Felipe Salustino
Repórter
As redes de ensino do Estado do Rio Grande do Norte
e de 89 municípios potiguares ficarão sem recursos complementares do Fundo de
Manutenção da Educação Básica (Fundeb) em 2026, conforme dados do Fundo
Nacional de Educação (FNDE), compilados pela TN. Do total, 19 ficarão sem as
receitas do Valor Aluno Ano Total (VAAT), 50 não receberão o Valor Aluno Ano
Resultado (VAAR), enquanto 20 não poderão contar com os recursos dos dois
indicadores. Ambas as complementações são pagas pela União. A ausência de
complementações ocorre por falhas no cumprimento de critérios técnicos ou por o
ente já ter atingido a capacidade mínima exigida de investimento por aluno.
Fontes ouvidas pela reportagem avaliam que a ausência das receitas reduz a
capacidade de investimentos, com impactos diretos na Educação.
A União dos Dirigentes Municipais de Educação do RN
(Undime-RN) afirmou que acompanha permanentemente a situação, prestando
orientação técnica aos dirigentes municipais, dialogando com os órgãos federais
e articulando ações formativas para apoiar as redes na recuperação dessas
complementações nos próximos ciclos. O Fundeb é composto por recursos de
estados, municípios e da União, além das complementações, as quais têm por
finalidade o equilíbrio de investimentos entre os entes federados.
O indicador VAAT está ligado à capacidade de investimentos
de estados e municípios. Ele é pago pela União quando as receitas do fundo,
excluindo-se as complementações, não atingem o valor anual mínimo estabelecido
por aluno em uma determinada rede. Para 2026, esse valor mínimo foi
estabelecido em R$ 10.194,38. Este, no entanto, não é o único pré-requisito
para habilitação ao VAAT.
Como regra geral, os entes precisam disponibilizar à
Secretaria do Tesouro Nacional e ao FNDE as informações de todos os
investimentos feitos na Educação no exercício do ano anterior dentro do prazo
determinado – até o último dia útil de abril do ano corrente, por intermédio de
canais como o Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público
Brasileiro e o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação.
Gustavo Fernandes, mestre em Educação e especialista em Gestão Escolar, explica
que a habilitação ao VAAT depende da gestão administrativa de cada ente.
“De um modo geral, o Fundeb precisa de informações
adequadas para a distribuição das receitas. O VAAT tem uma relação muito forte
com o número de matrículas, por exemplo, mas as informações, muitas vezes, não
são repassadas da forma adequada. Isso tem impacto também no valor que o ente
recebe, porque, ao aluno da zona rural é destinado um valor diferente do aluno
que reside na área urbana. Então, tudo isso precisa ser informado
corretamente”, explica.
Nem todos os municípios que ficarão sem VAAT em
2026, no entanto, têm como causa a falta de informações adequadas para
habilitação, uma vez que a complementação é destinada apenas aos entes que não
atingem a capacidade mínima de investimento por aluno. De acordo com a União
dos Dirigentes Municipais de Educação do RN (Undime-RN), a expectativa é de que
o FNDE divulgue em março os motivos pelos quais os entes não receberão as
receitas referentes ao indicador em 2026.
“Se o ente não irá receber o VAAT por conta da
capacidade de investimento, isso significa que não há perdas. No entanto,
historicamente, boa parte dos municípios deixa de receber porque falha na
prestação das informações”, afirma Domingos Oliveira, assessor técnico da
Undime.
O que dizem as secretarias
Em nota, a Secretaria de Educação do RN (SEEC)
explicou que “já aplica o mínimo do VAAT por aluno, então não precisa de
complemento”. Já o secretário de Educação da capital, Aldo Fernandes, disse que
“o VAAT está diretamente relacionado aos municípios que possuem baixa
arrecadação própria ou que dependem exclusivamente do Fundeb, o que não é o
caso de Natal”. O VAAR, por sua vez, premia entes que atingem metas de melhoria
no aprendizado e de equidade educacional. Para ter direito às receitas, é
preciso o cumprimento de cinco condicionalidades. As informações sobre duas
delas precisam ser prestadas pelos municípios: adoção de normas para o
provimento de cargo de gestor escolar e de referenciais curriculares para o
sistema de ensino. Aos Estados cabe comprovar informações sobre o regime de
colaboração entre Estado e os Municípios com o chamado ICMS Educacional.
