O auditor independente contratado para avaliar o
fundo Arleen — que comprou participação no resort Tayayá, ligado à família
Toffoli — nunca conseguiu emitir sua opinião sobre o veículo. Por quatro anos a
fio, a auditoria Next queixou-se da falta de acesso a informações cruciais para
o trabalho e, por isso, absteve-se de assinar um parecer independente em todas
as ocasiões.
A coluna leu os quatro relatórios anuais assinados
pela Next Auditores Independentes entre 2022 e 2025. Os trabalhos cobrem toda a
existência do fundo, que foi aberto em meados de 2021. Em todas as ocasiões, a
Next apresenta variações da mesma queixa: “até a data de emissão deste
relatório, não obtivemos acesso ao laudo de avaliação a valor justo da
investida” — em referência ao Tayayá e a outras participações detidas pela
Arleen.
Todos os documentos são assinados pelo contador
Ricardo Artur Spezia, sócio da Next.
No relatório mais recente, de outubro de 2025, a
auditoria cita que o fundo mantinha investimentos nas companhias DEGP e Tayayá
e também havia comprado a companhia “Egipe I Holding”. As três representavam
92,36% do patrimônio líquido do fundo.
“Até a emissão deste relatório, não obtivemos
documentação societária atualizada, confirmações externas de saldo, laudos de
avaliação do valor justo, demonstrações contábeis auditadas, nem evidências
suficientes para validação da classificação adotada para o fundo como ‘Entidade
de Investimento’”, escreveu a Next, acrescentando que “não nos foi possível,
nem por meios alternativos, concluir de forma satisfatória sobre a adequação
dos saldos iniciais”.
‘Grave’
A auditoria observou no relatório que, no curso da
avaliação, tomou conhecimento da operação Carbono Oculto. Um dos alvos era a
Reag, que administrava o Arleen. Como O GLOBO já contou, em 2021 uma empresa
dos irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli vendeu
parte de suas cotas no Tayayá ao Arleen. O fundo tinha como controlador o fundo
Leal, cujo único cotista era Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, dono do
Master.
Apesar de ter inviabilizado a realização de
auditoria independente, o fundo Arleen não sofreu qualquer consequência
aparente dos órgãos reguladores.
— Isso é algo sério. Abstenção de opinião só não é
mais grave que opinião adversa. É um caso em que a área da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) que acompanha fundos deveria ter aberto um processo
imediatamente. Deveria fazer parte da chamada supervisão baseada em risco —
analisa Renato Chaves, especialista em governança corporativa.
Capital - O Globo

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