, segundo a Moody’s, o banco saiu
da 77.ª posição para a 25.ª no ranking das maiores instituições financeiras do
País.
Nesse sentido, é um alento que o BC tenha tido a
coragem para olhar para si mesmo enquanto supervisor do sistema financeiro em
vez de simplesmente terceirizar responsabilidades e agir como um avestruz.
Afinal, o BC estava ciente dos problemas da
instituição financeira mais de um ano antes de liquidá-lo. Fechar um banco é
uma medida extrema, mas a inércia perante uma atuação temerária também tem
custo elevado. Basta ver o prejuízo que o Master já causou ao Fundo Garantidor
de Créditos (FGC), sem falar das perdas de empresas, fundos de previdência
municipais e estaduais e do próprio BRB, ainda a serem dimensionados.
Opinião do Estadão

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