As outras condicionalidades são calculadas pelo
Inep, com base em indicadores da participação dos alunos nas avaliações
nacionais do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e a redução ou, no
mínimo, a não ampliação das desigualdades de aprendizagem entre estudantes de
diferentes grupos raciais e níveis socioeconômicos. Apesar da divisão na
prestação das informações, é preciso que cada ente consiga cumprir todas as
condicionalidades.
De acordo com o FNDE, além da rede estadual, os três
principais municípios do RN (Natal, Parnamirim e Mossoró) não receberão VAAR em
2026. Em nota, a SEEC informou não ter conseguido alcançar a meta de
participação mínima (de 80%) no Saeb de 2023, utilizada como referência para a
distribuição de recursos em 2026. A referida avaliação é realizada a cada dois
anos e o resultado de 2025 só deve ser divulgado a partir de julho.
“Para superar esse obstáculo, a Educação do RN, em
parceria com a Fundação Getúlio Vargas, implementou o projeto Gestão para
Aprendizagem, que, entre outras ações, trabalhou para melhorar o fluxo escolar e
a aprendizagem dos estudantes, o que esperamos que reflita nos índices das
avaliações de grande escala, como o Saeb 2025”, afirmou a SEEC. Em Natal,
segundo o secretário de Educação Aldo Fernandes, a situação é semelhante.
“Em 2023, não atingimos os 80% mínimos de frequência
na aplicação da prova do Saeb nem alcançamos a redução das desigualdades
educacionais exigidas. Em 2025, tivemos novamente a aplicação das provas e
executamos um plano de ação baseado em um planejamento estratégico,
acompanhando de perto as escolas, com o objetivo de cumprir a condicionalidade
que não havia sido atendida”, falou o secretário. Ele projeta que a
participação no último Saeb ficou em cerca de 83%.
A Secretaria de Educação de Parnamirim disse que os
dados utilizados para as receitas deste ano [2023] não representam, portanto,
as ações da gestão atual. A pasta informou que “em 2025, o município garantiu
100% de participação das escolas dos anos iniciais e 96% dos anos finais no
Saeb, indicador que havia sido comprometido em ciclos anteriores” e que não há
como medir o impacto de ações mais recentes sobre aprendizagem, uma vez que
dados atualizados serão divulgados somente a partir do final do primeiro
semestre.
Recuperação dos valores de complemento
Alguns municípios deverão recuperar ou ampliar
receitas de complementação do Fundeb em 2026. É o caso de Nísia Floresta. No
ano passado, o município recebeu cerca de R$ 9 milhões em complementação do
VAAT. Para 2026, a previsão é de R$ 30,5 milhões. “Com o novo valor projetado,
o município apresenta um crescimento superior a 230%, consolidando-se como um
dos municípios com maior avanço proporcional nessa modalidade de complementação
em todo o RN”, frisa Gustavo Fernandes, que, além de especialista em Gestão
Escolar, é secretário de Nísia Floresta.
“Esse avanço é resultado direto do trabalho técnico
da Secretaria de Educação, do planejamento estratégico e da organização fiscal
e educacional implementados pela gestão atual e do aumento de alunos matriculados
em tempo integral”, ressaltou o gestor, ao indicar que pretende retomar a
complementação do VAAR em 2027. Para isso, ele aguarda os resultados do Saeb de
2025. A expectativa é cumprir as condicionalidades sobre participação mínima na
avaliação e de equidade de aprendizado entre grupos raciais.
Ainda segundo dados do FNDE, em 2026, Bento
Fernandes, Fernando Pedroza, Francisco Dantas, Ipanguaçu, Jandaíra, Paraná,
Parazinho, Pedra Grande, São Rafael, Senador Georgino Avelino e Tibau do Sul,
que não receberam VAAT em 2025, receberão essa complementação em 2026. Já
Cruzeta, Lagoa de Pedras, Messias Targino, Poço Branco, São Pedro, Serra do Mel
e Várzea são os municípios que deverão recuperar o VAAR este ano.

Nenhum comentário:
Postar um comentário