O financiamento imobiliário no Rio Grande do Norte
acompanhou, em 2025, o movimento de retração observado no restante do país.
Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança
(Abecip) mostram que entre janeiro e novembro do ano passado foram financiadas
2.572 unidades habitacionais no RN com recursos do Sistema Brasileiro de
Poupança e Empréstimo (SBPE), o que representa um recuo de 17,7% em relação ao
mesmo período de 2024. No volume financeiro, os contratos somaram R$ 723,7 milhões,
queda de 20,9% na comparação anual, refletindo tanto a redução do número de
operações quanto o impacto direto dos juros mais elevados sobre o valor
financiado.
A situação é atribuída, principalmente, ao
encarecimento do crédito e à redução dos recursos da poupança. O desempenho do
Rio Grande do Norte em 2025, abaixo do verificado no ano anterior, ficou
alinhado ao da região Nordeste. No acumulado de janeiro a novembro do ano
passado, a região apresentou retração de 13,7% no volume financeiro financiado
e de 17,5% no número de unidades, mantendo participação de 10,3% em valores e
11,8% em unidades no total nacional.
Embora não tenha detalhado os dados dos demais
estados do Nordeste, a Associação Brasileira das Entidades de Crédito
Imobiliário e Poupança (Abecip) destaca que, apesar do Rio Grande do Norte ter
registrado queda tanto em volume quanto em número de contratos, o estado não
figura entre aqueles com os maiores decréscimos da região.
Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção
Civil do Rio Grande do Norte (Sinduscon-RN), Sérgio Azevedo, os efeitos da
restrição de crédito já começam a ser percebidos sobretudo na decisão por novos
lançamentos.
“As obras em andamento seguem, em grande parte, os
cronogramas, pois foram estruturadas com financiamentos e vendas contratadas
anteriormente. No entanto, a restrição de crédito exige mais cautela na tomada
de decisão e reduz o volume de novos projetos colocados no mercado”, explica.
Segundo ele, o setor tem buscado se adaptar ao novo cenário, com revisão de
cronogramas e maior seletividade comercial.
A leitura é compartilhada pelo presidente do
Sindicato da Habitação (Secovi-RN), Renato Gomes, que avalia a retração do SBPE
como resultado, sobretudo, da menor capacidade de endividamento das famílias.
“Observa-se maior procura por imóveis compactos, imóveis usados, que tendem a
ter preços mais negociáveis, e por localizações fora dos eixos tradicionalmente
mais valorizados, mas com boa infraestrutura urbana e potencial de crescimento.
Famílias que adiam a compra acabam migrando para o aluguel, mantendo a demanda
aquecida nesse segmento”, aponta.
Números no país
O desempenho registrado no RN em 2025 reflete um
movimento mais amplo de retração do crédito imobiliário em todo o país. Os
dados da Abecip mostram que, entre janeiro e novembro do ano passado, os
financiamentos imobiliários com recursos do SBPE somaram R$ 140,1 bilhões no
país, representando queda de 17,1% em relação ao mesmo período de 2024.
A desaceleração também se refletiu no número de
contratos firmados. No acumulado de 11 meses de 2025, foram financiadas
aproximadamente 408,3 mil unidades habitacionais em todo o país, recuo de 21%
na comparação anual. Em novembro, o SBPE financiou 39,2 mil imóveis, número
que, embora figure entre os maiores já registrados para um mês de novembro na
série histórica, ficou 16,7% abaixo do observado no mesmo mês do ano anterior.
Em valores, os financiamentos de novembro alcançaram R$ 12,4 bilhões, com
retração de 17,1% na comparação anual e queda de 16,8% frente a outubro,
indicando perda de ritmo ao longo do segundo semestre.
Juros elevados impactam crédito
imobiliário
O economista Helder Cavalcanti, conselheiro do
Conselho Regional de Economia do RN (Corecon-RN), avalia que a retração no
estado está diretamente relacionada ao ambiente macroeconômico. “A política
monetária restritiva, com a Selic em 15%, impactou o crédito imobiliário de
forma significativa, elevando o custo do financiamento e reduzindo a demanda”,
explica. Ele acrescenta que mudanças nas regras de emissão de títulos como os
Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e as Letras de Crédito
Imobiliário (LCIs), além da taxação desses papéis, reduziram a oferta de
recursos para o setor e encareceram a captação pelas instituições financeiras.
Para Helder Cavalcanti, o segmento de médio padrão é
o mais afetado, pois é aquele que depende diretamente do crédito tradicional.
