sábado, 19 de setembro de 2026

“Esse prefeito é ladrão”: o vídeo que a PF gravou dentro da Dismed — e o que a peça diz que ele prova

 


O Blog do Dina publica neste sábado (19) o vídeo da escuta ambiental que a Polícia Federal instalou dentro da Dismed Distribuidora de Medicamentos, em Mossoró. São 2 minutos e 44 segundos gravados na manhã de 13 de maio de 2025, às 8h11, na sala em que o sócio Oseas Monthalggan Fernandes Costa conversa com um interlocutor que os autos identificam apenas pelo apelido: Nenen.

É nesse arquivo da escuta ambiental — catalogado pela PF como `Rec1_20250513_081116` — que aparece a frase que a Representação Criminal da Operação Mederi usa para tratar do que chama de consciência da ilicitude por parte do prefeito de Mossoró.

OSEAS: O problema porque é o seguinte: os cara [inaudível]… se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo… ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não! Aí os cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não…

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NENEN: Honesto, psiu, honesto os cara!

O que a frase é — e o que ela não é

Vale a precisão, porque ela importa. Oseas não está apontando o dedo para ninguém ali. Ele fala de si: *se eu fosse prefeito*, não me importaria que os funcionários me chamassem de ladrão. O contraste que ele faz é com o prefeito real, o de Mossoró, que segundo a conversa age com cuidado — “ninguém pode saber não”.

A peça é explícita sobre o limite disso. Ao listar os indícios contra Allysson Leandro Bezerra Silva, a Representação Criminal registra que a afirmação “não constitui prova direta” contra o então prefeito, e diz apenas que “os interlocutores percebem no prefeito um comportamento cauteloso voltado a manter oculta sua participação nos esquemas discutidos”.

Em outra peça dos mesmos autos, a leitura é mais dura: o trecho “revela o cuidado que este demonstra para se manter oculto nos esquemas de corrupção”.

As duas leituras estão nos autos. Nenhuma das duas diz que Oseas chamou Allyson de ladrão — e este blog também não vai dizer.

A parte do vídeo que não virou manchete

O que vem depois da frase é o que dá ao arquivo valor próprio na investigação. Nenen passa a ensinar Oseas a convencer Poliana Rezende Dantas, então diretora financeira da Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró, a aumentar o volume de compras da prefeitura:

NENEN: Agora você tem que dizer, olhe POLIANA… você tem que dizer a ela o seguinte: olhe, POLIANA, eu vou dá o exemplo de uma cidade como JOSÉ DA PENHA, aí você diz, JOSÉ DA PENHA consome cem mil (R$ 100.000,00) por mês… Aí como é que MOSSORÓ em um mês só consome trezentos mil? Não tem lógica não, porra!

Antes disso, na mesma conversa, Nenen reclama do tamanho das ordens de compra de Mossoró: “Como é que MOSSORÓ pede seiscentos mil reais e põe duas ordem de compra de trezentos mil?”. E conclui: “MOSSORÓ era no mínimo ali era quinhentos mil conto no mês”. Oseas responde: “Era! No barato, homi!”.

Para a Polícia Federal, esse trecho mostra “familiaridade” com a diretora e “confiança de que ela seria receptiva aos argumentos apresentados”. Poliana ocupou a diretoria financeira da Saúde de Mossoró até julho de 2025. Em março, este blog mostrou que os sócios da Dismed [trataram de pagamento com ela no mesmo dia em que definiram a propina do esquema](https://blogdodina.com/socios-dismed-trataram-pagamento-diretora-allyson/), e que ela foi nomeada pelo prefeito 23 dias depois de trocar mensagens com um dos sócios.

Por que o vídeo sai agora

Na noite desta sexta-feira (18), no debate da TV Ponta Negra, o candidato Robério Paulino (PSOL) citou nominalmente este blog para dizer que existe “um áudio” nas mãos da Polícia Federal em que Allyson Bezerra aparece como destinatário de 15% de propina. [O assunto entrou no horário nobre](https://blogdodina.com/debate-tv-ponta-negra-mederi-15-allyson/) e o candidato pediu direito de resposta ali mesmo.

Uma correção que este blog já fez e repete: não é áudio. A escuta ambiental que a PF instalou dentro da Dismed registrou imagem. É vídeo. O que está aí em cima é a prova disso. E este blog tem mais 37 deles.

O que a máquina não ouviu

As legendas cravadas na imagem reproduzem a transcrição oficial da Polícia Federal, registrada no laudo IPJ 076/2025 — o documento que cataloga os arquivos da escuta ambiental e integra os autos da quebra de sigilo no TRF-5. Não é legenda automática: o reconhecimento de voz por máquina, testado antes pela reportagem, escrevia “se eu fosse o prefeito e eu fosse o lado do rapaz prefeito” no lugar do trecho — e fazia a palavra ladrão desaparecer.

A Operação Mederi segue em investigação.

Com informações do Blog do Dina


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