sábado, 17 de janeiro de 2026

Financiamentos imobiliários sofrem retração de 17,7% no RN em 2025

 


O financiamento imobiliário no Rio Grande do Norte acompanhou, em 2025, o movimento de retração observado no restante do país. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que entre janeiro e novembro do ano passado foram financiadas 2.572 unidades habitacionais no RN com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), o que representa um recuo de 17,7% em relação ao mesmo período de 2024. No volume financeiro, os contratos somaram R$ 723,7 milhões, queda de 20,9% na comparação anual, refletindo tanto a redução do número de operações quanto o impacto direto dos juros mais elevados sobre o valor financiado.

A situação é atribuída, principalmente, ao encarecimento do crédito e à redução dos recursos da poupança. O desempenho do Rio Grande do Norte em 2025, abaixo do verificado no ano anterior, ficou alinhado ao da região Nordeste. No acumulado de janeiro a novembro do ano passado, a região apresentou retração de 13,7% no volume financeiro financiado e de 17,5% no número de unidades, mantendo participação de 10,3% em valores e 11,8% em unidades no total nacional.

Embora não tenha detalhado os dados dos demais estados do Nordeste, a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) destaca que, apesar do Rio Grande do Norte ter registrado queda tanto em volume quanto em número de contratos, o estado não figura entre aqueles com os maiores decréscimos da região.

Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Norte (Sinduscon-RN), Sérgio Azevedo, os efeitos da restrição de crédito já começam a ser percebidos sobretudo na decisão por novos lançamentos.

“As obras em andamento seguem, em grande parte, os cronogramas, pois foram estruturadas com financiamentos e vendas contratadas anteriormente. No entanto, a restrição de crédito exige mais cautela na tomada de decisão e reduz o volume de novos projetos colocados no mercado”, explica. Segundo ele, o setor tem buscado se adaptar ao novo cenário, com revisão de cronogramas e maior seletividade comercial.

A leitura é compartilhada pelo presidente do Sindicato da Habitação (Secovi-RN), Renato Gomes, que avalia a retração do SBPE como resultado, sobretudo, da menor capacidade de endividamento das famílias. “Observa-se maior procura por imóveis compactos, imóveis usados, que tendem a ter preços mais negociáveis, e por localizações fora dos eixos tradicionalmente mais valorizados, mas com boa infraestrutura urbana e potencial de crescimento. Famílias que adiam a compra acabam migrando para o aluguel, mantendo a demanda aquecida nesse segmento”, aponta.

Números no país

O desempenho registrado no RN em 2025 reflete um movimento mais amplo de retração do crédito imobiliário em todo o país. Os dados da Abecip mostram que, entre janeiro e novembro do ano passado, os financiamentos imobiliários com recursos do SBPE somaram R$ 140,1 bilhões no país, representando queda de 17,1% em relação ao mesmo período de 2024.

A desaceleração também se refletiu no número de contratos firmados. No acumulado de 11 meses de 2025, foram financiadas aproximadamente 408,3 mil unidades habitacionais em todo o país, recuo de 21% na comparação anual. Em novembro, o SBPE financiou 39,2 mil imóveis, número que, embora figure entre os maiores já registrados para um mês de novembro na série histórica, ficou 16,7% abaixo do observado no mesmo mês do ano anterior. Em valores, os financiamentos de novembro alcançaram R$ 12,4 bilhões, com retração de 17,1% na comparação anual e queda de 16,8% frente a outubro, indicando perda de ritmo ao longo do segundo semestre.

Juros elevados impactam crédito imobiliário

O economista Helder Cavalcanti, conselheiro do Conselho Regional de Economia do RN (Corecon-RN), avalia que a retração no estado está diretamente relacionada ao ambiente macroeconômico. “A política monetária restritiva, com a Selic em 15%, impactou o crédito imobiliário de forma significativa, elevando o custo do financiamento e reduzindo a demanda”, explica. Ele acrescenta que mudanças nas regras de emissão de títulos como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), além da taxação desses papéis, reduziram a oferta de recursos para o setor e encareceram a captação pelas instituições financeiras.

Para Helder Cavalcanti, o segmento de médio padrão é o mais afetado, pois é aquele que depende diretamente do crédito tradicional. “Com taxas efetivas acima de 13% ao ano, o financiamento imobiliário fica mais desafiador para a classe média, pois o comprometimento da renda com parcelas elevadas se torna um obstáculo”, analisa.

Segundo ele, enquanto o mercado econômico conta com programas e subsídios que ajudam a mitigar os efeitos dos juros, e o alto padrão depende menos do financiamento bancário, o segmento intermediário sente de forma mais intensa o impacto do encarecimento do crédito.

Além da política monetária, fatores regionais também ajudam a explicar o desempenho do estado. A dependência da construção civil na economia potiguar, mudanças nas regras de financiamento da Caixa Econômica Federal, como a redução do limite financiável de 80% para 70% do valor do imóvel, e a própria retração da poupança, principal fonte de recursos do SBPE, contribuíram para reduzir a capacidade de absorção do crédito imobiliário ao longo de 2025.

Projeções para 2026

Para 2026, a expectativa do setor é de acomodação do mercado, com possibilidade de retomada gradual, condicionada principalmente à trajetória dos juros e à melhora do ambiente de crédito. Sérgio Azevedo, presidente do Sinduscon-RN, avalia que o desempenho relativamente melhor do Rio Grande do Norte em comparação com outros estados do Nordeste reflete um ambiente mais equilibrado.

“Esse desempenho relativamente melhor reflete a resiliência do mercado potiguar e um ambiente mais equilibrado entre oferta e demanda. A modernização do Plano Diretor teve papel importante nesse processo, ao trazer regras mais claras, segurança jurídica e maior previsibilidade, permitindo que o setor se organizasse melhor e absorvesse com menos impacto um momento de retração do crédito”, afirma.

O dirigente do Sinduscon-RN, no entanto, alerta que a retomada depende não apenas da redução dos juros, mas também de estabilidade institucional. Segundo Sérgio Azevedo, a judicialização de leis já aprovadas, como as Áreas Especiais de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITPs), gera insegurança jurídica, trava investimentos e compromete decisões de novos lançamentos. A avaliação é de que regras claras e previsibilidade são fundamentais para que a demanda reprimida volte a se converter em empreendimentos, empregos e desenvolvimento econômico.

Segundo o presidente do Secovi-RN, a manutenção de juros elevados ao longo de 2026 tende a produzir efeitos estruturais no mercado imobiliário potiguar, com impactos diretos no comportamento das famílias e das incorporadoras. “Caso os juros permaneçam elevados em 2026, o mercado imobiliário do RN pode enfrentar efeitos estruturais como o prolongamento do adiamento da compra da casa própria, fortalecimento do mercado de locação, foco das incorporadoras em projetos com menor ticket médio e ampliação de modelos alternativos de aquisição”, afirmou Renato Gomes.

Alternativas ao crédito tradicional

Nesse contexto de juros elevados, o presidente do Secovi destaca que o financiamento mais caro já tem impulsionado a busca por alternativas ao crédito bancário tradicional no estado. Segundo o presidente do Secovi-RN, o uso do FGTS se fortalece como ainda mais estratégico, seja para compor a entrada, amortizar o saldo devedor ou reduzir o valor das parcelas. Ainda assim, de acordo com Renato, o setor deve preservar um grau de resiliência, aguardando um ambiente macroeconômico mais favorável para a retomada do crédito.

Na análise econômica, Helder Cavalcanti acredita que, mantido o atual cenário, o mercado deve reagir de forma lenta, mas progressiva. “O mercado imobiliário em 2026 deve apresentar uma retomada lenta, impulsionada pela expectativa de redução da Selic para 12% ao final do ano”, projeta. Segundo o economista, a liberação de recursos do compulsório da poupança, estimada em R$ 35 bilhões, e a criação da Faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida podem facilitar o acesso ao crédito para famílias de renda média e ajudar a destravar a demanda reprimida.

Entre as alternativas ao SBPE, o especialista destaca o próprio Minha Casa, Minha Vida, com juros reduzidos e subsídios, o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), para imóveis de maior valor, o financiamento direto com construtoras e o consórcio imobiliário, que não envolve juros, apenas taxa de administração. A escolha, segundo Helder Cavalcanti, exige avaliação cuidadosa da renda familiar, do valor do imóvel e das condições oferecidas por cada modalidade, para evitar sobrecarga financeira em um ambiente ainda marcado por incertezas.

 

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