Em fevereiro de 2025, durante o Encontro de Novos
Prefeitos e Prefeitas, em Brasília, o presidente Lula fez uma promessa clara e
pública diante de mais de 20 mil gestores municipais: "Nenhum prefeito
será discriminado em razão do partido político. As políticas são feitas para o
povo da cidade." Na mesma ocasião, afirmou que "a prefeitura é o
alicerce para que a União dê certo" e pediu que os gestores aproveitassem
o evento para destravar obras e buscar os recursos que ainda não tinham
saído.
Os discursos são bonitos. Porém, os documentos da
Prefeitura de Natal, expostos pela vereadora Nina Souza, contam outra história.
Nina apresentou na última quinta-feira (24) um ofício de 73 páginas, acompanhado
de relatório da Secretaria de Planejamento, mostrando que R$ 41 milhões em
verbas federais destinadas à capital potiguar estão travados.
Os recursos são de convênios nas áreas de mobilidade
urbana, infraestrutura e saúde. Em fevereiro, a retenção passava de R$ 50
milhões. Depois que o tema ganhou repercussão, o Governo Federal liberou uma
parte, mas o rombo permanece. Obras estão paralisadas, custos estão subindo e a
população está pagando a conta.
O detalhe que transforma o caso de Natal em caso
político é o contexto. A capital potiguar é governada por Paulinho Freire
(União Brasil), aliado do ex-prefeito Álvaro Dias (PL), e a vereadora Nina
Souza pertence ao PL, partido que abriga o principal adversário de Lula na
corrida presidencial.
Quando o presidente diz que "muitas vezes os
prefeitos do meu partido ficam zangados porque quem ganhou o PAC Seleções não
foi o prefeito do PT, foi o prefeito vizinho que não gosta do PT" e
complementa que "é assim que a gente vai exercer a democracia", está
vendendo uma imagem de republicanismo.
Mas quando R$ 41 milhões ficam parados justamente
numa cidade administrada por adversários políticos, enquanto a vereadora do PT
local minimiza o problema dizendo conhecer "apenas um caso", a imagem
de republicanismo ganha rachaduras sérias.
A pergunta que Nina Souza colocou na mesa é simples:
se Lula não discrimina prefeitos por partido, por que Natal tem R$ 41 milhões
retidos em convênios documentados, com obras paradas e serviços de saúde e
mobilidade prejudicados? A Prefeitura já enviou o ofício de 73 páginas pedindo
a liberação. Os documentos estão públicos. Os números estão detalhados. A
promessa de Lula está gravada. Agora falta só uma coisa: a resposta. Porque
entre o discurso de Niterói e a realidade de Natal, há R$ 41 milhões de
distância. E distância, nesse caso, tem nome: descaso.

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