O texto é da coluna de Mario Sabino, do Metrópoles.
Eu estava a 300 quilômetros por hora, em um dos
trens de alta velocidade que cruzam a Itália de norte a sul, quando recebi a
notícia de que o Senado havia rejeitado “um dos maiores juristas da história
recente do país” para ser ministro do STF.
Confesso, e espero que ninguém peça a minha cabeça
pela confissão, que precisei ler duas vezes o elogio a Jorge Messias feito por
Gilmar Mendes, em postagem na qual o decano do Supremo lamentava a rejeição do
AGU de Lula, que a imprensa e a oposição brasileiras classificaram como
“histórica”, e não apenas da história recente.
Na primeira leitura, achei que estava sofrendo um
AVC; na segunda, já refeito do susto quanto à higidez das minhas faculdades
mentais, eu me perguntei se, na avaliação de Gilmar Mendes, esse irreprochável
Jorge Messias suplantaria essa incensurável Viviane Barci de Moraes, a advogada
de R$ 129 milhões.
O espaço está aberto para a resposta do decano,
desde que não se mande enfiar a questão em lugar despropositado, até porque
significaria igualmente tecer consideração preconceituosa sobre sexualidades
alheias, e o ministro nunca quis ser mal interpretado dos cimos da sua
estatura.
Temos, assim, que a rejeição de Messias foi
marcante, dada inclusive a grandeza do jurista (e como há juristas no Brasil
para substituí-lo, meu Deus, onde estás que não respondes?), embora histórico,
de verdade, seria se o país voltasse a ter trens dignos de desastres
ferroviários, se é que você me entende (já deles usufruímos, garotada, embora
não de muitos).
Pensei a minha ideia fora do lugar enquanto comia o
meu lanchinho na classe executiva do Frecciarossa (68 euros o bilhete, calma).
Para continuar nela, na ideia fora do lugar de trens
similares aos europeus no Brasil, sinto dizer que tal capítulo verdadeiramente
histórico não vai acontecer, nem cedo, nem tarde, dada a estupenda qualidade de
quem nos comanda, de quem nos legisla, de quem nos julga e, por que não dizer,
de quem nos comenta.
O mais provável é que ocorra o contrário: que tudo
de bom que ainda há nesta Europa mal frequentada por mim há quase meio século
vá para o mesmo brejo brasileiro, visto que aqui o material humano melhora a
olhos vistos como aí. Mas, por favor, Senhor, não imediatamente.
O Brasil é o país do futuro, o meu amigo Stefan
Zweig foi quem escreveu a linha lá em Petrópolis, onde cometeu aquele ato de
imenso otimismo com o Ocidente. Só que o futuro brasileiro era diferente do que
ele projetava e, repleto de gente feita sob medida para brilhar fora de
trilhos, revelou-se internacional. Universal, até, vamos deixar de lado o nosso
complexo de vira-lata.

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