A nota telegráfica do Itamaraty sobre o horror no
Irã é mais uma vergonha proporcionada pelas relações exteriores do governo
Lula.
É como se houvesse acontecido um acidente fatal por
lá, uma avalanche de neve, talvez, sem que ninguém pudesse ser responsabilizado.
A nota dedica meia linha a dizer que o Brasil “lamenta as mortes e transmite
condolências às famílias afetadas”.
“Famílias afetadas” é de uma burocracia raramente
alcançável no seu cinismo mesmo por regimes autoritários.
Isso é tudo o que o governo Lula tem a dizer sobre
milhares de manifestantes terem sido assassinados pelos esbirros de uma
teocracia infernal, sanguinária, e naturalmente não há nenhuma palavra sobre a
continuação do massacre.
A carnificina é aterradora tanto na contabilidade
mínima, como pela máxima. De acordo com a ONG Hrana, 2.403 mortes haviam sido
confirmadas até ontem; já segundo a oposição iraniana, o número de mortos é de
12 mil, e contando.
Essa nota deplorável do Itamaraty dedica mais espaço
a “sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre
o futuro de seu país”, uma pretensiosa advertência a Donald Trump, com o
acréscimo de que “o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo
pacífico, substantivo e construtivo”.
Francamente, chega a ser nojento. Os “atores”, no
caso, são civis desarmados à mercê do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana,
a SS do regime dos aiatolás, historicamente empenhada em diálogos construtivos.
A boa vontade de Lula com a teocracia iraniana
remonta aos tempos de camaradagem com o então presidente Mahmoud Ahmadinejad,
na primeira década dos anos 2000, um sujeito muito boa gente.
Sob Ahmadinejad, os poucos direitos humanos ainda
parcialmente respeitados no Irã deixaram de sê-lo completamente; sob
Ahmadinejad, o Irã patrocinou uma conferência internacional para “revisar a
visão global do Holocausto”.
Os pretextos se sobrepõem para justificar a
proximidade do chefão petista e do seu partido com Cuba, Nicarágua, Venezuela,
Rússia, China e Irã. No início, era a resistência anti-imperialista; depois,
emprestou-se a bandeira do pragmatismo; hoje se tem o multilateralismo em prol
desse patético Sul Global.
Mas não nos enganemos: a alma do PT é autoritária, e
o que existe é uma afinidade eletiva incancelável com regimes para os quais a
democracia foi, no máximo, valor estratégico, nunca universal. A nota do
Itamaraty é vergonhosa porque bastante representativa.

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