Antes de a Polícia Federal bater à sua porta nesta
quinta-feira (7), Ciro Nogueira já acumulava rejeições dentro do campo que
escolheu para chamar de seu. O presidente do PP foi, nos últimos meses,
sistematicamente recusado por figuras centrais do bolsonarismo. O motivo é
sempre o mesmo: ninguém esquece que ele foi aliado de Lula durante anos, que o
PP ocupou ministérios nos governos petistas. Que Lula o chamava de
"Cirinho" e ele retribuía o carinho.
O primeiro veto veio do próprio Jair Bolsonaro.
Cotado como candidato a vice numa chapa da direita, Ciro ouviu do ex-presidente
que seu nome não era viável. Bolsonaro alegou que pesquisas mostravam
dificuldade de Ciro para se reeleger no Piauí, o que revelaria pouca adesão
popular. Preferiu outros nomes, como Michelle Bolsonaro e o próprio filho
Flávio. Na prática, a rejeição era política: a base bolsonarista não aceita um
vice com DNA de Centrão e currículo petista.
Eduardo Bolsonaro foi mais direto. Em manifestações
nos Estados Unidos, o deputado criticou abertamente as articulações de Ciro
Nogueira, interpretando seus movimentos como tentativa de montar uma
candidatura de direita sem a família Bolsonaro no centro. A mensagem era clara:
o bolsonarismo raiz não confia em quem já serviu ao PT. Em novembro de 2025, o
próprio Ciro admitiu publicamente o desgaste. Disse a Bolsonaro que seu nome
estava fora do arco de possíveis vices. "Tudo o que eu falava, estavam
desvirtuando porque diziam que eu queria ser vice", declarou ao Estadão.
O problema de Ciro é que a desconfiança vem dos dois
lados. Ao mesmo tempo em que a base bolsonarista o rejeitava, ele procurou Lula
na Granja do Torto em dezembro de 2025 para negociar apoio à reeleição no
Piauí. Ofereceu afastar o PP de Flávio Bolsonaro em troca de um arranjo
eleitoral no estado. A informação vazou. O PT do Piauí resistiu. O governador
Rafael Fonteles e o ministro Wellington Dias não compraram a ideia. Ciro ficou
no vácuo entre a direita que não o quer e a esquerda que não o aceita de volta.
Agora, a operação da PF adiciona uma camada nova ao
isolamento. As investigações apontam que Ciro teria recebido R$ 18 milhões em
vantagens do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, incluindo mesadas de R$ 300
mil e viagens de luxo. O ministro André Mendonça, do STF, autorizou buscas em
endereços do senador em Brasília e no Piauí. O sonho de ser vice, coordenador
de campanha ou ao menos peça relevante na eleição de 2026 está sob escombros.
O senador que transitou entre Lula e Bolsonaro como
poucos na política brasileira agora enfrenta o destino de quem apostou em todos
os lados. Rejeitado pelos bolsonaristas por ser petista demais. Rejeitado pelo
PT por ser bolsonarista demais. E investigado pela PF por ser, segundo os
autos, próximo demais de um banqueiro. Ciro Nogueira construiu a carreira sobre
a arte de nunca fechar portas. Nesta quinta, foi a PF quem abriu a dele.

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