sábado, 19 de setembro de 2026

“Cadê o negócio, entrou já o saldo?”: a ligação que levou a PF a um funcionário do Banco do Brasil

 


Às 10h15 de 19 de junho de 2024, uma quarta-feira, Oseas Monthalggan Fernandes Costa ligou para um número de celular. Dono da Dismed Distribuidora de Medicamentos, ele perguntou: “Cadê o negócio, entrou já o saldo?”. A ligação durou um minuto e catorze segundos. Somada às mensagens que o dono do número trocou naquele mês com Oseas e com a mulher dele, e ao cargo de um irmão, foi o que a Polícia Federal levou ao tribunal para pedir — e obter — a quebra do sigilo telefônico e telemático de Saulo David Araújo Cabral, funcionário do Banco do Brasil. E para anotar nos autos da Operação Mederi que o irmão dele, Lucas Ezequiel Tomaz Araújo Silveira, ocupava cargo de confiança no Gabinete do Prefeito de Mossoró.

Saulo é, hoje, o terceiro nome da lista de vinte pessoas cujos sigilos foram devassados na investigação. A lista é da própria defesa da Dismed, numa petição juntada ao inquérito em 16 de junho em que sustenta que ninguém ali tem foro no Tribunal Regional Federal da 5ª Região — tese que a defesa levou de novo ao tribunal num recurso de 4 de setembro, dessa vez sem nomear os vinte. Ao lado do nome dele, a defesa escreveu a qualificação: “funcionário de instituição financeira”.

Ser alvo de quebra de sigilo não é ser réu. Saulo não consta entre os representados da representação criminal de novembro de 2025, nem no rol de partes do inquérito no sistema do tribunal. O que os autos guardam sobre ele é o que a PF escreveu ao pedir as medidas, o que o desembargador Rogério Fialho Moreira autorizou, e o que veio de volta. No caso das contas de e-mail, quase nada. Não há manifestação de Saulo nem do irmão nos autos, e o Blog do Dina não os procurou antes desta publicação.

A ligação

A conversa está transcrita no primeiro auto circunstanciado da interceptação, que cobre o período de 6 a 20 de junho de 2024. A PF classificou a chamada com o assunto “Oseas cobra HNI” — homem não identificado. É assim que ela aparece nos autos:

HNI: Oi, “Gan”.

OSEAS: Tá sem internet?

HNI: Tô, bicho, eu tô em Fortim/CE. Tô na fazenda aqui.

OSEAS: Aí tá certo, só quer saber da fazenda de camarão agora, né!

HNI: É, exatamente. (risos)

OSEAS: E as novidades?

HNI: Cara, por enquanto nada. Eu tô voltando hoje à tarde para Mossoró, pretendo estar umas 3 horas. Você vai estar pela cidade ou vai tá em Upanema?

OSEAS: Rapaz, eu vou para Upanema. Mas qualquer coisa eu pego você.

HNI: Não, não é nada urgente não, pode ir para Upanema (inaudível).

OSEAS: Cadê o negócio, entrou já o saldo?

HNI: Ainda não. Tô tentando resolver uns negócios aqui para ligar para o chefe.

OSEAS: Daqui para sexta, você acha que tem alguma novidade?

HNI: Tá, pode deixar…

“Gan” é como o interlocutor chama Oseas Monthalggan. Quem é “o chefe”, os autos não dizem.

Para descobrir de quem era o número, a PF consultou os bancos de dados disponíveis. O telefone estava cadastrado como chave Pix de uma conta do Banco do Brasil em nome de Saulo. A partir daí, a autoridade policial escreveu que a linha “provavelmente” pertence a ele. Logo adiante, deixou registrada uma dúvida. A ligação foi feita “numa quarta-feira (19/06), às 10h”. O teor, escreveu a PF, “não condiz com a rotina de um bancário, o que leva à suspeita de que a linha esteja sendo utilizada por terceira pessoa”. Por isso, a PF pediu para “aprofundar a investigação com relação ao usuário da linha”.

Quem é Saulo David, pelos autos

A PF o descreve, em vários documentos, como funcionário do Banco do Brasil. No quadro-resumo da representação que pediu as quebras, a síntese é uma frase: “Saulo é funcionário do Banco do Brasil e mantém diálogos suspeitos com Oseas”. Numa informação policial de setembro de 2024, a frase ganha um complemento: “diálogos suspeitos a respeito de transações financeiras com Oseas”. Um documento localizado depois, na conta de e-mail dele, o descreve como gerente-geral do banco — a PF registra o print sem dizer de qual agência.

Os autos não dizem em que agência ele trabalha, nem ligam a função dele a qualquer conta da Dismed. O que dizem, em outras páginas, é que as contas da empresa ficam no Banco do Brasil, em duas agências de Mossoró. Foi numa agência do banco que a PF flagrou, em vigilância velada, o sócio Maycon Zacarias fazendo saques em espécie, em julho e agosto de 2024. Nenhuma peça lida pelo blog junta as duas pontas.

