quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Banco Master concedia empréstimos que não eram pagos e geravam receita apenas no papel, aponta investigação

 


O Banco Master concedia empréstimos para algumas empresas que não pagavam as parcelas, gerando assim uma receita somente no papel, aponta investigação do Ministério Público Federal (MPF). O valor dessas operações de crédito era repassado, em poucos minutos, quase que integralmente, a fundos administrados pela gestora de recursos Reag, que simulavam uma rentabilidade irreal. Ao final, o dinheiro voltava para a própria instituição financeira em aplicações. Esse fluxo financeiro entrou na mira da Polícia Federal, que deflagrou uma operação para apurar suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.

De acordo com documentos da investigação, os prazos de carência para o pagamento das parcelas eram prorrogados às vésperas das datas previstas para o início da quitação. Na prática, segundo o inquérito, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”.

Para mapear o caminho do dinheiro, a área de supervisão do Banco Central (BC) pediu ao Master, em julho de 2024, a comprovação de que um dos fundos que receberam os recursos dos empréstimos tomados por empresas teria saldo suficiente em caso de necessidade de resgate.

Os técnicos da entidade monetária solicitaram também a apresentação dos controles implementados para monitoramento da evolução dos projetos que deveriam ser bancados com os empréstimos e o acompanhamento dos valores já liberados para cada cliente.

Em resposta ao BC, o Master disse que esses questionamentos deveriam ser dirigidos à Reag, administradora dos fundos. Esse posicionamento chamou a atenção de técnicos da entidade monetária, porque deixou clara a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”.

Já a Reag disse ao BC que os ativos dos fundos que receberam recursos oriundos do Master eram, em sua quase totalidade, compostos por papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor pelo mercado. Nessa mesma correspondência, a gestora afirmou garantir liquidez de até R$ 1 bilhão por mês para pagamento de resgates, caso necessário, utilizando-se de outro fundo, o Gold Style.

Porém, além dos problemas nos papéis do Besc, o BC identificou que não havia ativos líquidos na carteira do fundo Gold Style capazes de suportar os resgates. Para a entidade monetária, essas constatações evidenciam “o não atendimento de preceitos para o gerenciamento do risco de crédito das operações estruturadas”, com descumprimento da lei.

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que as afirmações "não correspondem aos fatos". "O Banco Master era submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de fiscalização contínua. A defesa segue colaborando integralmente com as autoridades competentes e confia que o avanço das apurações afastará premissas que não possuem sustentação técnica ou documental", diz a nota. A Reag não respondeu.

Rentabilidade extraordinária

Documento do Banco Central enviado ao MPF reforça que as operações entre Master e Reag envolviam uma “reavaliação indevida de ativos, que permitiu aos fundos de investimento auferir rentabilidade extraordinária”.

O caso mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pela instituição financeira de Vorcaro para a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag. Conforme O GLOBO revelou na semana passada, tão logo esses recursos foram recebidos pela empresa, o dinheiro foi repassado para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag 20 dias antes, com um patrimônio de R$ 15 mil.

A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc.

Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.

A PF também suspeita que, após circularem por estruturas administradas pela Reag, os recursos tenham retornado ao próprio Master por meio da aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal forma de captação do banco no mercado.

Diante dessas suspeitas, investigadores deflagraram uma operação nesta quarta-feira para realizar buscas e apreensões de documentos em endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e a João Carlos Mansur, fundador da Reag.

A gestora de recursos também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, realizada em setembro do ano passado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público para apurar um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

Ao menos três fundos administrados pela Reag que fizeram negócios com o Master também constam da lista de investigados na Operação Carbono Oculto. Dentre eles, estão o Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, que também realizavam repasses relâmpagos.

A gestora de recursos nega qualquer irregularidade e tem enfatizado que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.

O Globo

 

 

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