Dona da marca Forbes no Brasil, a FRBS Participações
S.A. aparece na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) como ativo principal de
um fundo de investimento ligado a outros fundos investigados pela Polícia
Federal no caso Master.
Procurada pela Folha, a companhia diz desconhecer os
documentos registrados na autarquia e nega qualquer vínculo societário com
Vorcaro e suas empresas. "Não temos conhecimento do porquê isso aconteceu.
O que posso afirmar novamente é que isso que foi reportado está errado, pois esse
fundo não é nem nunca foi acionista/sócio da FRBS/Forbes BR", afirma em
nota Katarina Camarotti, diretora-executiva da Forbes e filha de Antonio
Camarotti, CEO e publisher da empresa.
Em atividade há pelo menos dois anos, o Eagle Eye
Investments é um dos mais de 30 fundos que compõem a carteira de investimentos
do fundo Astralo 95 —centro das investigações realizadas pela Polícia Federal
desde a primeira fase da operação Compliance Zero, em novembro de 2025.
Os advogados do liquidante do Banco Master identificam
o Astralo 95 como parte da chamada "estrutura Frozen", um conjunto de
fundos de investimento cujos veículos no topo da cadeia possuem nomes que fazem
referência a personagens do desenho "Frozen", da Disney, como Olaf,
Hans, Sven e Anna.
Segundo os registros da CVM, o Eagle Eye, do qual o
Astralo 95 é o cotista único, detém uma participação de R$ 113,7 milhões na
FRBS Participações, razão social da Forbes. Até o ano passado, o valor
correspondia a mais de 90% do patrimônio líquido do fundo.
O Eagle Eye era administrado pela Reag Investimentos
—investigada na operação Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro ao
crime organizado e liquidada em janeiro deste ano pelo BC. O fundo não conta
com auditoria dos balanços financeiros.
Ativa no país desde 2012, a marca licenciada da
Forbes Brasil pertence ao empresário Antonio Camarotti e Katarina Camarotti.
Ambos detêm, em conjunto, 100% das ações da FRBS Participações S.A., segundo
documentos da Junta Comercial de São Paulo. Não há menção ao fundo nesses
documentos, contradizendo os registros do fundo Eagle Eye na CVM.
No único balanço contábil do fundo protocolado na
CVM, referente a novembro de 2024, o Eagle Eye declarava deter 100% das ações
da FRBS —todas as 225.349 ações que compunham o capital social da empresa—,
avaliadas em R$ 113,7 milhões.
O documento registra ainda um mútuo conversível de
R$ 100 milhões, instrumento pelo qual o fundo emprestaria recursos à Forbes
Brasil com a previsão de que a dívida fosse quitada pela emissão de novas ações
da companhia.
O acordo também previa a compra direta de ações de
Antonio Camarotti, mas não explica como essa transação seria possível já que o
fundo mostrava que 100% das ações da FRBS estavam sob seu controle.
Por e-mail, Katarina afirmou à Folha que "nunca
foi contabilizado qualquer mútuo dessa dimensão na Forbes Brasil, nem houve
conversão em ações". A empresária diz desconhecer o fundo Eagle Eye e as
estruturas que integram o universo de fundos do Astralo 95.
Desde 2024 a FRBS realizou três assembleias de
acionistas, convocadas e assinadas por Antonio e Katarina, incluindo uma
distribuição de dividendos no valor de R$ 16 milhões, aprovada no final de
2025.
"A ausência de qualquer referência em Junta
Comercial, atas de assembleias etc. confirma que não há acionistas para além
dos dois já citados, Antonio e Katarina Camarotti", disse a empresária.
Katarina também enfatizou que além de nem Daniel nem
o Master deterem qualquer participação na FRBS, "nenhum deles tem qualquer
direito de vir a deter participação na FRBS no futuro".
TROCA DE MENSAGENS
A revista Forbes é o carro-chefe da FRBS, famosa por
retratar personalidades do mercado financeiro, do mundo da moda e do luxo no
Brasil, além de elaborar rankings das pessoas mais ricas do país.
A companhia também promove festas de gala com
empresários, artistas e influenciadores e controla uma rádio em São Paulo,
inaugurada em fevereiro deste ano.
Daniel Vorcaro participou de eventos da Forbes
Brasil, como uma festa de luxo em Nova York, realizada em 2022. Mensagens
vazadas de conversas entre o ex-banqueiro e Martha Graeff, sua ex-noiva,
indicam que Vorcaro mantinha canal direto com Antonio Camarotti.
No dia 21 de outubro de 2024, Vorcaro encaminhou a
Martha uma mensagem de cumprimentos enviada ao casal —que à época brincava
publicamente sobre a possibilidade de casamento— e identificou o autor da
mensagem como "Camarotti Forbes".
Consultada, a defesa de Vorcaro não quis se
manifestar.
O ELO COM OS FUNDOS DO MASTER
Desde que o Eagle Eye registrou na CVM ter
participação na Forbes, o fundo realizou diversas operações paralelas
envolvendo estruturas já apontadas nas investigações como sendo de Vorcaro,
suas empresas ou familiares.
O Eagle Eye detém cotas do fundo Hans II, integrante
de uma cadeia bilionária que passa pelo Jaya FIP e pelo Jade FIP —estrutura
que, segundo a Polícia Federal, tem como beneficiário final a Golden Green
Participações, empresa controlada por familiares de Vorcaro e investigada por
fraudes no mercado de carbono.
Em outubro de 2024, o Astralo 95 comprou as cotas do
Eagle Eye por R$ 123,3 milhões. Um dos fundos do ecossistema Master com maior
patrimônio declarado, cerca de R$ 15 bilhões, o Astralo 95 reúne mais de 30
estruturas já conhecidas nas investigações, além de debêntures, precatórios e
aplicações em empresas como a Lormont Participações, do empresário Nelson
Tanure.
O patrimônio declarado do Eagle Eye apresentou
oscilações ao longo de 2025: saiu de R$ 143,9 milhões no início do ano para R$
891 milhões em março, disparou para R$ 5,5 bilhões entre setembro e novembro e
recuou para R$ 892 milhões em dezembro, após a primeira prisão de Vorcaro.
O Eagle Eye registra ainda um mútuo conversível de
R$ 100 milhões vinculado a um CNPJ inexistente; declarou R$ 65 milhões em obrigações
pela compra de uma Sociedade de Propósito Específico sem nome ou documentação;
e reportou R$ 1,43 bilhão em valores a receber —equivalente a 160% do seu
próprio patrimônio— sem identificar as contrapartes das operações, mostram os
documentos da CVM.
A Next Auditores consta na CVM como responsável pela
auditoria do fundo, mas negou ter sido contratada para a função. "Não
emitimos relatório de auditoria, revisão, asseguração ou qualquer outro
documento técnico relacionado às demonstrações financeiras, ou informações
prestadas pelo referido fundo", disse à Folha. Ela auditou outros fundos
do caso Master.
Questionada, a CVM disse que não comentaria casos
concretos e situações específicas.
Folha de São Paulo

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