A aprovação da proposta de emenda à Constituição
(PEC) que acaba com a escala 6x1 na quarta-feira, 27, deve se transformar na
principal marca da gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara.
A PEC soma-se a outras pautas que Motta deu prioridade e pôs para votar. Em
comum são temas com potencial de captalizar votos, além terem grande
visibilidade nas redes sociais.
Nessa lista estão o Eca digital, batizado de Lei
Felca, e o projeto que assegurou bagagem de mão gratuita em viagens aéreas.
Se para esses o que pesou foi o termômetro de Motta
para as redes, no caso da PEC, deputados ouvidos pelo Estadão, avaliam que o cálculo
político tem um objetivo específico: turbinar o nome de seu pai, Nabor
Wanderley (Republicanos), prefeito de Patos, como candidato ao Senado pela
Paraíba.
Esses parlamentares ressaltam que a aprovação da PEC
na última semana por um placar expressivo passou o recado de que Motta tem o
comando do plenário. Reforça também uma aliança com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, já de olho no apoio do petista para eleger o pai como senador.
Pesquisa divulgada pela Real Time Big Data no último
dia 21 mostrou que o ex-governador João Azevêdo (PSB) é citado por 43% como
opção para a primeira vaga ao Senado. O senador Veneziano Vital do Rêgo
(MDB-PB) aparece com 25%.
Nabor Wanderley tem 7% das intenções para primeira
vaga e 12% para a segunda vaga. Ele aparece atrás de Marcelo Queiroga, que tem
13%. Apesar disso, aliados de Motta indicam que o prefeito de Patos pode ser
beneficiado pela aproximação com o governo Lula – o presidente recebeu 66,6%
dos votos válidos na Paraíba no 2º turno, ante 33,3% de Jair Bolsonaro.
“É um momento de pacificação da relação da Câmara
com o presidente Lula”, analisou o cientista político Marco Antônio Carvalho
Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “A agenda eleitoral faz diferença.
E o apoio de Lula no Nordeste pode fazer diferença para candidatura ao governo
e mesmo ao Senado.”
A cena de Motta vitorioso ao lado de governistas
após a aprovação da PEC do fim da 6x1 é uma mudança significativa em relação à
avaliação do início de seu mandato como presidente. Colegas duvidavam que o
jovem paraíbano teria forças para contornar a polarização da Câmara.
Uma das bandeiras eleitorais de Lula, o fim da
escala 6x1 contava com resistência da oposição, de deputados mais alinhados ao
setor produtivo e do próprio presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que
fez críticas públicas à medida e disse que “ócio demais faz mal”, em entrevista
ao jornal Folha de S.Paulo – depois, precisou se desculpar após a repercussão
negativa das declarações.
Motta, porém, usou o tema para associar-se à pauta
governista e projetar seu próprio nome nas redes. “Assumi esta condução com
todo equilíbrio, responsabilidade e compromisso com os brasileiros”, disse em
discurso após a aprovação do texto em primeiro turno, reproduzido em publicação
no Instagram.
O presidente da Câmara atuou para que o texto
conciliado com o governo fosse aprovado sem alterações pelo plenário, repetindo
o que ocorreu na votação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$
5.000 por mês. Tanto a PEC, aprovada em primeiro turno com 472 votos, quando o
IR, com 493, foram costurados pelo paraibano com os partidos de esquerda e
centro e receberam apoio expressivo da oposição.
“Hugo mostrou que ele tem painel. E quando o painel
fala alto, muita coisa se resolve nos bastidores, facilita. Uma votação
expressiva de ontem (quarta-feira), os entraves que ele tinha ontem resolvem
mais fácil no dia de hoje”, afirmou o líder do União Brasil na Câmara, Pedro
Lucas Fernandes (MA).
“Eu acho que é uma marca, vai ser uma marca do
presidente Hugo, é uma decisão corajosa, uma decisão que enfrentou muitas
resistências, ainda está enfrentando, mas eu acho que o futuro vai reconhecer
essa iniciativa do presidente Hugo frente à Câmara dos Deputados”, endossou o
líder do Republicanos, Augusto Coutinho (PE).
Ao Estadão, Motta disse que o texto da PEC “foi
construído de forma responsável, com período correto de transição, para não
sobrecarregar consumidores e proteger quem empreende”.
“A aprovação da PEC mostrou o compromisso do
Parlamento com as pessoas. Essa era uma pauta antiga à espera de votação, e o
placar expressivo revelou que essa mudança está de acordo com o sentimento da
população brasileira”, afirmou o presidente da Câmara ao Estadão.
O texto aprovado pela Câmara ainda vai ao Senado,
onde setores produtivos tentam convencer os senadores a desvincular o debate do
calor das eleições.
Estadão

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