terça-feira, 2 de junho de 2026

Banco Central busca no STF entendimento para evitar enxurrada de ações judiciais de fintechs com licença negada

 


O Banco Central está tentando obter do Supremo Tribunal Federal (STF) uma decisão vinculadora que barre a esperada enxurrada de ações judiciais de fintechs que terão seus pedidos de licença negados, dentro dos esforços para sanear e fortalecer o sistema de pagamentos contra os ataques do crime organizado.

A liminar obtida pela fintech CorpX contra a negativa do Banco Central para seu funcionamento como instituição financeira é, na visão da autoridade monetária, apenas uma das muitas que deverá enfrentar em tribunais de todo o país.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, alertou para esse risco em dois depoimentos recentes no Congresso, um ocorrido em abril na CPI do Crime Organizado e outro em fins de maio na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

O BC, segundo ele, enfrenta dois tipos de desafio: primeiro, a falta de recursos humanos e de instrumentos legais para retirar do sistema cerca de uma centena de instituições de pagamento que não serão capazes de cumprir as novas exigências de capital e de governança adotadas pela autoridade monetária.

O segundo ponto é exatamente na frente jurídica. “Pode ser que as instituições entrem com recursos nos diversos tribunais existentes na federação”, disse, na CPI do Crime Organizado. “Se a gente não tiver um entendimento pacificado, isso pode virar um caos do ponto de vista jurídico.”

Em março, Galípolo teve uma reunião com o presidente do Supremo, Edson Fachin, na qual o problema foi discutido, em conjunto com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante.

Sobre a escassez de recursos financeiros e humanos para lidar com a situação, Galípolo vem repetindo que poderão faltar liquidantes habilitados no mercado para lidar com as intervenções que podem ocorrer. Para ampliar seu arsenal, depende da aprovação da PEC da autonomia financeira e da nova Lei de Resolução Bancária.

Em 2020, o Banco Central havia adotado uma regra que permitia que instituições de pagamento se plugassem ao sistema do Pix sem uma licença prévia do BC, com o objetivo de ampliar a competição e a inovação no sistema. A intenção era conceder autorização nos anos seguintes, de forma escalonada.

No ano passado, porém, uma série de ataques hackers ao sistema de pagamentos — além de uma sequência de operações policiais, como a Carbono Oculto — mostrou que havia infiltração do crime organizado em fintechs. Também ficou claro que muitas fintechs não tinham capital mínimo para bancar os custos que garantem a segurança do sistema.

O BC vinha, aos poucos, revendo sua estratégia permissiva ao ingresso das fintechs e, em novembro de 2025, estabeleceu requerimentos mínimos de capital para operar. No caso das instituições de pagamento, o valor passa de R$ 1 milhão para R$ 9,2 milhões de forma gradual, a partir do segundo semestre.

O Banco Central também tem decretado a liquidação de fintechs que foram diretamente cooptadas pelo crime organizado ou que tenham sido coniventes.

As estimativas do BC são de que 63% das 200 instituições de pagamento fiquem desenquadradas dos requisitos mínimos de capital até a sua plena aplicação no fim de 2028. Muitas delas têm buscado fusões e aquisições para fortalecer seu capital. Mas muitas não devem sobreviver.

A regra também abarca outras instituições que têm sido usadas ou vêm sendo vítimas do crime organizado, como Sociedades de Crédito Direto (SCD) e Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM). Mais de 80% delas teriam deficiência de capital até a aplicação final da regra.

Valor Econômico

 

 

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