sábado, 24 de janeiro de 2026

Nota pró-Toffoli apequena Fachin e mostra que ele está perdendo guerra pela moralização do STF

 


Depois da primeira manifestação pública do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, a respeito da crise em que o Tribunal se afundou por conta do caso Master, muita gente perdeu tempo tentando encontrar, nas entrelinhas, algum sinal da moralização que Fachin tanto defendeu ao assumir o cargo.

Para uns, o presidente do STF teria acenado com uma trégua ao reforçar a confiança na Polícia Federal (PF) e no Banco Central (BC), instituições contra as quais o ministro Dias Toffoli vem dirigindo suas baterias no comando do inquérito sobre as fraudes do Banco Master. Para outros, ao mencionar que as decisões do Supremo são tomadas por colegialidade, Fachin teria sinalizado que o Tribunal deve corrigir as excrescências que Toffoli cometeu na relatoria das investigações.

Tudo isso, porém, vira pó diante dos trechos em que Fachin defende Toffoli e ataca a imprensa e todos os setores da sociedade que estão escandalizados com a promiscuidade de Toffoli e Alexandre de Moraes com o banco de Daniel Vorcaro — que nunca é demais lembrar, está sendo investigado pela maior fraude financeira já registrada na história do Brasil.

Para Fachin, que assumiu o cargo levantando a bandeira da autocontenção do código de conduta, as reportagens sobre o voo de Toffoli num jato com o advogado de um dos investigados no caso, sobre o contrato de R$ 130 milhões da mulher de Alexandre de Moraes com o banco ou sobre a sociedade do grupo de Vorcaro com os Toffoli num resort se equiparam a “ameaças e intimidações”.

Fachin escreve: “quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade a fim de provocar o caos e a diluição institucional está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de Direito”.

Cabe a pergunta: quem está tentando desmoralizar o STF? A imprensa, ao revelar fatos comprovados que escandalizam a sociedade, ou os ministros que se julgam acima do bem e do mal e acham que não devem satisfações à sociedade? Ou os ministros, que rejeitam toda e qualquer sugestão de prestar contas à sociedade?

O presidente do Supremo vai além. “A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a História é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder, e o STF não permitirá que isso aconteça.”.

Não dá para entender de qual projeto de poder Fachin está falando. A menos que ele tenha comprado a versão das milícias digitais pagas pelo Master para dizer que “houve algo muito estranho” na liquidação do banco, ou que as reportagens sobre o contrato de Viviane Barci de Moraes são uma conspiração da direita, o único projeto escuso de poder que emergiu dessa crise foi o do próprio Daniel Vorcaro — que, pelo que já emergiu das investigações, usava o dinheiro captado à custa de fraudes para comprar influência em todos os feudos de Brasília.

Fachin ainda conclui: “Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço.”

Se o presidente está falando da imprensa, deveria no mínimo ser mais comedido. Ao longo dos anos em que o STF esteve sob ataque real, fosse durante a crise da Covid ou na trama golpista, a imprensa trabalhou incessantemente para trazer à luz todas as informações que levaram à consolidação do Supremo como um pilar de defesa da democracia. Não fosse pelo trabalho persistente e dedicado do jornalismo, talvez agora Fachin não fosse nem sequer ministro do tribunal.

As revelações do jornalismo sobre a promiscuidade de ministros com empresários e fraudadores deveriam ser entendidas como uma forma de defender o Tribunal de seus próprios membros. Como o próprio Fachin diz, a instituição vale mais do que os homens.

Ao recorrer a afirmações raivosas e genéricas para se referir ao trabalho da imprensa, da Polícia Federal, do Ministério Público Federal (MPF) e do Banco Central para defender Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, Fachin demonstra que não tem força e nem vontade para fazer com que o Supremo rume na direção que ele mesmo propôs ao assumir o cargo.

Nos últimos dias, houve até quem dissesse que a defesa empedernida de Dias Toffoli faria parte de uma articulação para que o ministro deixasse a relatoria do processo —- algo que o próprio magistrado vem negando em off, como se tornou hábito nessa crise.

Se Toffoli vai deixar a função de relator ou não, é outra discussão.

O que está claro, por ora, é que toda a conversa sobre código de conduta, autocontenção e moralidade não resistiu ao teste mais básico. Estamos diante de uma situação em que não é tão difícil discernir o certo do errado, e mesmo assim Fachin se curva à ala imperial do STF e finge que nada de grave está acontecendo. O que desmoraliza de verdade o Tribunal é esse estado de coisas. Não o trabalho da imprensa.

Malu Gaspar - O Globo

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

VÍDEO: Multidão se junta a Nikolas Ferreira em caminhada até Brasília

  Milhares de pessoas têm se somado, ao longo dos últimos dias, à caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que seg...