“Com taxas efetivas acima de 13% ao ano, o financiamento imobiliário fica mais
desafiador para a classe média, pois o comprometimento da renda com parcelas
elevadas se torna um obstáculo”, analisa.
Segundo ele, enquanto o mercado econômico conta com
programas e subsídios que ajudam a mitigar os efeitos dos juros, e o alto
padrão depende menos do financiamento bancário, o segmento intermediário sente
de forma mais intensa o impacto do encarecimento do crédito.
Além da política monetária, fatores regionais também
ajudam a explicar o desempenho do estado. A dependência da construção civil na
economia potiguar, mudanças nas regras de financiamento da Caixa Econômica
Federal, como a redução do limite financiável de 80% para 70% do valor do
imóvel, e a própria retração da poupança, principal fonte de recursos do SBPE,
contribuíram para reduzir a capacidade de absorção do crédito imobiliário ao
longo de 2025.
Projeções para 2026
Para 2026, a expectativa do setor é de acomodação do
mercado, com possibilidade de retomada gradual, condicionada principalmente à
trajetória dos juros e à melhora do ambiente de crédito. Sérgio Azevedo,
presidente do Sinduscon-RN, avalia que o desempenho relativamente melhor do Rio
Grande do Norte em comparação com outros estados do Nordeste reflete um
ambiente mais equilibrado.
“Esse desempenho relativamente melhor reflete a
resiliência do mercado potiguar e um ambiente mais equilibrado entre oferta e
demanda. A modernização do Plano Diretor teve papel importante nesse processo,
ao trazer regras mais claras, segurança jurídica e maior previsibilidade,
permitindo que o setor se organizasse melhor e absorvesse com menos impacto um
momento de retração do crédito”, afirma.
O dirigente do Sinduscon-RN, no entanto, alerta que
a retomada depende não apenas da redução dos juros, mas também de estabilidade
institucional. Segundo Sérgio Azevedo, a judicialização de leis já aprovadas,
como as Áreas Especiais de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITPs), gera
insegurança jurídica, trava investimentos e compromete decisões de novos
lançamentos. A avaliação é de que regras claras e previsibilidade são
fundamentais para que a demanda reprimida volte a se converter em empreendimentos,
empregos e desenvolvimento econômico.
Segundo o presidente do Secovi-RN, a manutenção de
juros elevados ao longo de 2026 tende a produzir efeitos estruturais no mercado
imobiliário potiguar, com impactos diretos no comportamento das famílias e das
incorporadoras. “Caso os juros permaneçam elevados em 2026, o mercado
imobiliário do RN pode enfrentar efeitos estruturais como o prolongamento do
adiamento da compra da casa própria, fortalecimento do mercado de locação, foco
das incorporadoras em projetos com menor ticket médio e ampliação de modelos
alternativos de aquisição”, afirmou Renato Gomes.
Alternativas ao crédito tradicional
Nesse contexto de juros elevados, o presidente do
Secovi destaca que o financiamento mais caro já tem impulsionado a busca por
alternativas ao crédito bancário tradicional no estado. Segundo o presidente do
Secovi-RN, o uso do FGTS se fortalece como ainda mais estratégico, seja para
compor a entrada, amortizar o saldo devedor ou reduzir o valor das parcelas.
Ainda assim, de acordo com Renato, o setor deve preservar um grau de
resiliência, aguardando um ambiente macroeconômico mais favorável para a
retomada do crédito.
Na análise econômica, Helder Cavalcanti acredita
que, mantido o atual cenário, o mercado deve reagir de forma lenta, mas
progressiva. “O mercado imobiliário em 2026 deve apresentar uma retomada lenta,
impulsionada pela expectativa de redução da Selic para 12% ao final do ano”,
projeta. Segundo o economista, a liberação de recursos do compulsório da
poupança, estimada em R$ 35 bilhões, e a criação da Faixa 4 do programa Minha
Casa, Minha Vida podem facilitar o acesso ao crédito para famílias de renda
média e ajudar a destravar a demanda reprimida.
Entre as alternativas ao SBPE, o especialista
destaca o próprio Minha Casa, Minha Vida, com juros reduzidos e subsídios, o
Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), para imóveis de maior valor, o
financiamento direto com construtoras e o consórcio imobiliário, que não
envolve juros, apenas taxa de administração. A escolha, segundo Helder
Cavalcanti, exige avaliação cuidadosa da renda familiar, do valor do imóvel e
das condições oferecidas por cada modalidade, para evitar sobrecarga financeira
em um ambiente ainda marcado por incertezas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário