Felipe Salustino
Repórter
O início da exploração de ouro em 2025 já garantiu
ao mineral um lugar de destaque na pauta de exportações do RN. De acordo com
dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado (Sedec), no ano
passado as vendas do bulhão dourado em formas brutas para uso não monetário
(ouro) ao exterior somaram US$ 91,2 milhões e equivalem a 94% do volume
registrado para o grupo “pedras e metais preciosos e semipreciosos”. Além de
assumir a liderança do grupo, o mineral ocupou o 4º lugar no ranking de
exportações gerais do Estado, representando 8,4% das vendas totais, segundo o
Observatório Mais RN, da Federação das Indústrias do Estado.
Em 2025, o volume de todas as exportações potiguares
fechou em US$ 1,08 bilhão, enquanto o grupo “pedras e metais preciosos e semipreciosos”
cresceu 1.688% com relação a 2024, passando de cerca de US$ 5,4 milhões para
US$ 96,5 milhões em vendas. O coordenador de Desenvolvimento Mineral da Sedec,
Paulo Morais, explica que o resultado está diretamente relacioná-do ao início
das operações do Projeto Aura Borborema, em Currais Novos, em junho do ano
passado. Ele destaca a expressividade dos números mesmo em um curto período de
exploração.
“O ano passado foi praticamente um ramp-up [fase de
aceleração de uma determinada atividade] para o projeto, que só atingiu a fase
comercial, de fato, por volta de outubro, a três meses do final de 2025. Então,
esses números são muito relevantes”, frisa Morais.
O projeto é o único de extração de ouro no RN
atualmente. A empresa Aura Minerals, responsável pelas operações, não atendeu
aos pedidos da reportagem para comentar os dados. Segundo Paulo Morais, da
Sedec, os números sobre a produção aurífera do RN só devem ser divulgados em
março. Segundo ele, a expectativa é de que, já em 2026, a mina consiga operar
em sua capacidade plena, cuja produção é estimada em 83 mil onças (o termo
representa a medida utilizada para venda do produto) de ouro por ano.
“Com isso, já neste ano, o crescimento tende a ser
ainda mais forte, com potencial de ficar muito perto do principal item de
exportação do estado atualmente, que é o petróleo”, analisa o coordenador da
Sedec.
Para o presidente do Sindicato do Sindicato da
Indústria da Extração de Materiais Básicos de Minerais Não-Metálicos do RN
(Sindiminerais), Mário Tavares, ao menos por enquanto será difícil superar o
petróleo como principal exportador por conta da alta demanda mundial por esse
produto.
Ele ressalta, no entanto, que a extração de ouro
local deverá ter um salto significativo este ano. “Acredito que o foco é trazer
mais qualidade ao produto, pensando também na quantidade. Então, a produção
deverá aumentar bastante”, disse Tavares, que preferiu não especular sobre de
quanto seria esse aumento em números.
O professor e geólogo Alexandre Rocha disse ser
difícil projetar se o mineral irá liderar a pauta de exportações do RN, mas
destacou que a extração local tem potencial gigantesco, graças também a fatores
como o preço da onça de ouro.
“Há dois anos, a onça custava US$ 1,5 mil. Hoje,
está em torno de US$ 5 mil (cerca de R$ 26,4 mil) e a tendência é chegar a US$
7 mil (quase R$ 37 mil na cotação atual). Isso acontece porque a Rússia e a
China estão em uma corrida para comprar ouro a fim de aumentar o lastro
(garantia) dos bancos desses países”, avalia o especialista. “Com esse cenário,
a extração local, obviamente, poderá se beneficiar, e a Aura deverá dobrar de
produção em dois anos”, estima Alexandre Rocha.
Ouro representa metade das receitas por
CFEM
Além de se destacar nas exportações, em 2025, a
extração de ouro no RN foi a principal responsável por alavancar a arrecadação
por meio da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Dados da
Sedec com base nas informações da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostram
que, no ano passado, as receitas da CFEM destinadas ao RN (estado e municípios)
por extração de minérios somaram US$ 12,64 milhões. Desse montante, R$ 6,96
milhões (52,9%) foram por comercialização de ouro ocorrida exclusivamente em
Currais Novos.
A ANM informou que a “mineradora Cascar Brasil Mineração
Ltda [Aura Minerals] foi a única empresa a recolher a CFEM decorrente da
comercialização” desse minério no RN. Conforme estabelecido em Lei
(13.540/2017), 15% das receitas da CFEM são repassadas ao estado, enquanto a
maior parte (60%) é direcionada ao município onde ocorre a exploração. No ano
passado, portanto, os valores destinados via CFEM por exploração de ouro
ficaram em torno de R$ 1,04 milhão para o RN, e de R$ 4,1 milhões para Currais
Novos.
A expectativa sobre a ampliação das receitas nos próximos
anos é grande, dada a importância atual da atividade. Segundo a Sedec, o
projeto Aura Borborema gera 4 mil empregos diretos e indiretos, quantidade que
deve ser expandida com a exploração de uma nova área, um depósito de ouro sob a
BR-226, próximo a Currais Novos. A Sedec informou que a Aura Minerals está em
tratativas com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit)
para planejar desvios alternativos à rodovia, a fim de permitir a extração do
minério na área.
“Com o desvio, a gente consegue ampliar a vida útil
da jazida, que hoje é de cerca de 11 anos, para aproximadamente 30 anos. Isso
vai gerar grandes ganhos econômicos à região. A empresa está em tratativas com
o Dnit, porque essa é uma questão de interesse público que merece ser tratada
de maneira técnica e cuidadosa, de modo a respeitar marcos legais, sem
prejuízos à infraestrutura, enquanto se garante a ampliação da vida útil do
empreendimento”, assinalou Paulo Morais.
Além do ouro, em 2025 foram destaques no RN as
arrecadações via CFEM por extração de água mineral (R$ 1,5 milhão), calcário
(R$ 1,3 milhão), granito (R$ 591,6 mil) e xelita (R$ 558,9 mil).
Exportação de terras raras
A exportação de terras raras é outro tema que tem
integrado a pauta da Sedec-RN desde o ano passado. Em entrevista à TRIBUNA DO
NORTE no início deste mês, Hugo Fonseca, secretário-adjunto da pasta, pontuou
que o setor de mineração ganhou destaque e deve continuar com produtos entre os
mais exportados nos próximos anos, com perspectivas de novos itens, “entre
eles, minérios de ferro e outros, chamados de terras raras”.
Os minerais em questão são formados por 17
elementos, classificados como raros por conta do processo de extração nos
locais onde se acumulam. Especialistas avaliam que o estado possui importante
potencial para tal exploração, mas a falta de estudos compromete uma melhor
compreensão em torno do setor, o que gera, inclusive, dificuldades em traçar um
panorama sobre as perspectivas de exportação.
O geólogo Alexandre Rocha, que é professor do
Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), afirma que esta é uma lacuna a
ser resolvida no RN. “O Rio Grande do Norte e a Paraíba, especialmente, carecem
muito desses estudos”, fala.
De antemão, Rocha aponta que o Brasil, de um modo
geral, precisa estar atento para evitar equívocos a exemplo do que acontece com
a exploração de materiais já exportados, só que em estado de pouco
beneficiamento. A alternativa à questão, segundo ele, é a chamada
verticalização (processamento) dos minerais.
“O Brasil hoje envia produtos pouco beneficiados a
países como a China. Então, por esse aspecto, não adianta a gente produzir
terras raras se o envio dessa matéria para fora se dá na forma mista ou bruta”,
avalia.
Segundo ele, contudo, algumas iniciativas em curso
podem servir de exemplo para um modelo que precisa ser implantado para a
exportação dos atuais e de novos itens pelo Brasil.
“Uma empresa de Minas Gerais produz nióbio e
produtos da cadeia derivada desse mineral. Isso pode ser feito com as terras
raras também, porque se a gente manda matéria-prima sem beneficiamento para a
China, esse material vai ser empregado no carro elétrico, que leva muita terra
rara em sua composição, inclusive, para depois ser vendido ao Brasil”, diz.
“O ponto crucial é que não devemos vender somente
commodities. Do contrário, daqui a 20 anos, quando a exploração de terras raras
estiver consolidada no Brasil, estaremos exatamente como estamos hoje: mandando
matéria-prima para fora e recebendo produtos beneficiados. Mas o país precisa
evoluir, até mesmo para ampliar o leque de exportações”, defende Alexandre
Rocha.

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