Após passar cinco
horas refém de adolescentes infratores internos do Centro de Atendimento
Socioeducativo (Case) Pitimbu, localizado em Parnamirim, na Grande Natal,
um funcionário do local relatou os momentos de tensão vividos sob ameaça de
armas brancas. O servidor pediu para não ser identificado.
"Não tive o que fazer a não ser me render",
afirmou o homem.
O caso aconteceu na tarde de quarta-feira (24). O local era conhecido antes como Ceduc. O funcionário foi libertado, sem ferimentos, depois de negociação entre agentes educadores, policiais militares e os adolescentes. Ele ficou das 14h às 19h refém dos adolescentes.
De acordo com o educador, ele e mais três a agentes
estavam conduzindo dois adolescentes para um alojamento, quando houve o ataque.
"Ao chegar lá, a gente fez o procedimento, em que
pedimos para que eles se agacharem com a mão na cabeça no canto da cela.
Fizemos isso com os dois que estavam lá dentro e no momento da abertura da
cela, para colocar os dois que estavam fora foi a hora que os dois de dentro
atacaram os agentes - eu e mais três", relatou.
O ataque, segundo ele, ocorreu com armas brancas
fabricadas artesanalmente pelos internos. Houve um embate e três agentes
conseguiram sair do local e fechar os quatro adolescentes na cela junto com o
refém.
"Mas como partiram para cima de mim com objeto
pontiagudo - que já senti no pescoço, a ponta - não tive o que fazer a não ser
me render e ficar sob comando deles", contou.
De acordo com o servidor, os jovens queriam deixar a
unidade, levando ele como garantia de fuga. Ao longo das horas, ele conta que
os colegas perguntavam rotineiramente se ele estava bem ou precisava de algo.
Apesar das ameaças, ele não foi ferido. O alívio veio com a liberação.
O servidor criticou o que chamou de
"afrouxamento" dos protocolos de segurança, como a ausência do uso de
algemas durante o deslocamento dos internos.
"Acredito que vai acontecer novamente. Cada vez
que se afrouxa esses protocolos de segurança, como a condução de vários
internos sem algema, há várias possibilidades. Essa orientação que vem de cima
é que a gente conduza eles livremente, com cabeça para baixo e braço para trás,
e eles não fazem, muitos não fazem e ficam em atitude de deboche, de zombaria.
Então a gente não tem nenhum respaldo", argumentou.
De acordo com o presidente da Fundação de Atendimento
Socioeducativo (Fundase/RN), Herculano Campos, o motim foi realizado por quatro
internos inicialmente. Dois deles depois deixaram a ação e os outros dois
permaneceram.
Eles renderam o funcionário, que é um educador, com
hastes de antenas de uma televisão, que se tornou um objeto parecido a um
facão, mas que "não tinha capacidade de força perfurante", segundo o
presidente da Fundase.
Segundo o capitão Flávio Peixoto, negociador da Rondas
Ostensivas Com Apoio de Motocicletas (Rocam), os adolescentes fizeram algumas
reinvindicações e a partir daí houve uma negociação.
"Algumas não foram atendidas, claro, como alguns
que queriam ser liberados para fuga. Isso a gente não permite, óbvio. Pediram
contato com os familiares pra salvaguardar a integridade física deles, e também
o contato com a imprensa", explicou.
"Nós fomos gradativamente conversando e
conseguimos obter êxito com a negociação e a libertação do agente educador sem
ferimento, ileso, bem como dos adolescentes infratores".
'Não há maus-tratos'
O presidente da Fundase negou ainda que haja qualquer
tratamento com maus-tratos aos adolescentes na unidade. "Em geral, esse
tipo de acusação é a moeda de troca que eles jogam pra se fazerem de vítima. A
gente não trabalha com maus-tratos de adolescente", afirmou.
Ele pontua, no entanto, que é preciso lembrar que os
adolescentes fazem parte muitas vezes de grupos criminosos.
"Lidamos com pessoas muitas das quais são articuladas
com facções do crime organizado. Mas nós temos por princípio trabalhar com a
segurança socioeducativa. Nós rechaçamos qualquer acusação de maus-tratos com
os meninos", pontuou.
O Corpo de Bombeiros também foi acionado e a equipe da
corporação chegou a entrar na unidade. Houve relato de fogo na parte interna
durante o motim.
Ação recente
Em julho deste ano, outra
ação foi registrada no Case Pitimbu. Adolescentes de duas facções rivais
entraram em conflito entre si, queimaram colchões e quebraram celas no Case
Pitimbu durante um princípio de rebelião.
O movimento foi controlado apenas na conversa com os
policiais. Não houve feridos, reféns e nem fugas registradas.
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