“500 reais, via Pix. Foi a ajuda do Alcides Hahn
para a vaquinha do ônibus que levou um grupo de manifestantes para Brasília,
dias antes do 8 de janeiro. A informação é um artigo de Fernando Schüler,
no Estadão.
Hahn tem 71 anos e é um desses pequenos empresários
“colonos”, que fizeram a força comunitária do interior de Santa Catarina.
Alguém pode sugerir que ele “sabia de tudo”. Sabia que aquelas pessoas iriam
ocupar a Esplanada, invadir os prédios, pintar aquela estátua com o batom
vermelho e tudo mais. Mas dizer isso não passa de um patético cinismo.
O fato é que ele foi condenado a 14 anos de prisão.
E só um País domesticado, que perdeu completamente o senso republicano, é
incapaz de perceber o elemento absurdo em tudo isso.
Hahn, assim como outros pequenos empresários,
condenados do mesmo jeito, não cometeu crime nenhum. Não foi a Brasília e nem
tentou dar nenhum golpe. Ele é apenas parte de uma multidão amarrada por um
conceito. O crime-conceito. O delito que não precisa de enquadramento objetivo.
Apenas de “entendimento” bem-amarrado.
“Individualmente”, leio em uma matéria, “Hahn não
cometeu delito”, mas fazia parte da “multidão”. A multidão criminosa, autora da
“trama golpista”, o crime “multitudinário”.
A gordura escorre de cada uma dessas palavras e me
faz lembrar da frase que um dia escutei de um velho professor: nada é mais
difícil de refutar do que uma tese absurda.
Alcides não tem foro, deveria ser julgado na
primeira instância, com direito a recursos? Irrelevante. Não teve a conduta individualizada?
Irrelevante. Uma vez dado o conceito, mesmo um pequeno comerciante do interior
e seu Pix de 500 reais ganham status de “associação criminosa armada”, um dos
crimes pelo qual foi condenado. Simplesmente não há como refutar uma coisa
dessas.
Tudo me fez lembrar do filósofo italiano Giorgio
Agamben e sua tese sobre o “estado de exceção”. Muito do que se passa no Brasil
refere-se a isto. A esta zona cinzenta entre o que é legal e o que é meramente
político. Entre o que é “ilegal”, mas que por efeito de alguma razão de Estado,
definida pelo próprio poder, se converte em “perfeitamente jurídico e
constitucional”.
O Sr. Hahn é apenas o exemplo bem-acabado de um tipo
que criamos no País dos anos recentes: os brasileiros irrelevantes. Brasileiros
sem pedigree, sem história, sem “retórica”. E por óbvio, sem poder algum.
Pessoas que tem seus direitos claramente violados, mas que desaparecem em meio
à guerra política e nossa mais completa falta de empatia.
Muitos enxergam seu drama como uma vitória da
democracia. Meu velho professor tinha razão. É realmente difícil, se não
impossível, refutar uma ideia como esta.”

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