O que a análise das mensagens de WhatsApp registra, no mês da ligação, é uma sequência de contatos. No dia 11 de junho, Saulo mandou um áudio a Oseas às 9h22; Oseas respondeu com dois áudios cerca de uma hora e meia depois, e a troca continuou à tarde. Na manhã seguinte, às 8h16, Oseas enviou a Saulo “dois arquivos do tipo documento”. A partir do dia 14, as mensagens com Saulo passaram a ser trocadas com o telefone de Roberta Praxedes, mulher de Oseas e dona da Drogaria Mais Saúde. No dia 24, foi Roberta quem enviou dois documentos, às 18h28; Saulo respondeu com dois áudios dois minutos depois. O conteúdo dos áudios e dos documentos não está transcrito na peça.

O irmão no gabinete

A segunda coisa que a PF anotou sobre Saulo não é sobre ele. É sobre o irmão.

“Saulo é irmão de Lucas Ezequiel Tomaz Araújo Silveira, o qual ocupa cargo de confiança na Prefeitura Municipal de Mossoró/RN, uma das principais remetentes de recursos para a empresa Dismed”, escreveu a autoridade policial. Na informação de análise que acompanha o pedido, o detalhe: Lucas “é lotado no Gabinete do Prefeito de Mossoró/RN, na função de Diretor do Departamento de Cerimonial e Eventos”. A PF reproduziu nos autos a portaria de nomeação.

O Diário Oficial de Mossoró conta o resto. Lucas era, em outubro de 2023, gerente executivo de Cerimonial, lotado na Secretaria de Governo. No dia 29 de janeiro de 2025, o então prefeito Allyson Bezerra assinou o ato coletivo que exonerou comissionados. Nele, Lucas aparece como “Diretor Administrativo – CC6”, com a atribuição de “Diretor do Departamento de Cerimonial e Eventos” do Gabinete. Um mês depois, ele reaparece numa comissão de avaliação de amostras da Secretaria de Administração. De abril de 2025 em diante, é “Diretor de Departamento de Cerimonial” da Secretaria de Cultura, designado fiscal — ou substituto do fiscal — de contratos de estrutura, som e camisetas para eventos. Neste ano, foi de novo designado fiscal de contrato, em 27 de abril. No dia 5 de junho, coordenava o Polo Raiá do Dia do Mossoró Cidade Junina 2026 — já na gestão de Marcos Medeiros, prefeito desde que Allyson renunciou, em março.

Mossoró — Fundo Municipal de Saúde e prefeitura — é quem mais pagou à Dismed entre os 82 entes públicos listados pela PF: R$ 13,6 milhões, como o blog mostrou em agosto. Nada nos autos liga Lucas a esses pagamentos. A PF registrou o parentesco e o cargo, e parou aí.

O que o desembargador autorizou — e o que voltou

Em 10 de dezembro de 2024, o desembargador Rogério Fialho Moreira deferiu o que a PF pediu sobre Saulo David. Interceptação da linha por quinze dias e dos aparelhos associados a ela. Quebra da conta de WhatsApp, de quatro contas do Google e de uma da Microsoft. Os ofícios foram expedidos nos dias seguintes.

O resultado está nos autos, e não trouxe elemento novo contra ele. Do Google, a resposta foi que duas das contas atribuídas a Saulo não tinham registro de criação nem atividade no período — “contas sem dados”, na lista da PF; de uma terceira, a PF anotou que “não trouxe conteúdo relevante”. Da Microsoft veio a conta de e-mail que confirmou o nome dele e o print do cargo no banco. A conclusão do agente que a analisou, em 12 de março de 2025, é literal: “o material analisado não enseja obter informações relevantes à investigação em curso. O material, dada sua exiguidade, impossibilita qualquer análise”. No relatório sobre a interceptação de WhatsApp de janeiro de 2025, concluído em agosto, a conta de Saulo David está na tabela de alvos, e o sumário aponta para uma seção sobre ele que não existe no documento.

Fora esses registros, o nome de Saulo não volta a aparecer em análise nenhuma da PF nos autos a que o blog teve acesso. Ele reaparece apenas em junho de 2026, na petição da defesa — como argumento de que a investigação correu contra vinte pessoas sem foro.

O que fica em aberto

Uma ligação de 74 segundos, uma chave Pix, mensagens trocadas com o casal dono das empresas, um irmão no gabinete. Foi isso que sustentou uma quebra de sigilo autorizada por um tribunal federal. O que veio da conta de e-mail, a própria PF diz que não deu para analisar.

As perguntas que os documentos não respondem são as que importam. Que “saldo” Oseas cobrava. Quem é “o chefe”. E se a função de Saulo no banco tem qualquer relação com as contas por onde a Dismed movimentou o dinheiro das prefeituras. A série completa da Operação Mederi está reunida aqui.

O espaço está aberto para manifestação.

Atualização (19/09, à noite): o texto foi ajustado após checagem: a lista dos vinte investigados citada pela defesa consta de petição de 16 de junho, não do recurso de 4 de setembro; a linha fina passou a reproduzir o “provavelmente” da PF sobre a titularidade da linha; e a frase “impossibilita qualquer análise” foi precisada como conclusão sobre a conta de e-mail, não sobre toda a quebra.

Com informações do Blog do Dina


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