Daniel Vorcaro, do Banco Master, provocou uma
guerra, como ficou demonstrado nessa quarta-feira: de um lado, temos a dupla
dinâmica do Supremo Tribunal Federal e um ministro do Tribunal de Contas da
União ou talvez mais de um; de outro, a direção da Polícia Federal e a direção
do Banco Central.
Na avacalhação jurídica de ontem, Dias Toffoli
atacou abertamente a PF, acusando-a de “inércia” e de “falta de empenho” para
realizar a operação que finalmente seria conduzida contra familiares do
banqueiro do Master e demais figuras impolutas conectadas aos seus esquemas.
Surpresa com o ataque do ministro, visto que não deu
razão nenhuma para ser acusada de relapsa na montagem de um operação que não se
faz da noite para o dia, a PF foi a campo e recolheu o vasto material que
poderá gerar provas contra Vorcaro e o seu entorno — e mais surpresa ficou
quando Dias Toffoli determinou que tudo deveria ficar trancafiado no STF, sem
que os policiais pudessem ter acesso ao que apreenderam.
Diante do clamor quase geral, o ministro acabou o
dia entregando o material à PGR para que fosse periciado. Mas nada de PF no
pedaço, como seria o normal, se este ainda fosse um país cujas autoridades se
preocupassem com padrões de normalidade. A corporação encarregada de investigar
crimes não investigará nada, cabendo a investigação à instância acusatória,
mais uma inovação saída da cachola de Dias Toffoli.
É possível concluir, assim, que o ministro usou a PF
apenas para recolher possíveis provas que estavam espalhadas por aí e
guardá-las bem guardadas. Pelo jeito, Dias Toffoli estava com pressa em fazer
isso. Se concordou em entregar o material à PGR, foi porque ela seria mais
confiável, digamos assim.
Na outra frente do STF, o ministro Alexandre de
Moraes abriu de ofício um inquérito sigiloso, como é do seu hábito, para
investigar o suposto vazamento de dados financeiros seus e da sua família, bem
como de informações relacionadas a Dias Toffoli, da parte da Receita Federal e
do Coaf.
Moraes, que não se preocupa em explicar como é que o
escritório de advocacia da sua mulher conseguiu firmar um contrato
multimilionário com o Banco Master, o que resultou em aumento exponencial do
patrimônio pessoal dela, quer saber quem foi que soprou tudo para a imprensa.
Ao que parece, o ministro acha que foram os mesmos
beneméritos que repassaram a história da venda do resort Tayayá, no interior do
Paraná, que tinha como acionistas os dois irmãos e um primo de Dias Toffoli e
um fundo que fazia parte da rede montada por Vorcaro.
O resort passou a ser controlado por um advogado que
atua para a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Coincidentemente,
Dias Toffoli foi quem suspendeu, em 2023, o pagamento de multa de R$ 10,3
bilhões prevista no acordo de leniência firmado pela J&F com o Ministério
Público Federal.
Investigar o Coaf, como fará Moraes no seu novo
inquérito sigiloso, é investigar o BC, ao qual o Coaf é vinculado
administrativamente, e também a PF, que tem acesso aos dados do conselho
encarregado de levantar a bandeira vermelha quando detecta transações suspeitas
de lavagem de dinheiro.
Sob fogo cerrado, o diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, recebeu a visita do presidente do BC, o companheiro de trincheira
Gabriel Galípolo, na sede da corporação em Brasília.
Na nota divulgada pela PF, “as autoridades
reafirmaram a importância da cooperação e da integração entre as instituições,
fortalecendo o diálogo e a atuação conjunta em temas estratégicos de interesse
do Estado brasileiro”.
Na realidade, Galípolo foi conversar sobre o
imbróglio do Banco Master e reafirmar a aliança do BC com a PF.
Por fim, chegamos ao TCU. Conversinha vai,
conversinha vem, o Tribunal de Contas da União fará, sim, uso da sua falta de
atribuições para fazer uma auditoria no Banco Central, com o ministro Jhonatan
de Jesus empenhado em provar que o Master foi vítima do BC no processo de
liquidação.
O BC, porém, não tem medo de briga. Dois dias depois
de o (ainda) ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dar o seu respaldo à
autoridade monetária, dizendo que o caso Master pode ser a maior fraude
bancária da história do país, o Banco Central decretou a liquidação da Reag
Trust, a gestora que ajudava a inflar os ativos financeiros do banco de Vorcaro
— a mesma Reag que administrava o fundo que se tornou sócio dos parentes de
Dias Toffoli no resort Tayayá.
Mario Sabino - Metrópoles

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